FregaBlog

quinta-feira, novembro 30, 2006

PFL - Morte Anunciada?

Os mais novos não acompanharam. Os mais velhos, às vezes, nem se lembram. Mas o PFL surgiu como uma dissidência do antigo PDS - partido da situação no período revolucionário - não com fundamento ideológico, porém como um movimento intra-partidário de repúdio à vitória do Maluf sobre o Andreazza na convenção para escolha de candidato à sucessão do Figueiredo. Nasceu errado. Não com base em uma concepção de Governo, pois até 3 meses antes ungia e lambia e governo de então, como o fez em todos os governos militares. Mas como um movimento personalista. Nesse nascimento torto, e até por sua origem pré-natal, sublimou o mau hábito de ser situação, seja qual for o governo. Assim, participou ativamente, incluindo ministérios, do governo do Sarney, do Collor na segunda fase (na primeira o hoje teotônico presidente chegou a ser classificado como o "homem da mala"), aliou-se oportunisticamente para eleger e reeleger FH e chegou a fazer velada campanha contra José Serra, quando a vitória de Lula, em 2003, eram favas contadas. Inaugurou sua fase oposicionista a partir de 2004, mantendo-se à sombra do PSDB, até porque, além de não possuir o viés de oposição, em 20 anos de existência não formulou qualquer plataforma ideológica que se pudesse contrapor à outra no campo das idéias. Sentiu a possibilidade de voltar a ser governo; jogou todas suas fichas na não reeleição, contentando-se mais uma vez com a vice-presidência, a reboque de outra sigla, esta sim com plataforma, goste-se dela ou não. Ou seja, um partido despersonalizado, sem respeito próprio, vocacionado para as sobras e migalhas, desde que sejam para si. Isto explica a oposição raivosa de seu germânico dirigente - acabar com essa raça de petistas - e de sua retumbante derrota eleitoral. Concentrou o que havia de pior na antiga UDN sem aproveitar-se de seus méritos. Vive absoluta crise de identidade. Está moribundo.
Mas suas velhas raposas políticas, na constatação de ficarem 8 anos longe do poder - talvez 16 porque o Aécio é forte candidato para 2010 - na evidência de que não são eternos e que talvez morram antes de esticarem seus tentáculos nos cargos federais, buscam retirar das cinzas, tal como Fênix, sua nova encarnação. Rompem com seu senhorio, o PSDB, anunciam a vontade de serem os efetivos opositores do segundo mandato, tentam forjar um espaço político que trocaram desde o início por cargos em todos os escalões.
Missão difícil, porque seus dirigentes não se formaram nos embates de idéias mas sim nos gabinetes, disputando indicações. E não formaram seus quadros com novas gerações, não houve renovação de lideranças. Seu saxônico presidente, secundado por babalaôs e meninos maluquinhos, sabem que seu estilo de fazer política está em extinção. O que não sabem é fazer política de outra forma. Em seu cortejo, arrastarão a sigla que poderia ser o último baluarte da direita liberal brasileira, inspirada nas idéias de Friedmann e Hayek. Farão falta? Só o futuro dirá.

terça-feira, novembro 28, 2006

Tráfego Aéreo

O controle do tráfego aéreo é o drama da vez. Não há jornal, noticiário ou reportagem que não trate do assunto, sempre carregando nas tintas e veiculando o pânico, aproveitando-se da ignorância sobre o assunto e da enorme atração popular pela catástrofe.
Sou piloto. Talvez essa condição me deixe um pouco menos ignorante no tema. De forma geral, vôo no espaço aéreo G (sabem que há 7 espaços aéreos, cada um com suas características?), espaço esse em que somente são prestadas informações. No entanto, também utilizo outros espaços, esses sim controlados. Há regras específicas e nada tira do comandante a responsabilidade final sobre o vôo. Cabe a ele cumprir o plano de vôo estabelecido e não alterá-lo sem autorização. Cabe a ele manter os equipamentos de segurança e navegação ligados (os do Legacy estariam?) ou reportar aos órgãos controle sua inoperância.
Há pontos cegos, surdos ou mudos? Talvez, porque a propagação de ondas eletromagnéticas sofre interferências. Sua televisão não chovisca e seu rádio não apresenta ruídos eventualmente? Seu celular não cai a ligação? Os equipamentos aeronáuticos também. Não raras vezes ouvimos uma aeronave fazer ponte para outra, ou seja, intermediar a comunicação com o controle. É procedimento absolutamente normal e recomendável. Isso não significa equipamentos com defeito ou obsoletos. São ondas de rádio.
Não raras vezes também ouvimos o controle chamar a atenção de comandantes, inclusive da aviação comercial, sobre procedimentos inadequados.
A bem da verdade, todas as vezes em que solicitei contato fui atendido, mesmo se tratando de aeronave de pequeno porte, em regras de vôo visual. E todas as vezes que o controle sentiu necessidade de fazer contato comigo, seja para obter informação, seja para prestá-la, foi solícito, competente e os equipamentos funcionaram muito bem.
Na linha do pânico e da catástrofe, ouvi que o TCU faria uma devassa no controle aéreo. Puro jogo para a platéia, pois de avião conhecem somente o cartão de embarque para vôos a trabalho ou nem tanto. Com certeza, após milhares de horas de auditoria por "especialistas em generalidades" e o gasto de milhões de Reais buscando talvez um carimbo que não foi aplicado num formulário qualquer, concluirão recomendando que se façam investimentos no setor .
Ora, nos últimos 5 anos talvez não tenham morrido por acidentes aéreos mais de 200 pessoas no Brasil. Mais de 10 vezes isso morreram de acidentes em transporte rodoviário. E o competente TCU não determinou nenhuma devassa, que eu saiba. Será porque os dignos traseiros ministeriais raramente assentam-se nos ônibus - urbanos e rodoviários - não sofrem com os atrasos (maiores do que os dos aviões); não correm os riscos de estradas que, algumas, não podem ser duplicadas antes que os luminares do IBAMA o aprovem; não sofrem os assaltos constantes nas rodovias?
Ou será só porque acidentes com ônibus, frequentados habitualmente por camadas mais pobres, não acendem as luzes dos holofotes?
Está na hora de encarar nossa realidade sem a iconoclastia que nos torna sempre os piores do mundo sem realmente sermos.
Os equipamentos não são sucateados, os sistemas de vigilância operam muito bem, obrigado, os controladores (mal pagos pois não são vinculados nem ao legislativo nem ao judiciário) competentes, as regras e doutrinas de vôo obedecidas e padrões de segurança, internacionalmente aceitos, atendidos.
Melhorar, sempre pode e deve. O que não deve é gerar uma insegurança onde não há, apenas por audiência, por ser o tema da vez.
Nesta semana, um apresentador conhecido, após arregalar os olhos de terror, gesticular a cabeça em reprovação e impostar a voz, denunciou que os equipamentos operam com 60% de sua potência para aumento de vida útil. Fiquei pensando se ele opera o motor de seu carro com 100% da potência ou se ouve CD com volume no máximo. Não importa o nível de potência em que os equipamentos operam e sim sua efetiva funcionalidade. E, pelos níveis de segurança das operações aéreas registrados no Brasil, funcionam bem, sim senhor.

Salário e Funcionalismo Público

A de hoje é o aumento dos rendimentos de Deputados e Ministros do Supremo. Os primeiros querem equiparação com os segundos e os segundos querem aumento de rendimentos, num círculo de maravilhosa simbiótica. Ganham pouco para suas responsabilidades de servidores num Estado deficitário, que não consegue pagar os juros de sua dívida. Um Estado ausente na saúde, educação e segurança. Um estado com Leis - em especial no campo penal e tributário - que efetivamente não defendem a sociedade. Um faz as leis, outro as aplica. Estarão fazendo por merecer esse aumento?
O pior é que, hoje, não há emprego melhor do que o funcionalismo público. A população sabe disso, tanto é que as filas dos concursos são intermináveis.
Na média, um ascensorista no Congresso ganha mais que um engenheiro; um servidor nos tribunais, inclusive os de contas, mais que um professor. Em média, o funcionalismo ganha bem mais do que os empregados de mesmo nível em empresas privadas. E ainda contam com o instituto da estabilidade e com aposentadoria integral. E cá pra nós, nem trabalham tanto assim...
Este é um escândalo muito maior do que o pretendido aumento de suas Excelências, porque o Estado nada produz, somente regula. Mas nisso, ninguém tem coragem de tocar.
Nessa alienação coletiva, os que fazem as Leis que absurdamente nos regem e os que as aplicam nem sempre com espírito crítico sentem-se no direito de ganhar mais de 70 salários mínimos mensais, valor de um automóvel por mês. Talvez, se fizerem as contas e nelas incluírem os régios salários pagos à burocracia do legislativo e judiciário, cheguem à conclusão de que não há reforma possível do Estado sem que a cabeça deles seja reformada, que voltem à origens em que o funcionário público, incluindo suas Excelências, serviam ao Estado, e não serviam-se dele.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Racismo ou Indução ao Racismo?

Ontem foram divulgados pela TV dados do censo do IBGE de 2003 sobre o acesso de negros e mestiços em postos de chefia de empresas, anafalbetismo ou baixa escolaridade e níveis de pobreza, frente aos outros grupos raciais no Brasil.
Os dados eram francamente desfavoráveis aos negros, porém, fiquei a pensar: é porque são negros ou porque a maioria de nossa população sobrevive tangenciando a miséria e os negros e descendentes formam a imensa maioria do povo brasileiro.
De fato, são raros os brasileiros brancos sem miscigenação, talvez restritos até a 3ª geração de imigrantes europeus.
Estou convencido que as ditas políticas de inclusão racial estão a mascarar a exclusão pela miséria, o apartheid econômico. Pior, imitando políticas de países em que há efetiva discriminação racial, como nos Estados Unidos. Lá um negro não entrava numa universidade por ser negro. Aqui não entra o negro ou o branco ou o índio pobres, porque não tiveram oportunidade de acesso ao estudo básico com qualidade. Tira-se o sofá da sala estabelecendo quotas ao invés de tratar do cerne da questão: a educação. Políticas de inclusão social devem combater as causas da exclusão. Em nosso País, por enquanto, a causa é econômica, representada pela concentração de renda.
Enquanto isso, para tapear nós outros, fomenta-se e induz-se políticas raciais como políticamente corretas. E a história mostra: toda a vez em que o Estado adota critérios raciais para suas políticas públicas, estabelecem-se divisões sociais com cidadãos de 2ª classe pelos mesmos critérios. Se tiver dúvida, lembre-se dos judeus no III Reich.

domingo, novembro 26, 2006

Juvêncio

Aconteceu de repente. Quando percebeu, seus olhos cruzaram-se e o encontro foi inevitável. Ainda teve o reflexo de fugir, fingir que não viu, amarrar o sapato, olhar pras nuvens, se fazer de desentendido.
Não adiantava. O Juvêncio já estava na sua frente, com seu sorriso molhado, o que dava calafrios em Paulo. Esse sorriso, daquela forma, com os lábios entreabertos e ligeiramente assimétricos, sinalizavam uma dose quase letal de chatice.
Juvêncio, cabelos emplastrados do Gumex que conseguia manipular na fórmula original numa farmácia do Núcleo Bandeirante, vestia seu indecifrável terno preto, camisa irremediavelmente branca e constante gravata vermelha, como todas suas gravatas. Intimamente saboreava a combinação desse adorno com o rubi (sintético, a bem da verdade) de seu anel de grau. Adquirira o hábito de coçar o queixo com a mão direita – nela usava seu anel – virando esse cacoete sua marca registrada. Assim dizia ao mundo que era advogado e salientava a combinação com sua gravata.
Do dedo, o anel saíu uma vez só, ordenado pelo médico ao examiná-lo, inchado e roxo. Divulgou Juvêncio que o machucou jogando squash. Seus colegas de trabalho, certamente por inveja e maledicência, garantem que Juvêncio esqueceu o dedo ao fechar o vidro do carro.
Recentemente havia sido designado para a sub-chefia de uma seção no governo. O chefe, homem soturno e burocrata convicto, desistiu de resistir ao assédio, ao puxa-saquismo explícito, à coçada no queixo. Não era à toa que, na repartição, referiam-se a ele como Juvêncio Carrapato, uma evidente maldade.
Do próprio bolso, mandou imprimir cartões de visita com o brasão da república, sem esquecer, lógico, o Bel. antes do nome em negrito, ostentando sua nova posição na nomenklatura federal. Na quinta-feira seguinte à publicação de seu nome no Diário Oficial, foi ao Bar do Professor onde distribuiu seus cartões com fartura, para gozação dos poucos conhecidos e pasmo da grande maioria atônita, que nunca o tinha visto mais gordo. Contam até que naquela quinta-feira, a discussão etílica foi intensa, chegando à troca de sopapos entre um petista exaltado e um tucano bêbado. Com mais álcool do que sangue, confundiram-no com candidato à Distrital e com participante do mensalão, respectivamente, porém não na mesma ordem.
Paulo voltou à realidade e viu-se frente à frente com o sorriso, seguido pelo aperto de mão, nunca menor que um minuto. Em verdade, quando Juvêncio segurava a mão de alguém, tinha dificuldade em separar-se dela. Desde pequeno era assim, o que lhe custou alguns cascudos de seu tio Nalvo, que não gostava dessas intimidades. Diferente de sua tia Zenita que aproveitava a lerdeza do garoto para segurar seu sutiã, enquanto fingia amarrá-lo às costas. As duas mãos do Juvêncio eram providenciais. Não desgarravam.
Cultivava seu sotaque regional, carregando nos erres e esses, ós e és. Lembrava-lhe o pai, sertanejo e analfabeto, que a seca, a miséria e a cachaça tinham matado bem no dia do aniversário de cinco anos do Juvêncio. No auge de sua inocência, foi a melhor festa de aniversário que teve, com abraços demorados, café e bolo de puba e nenhum cascudo do tio Nalvo.
Das poucas lembranças da infância, essa era uma. Outra foi quando seu pai o viu cantar o a-e-i-o-u, decorado a duras penas pelos ensinamentos e paciência da Jurema, mulatona gorda, vizinha e professora. Nesse dia, o habitual tapa na cabeça, única manifestação de afeto, veio acompanhado de um tonitroante "eita, essa peste do rato vai ser dotô, de anel no dedo."
Paulo deu-se conta que sua mão continuava aprisionada. Respondeu um tudo bem, mesmo sem se lembrar da pergunta. Conseguiu desvencilhar sua mão e preparou-se para escutar.
Contou-lhe Juvêncio as novidades, já pisadas e requentadas. Que tinha sido convidado para assumir importante função.
"O chefe, burro e incompetente, precisava dele e não admitiu recusa. Mesmo com toda relutância e condições impostas – comparecer à seção somente de terças a quintas, e à tarde, tive que aceitar", contou coçando o queixo com a mão do anel.
Aproveitou para sacar do bolso seu cartão de visitas, estoque guardado numa carteira vermelha, de courvin barato mas com reluzentes brasão da república em um lado e Ordem dos Advogados do Brasil em outro, gravado com letras douradas,.
"Tome, é meu novo telefone, estou a seu dispor", esquecido das dezenas de vezes anteriores em que a cena se repetiu.
E continuava, sem trégua. "Consegui recuperar a SAB, lembra-se, aquela rede de supermercados do governo. A pressão foi grande, até o Diniz me ligou sábado passado, lá em casa, pra pedir uma carência de dois anos antes de entrarmos em operação, para se adaptarem. Mas esse seu criado aqui não dá colher de chá. Autoridade é autoridade."
Paulo distraiu-se e rogou aos céus que um Boeing caísse bem ali na esquina. Que não fosse um Boeing, até o helicóptero dos Bombeiros servia, ou mesmo uma van desvairada que invadisse a parada de ônibus. Qualquer coisa que lhe desse o pretexto de sair correndo. De fugir. De tornar-se invisível. Um fantasma.
O Senhor não lhe atendeu, sequer uns pingos de chuva caíram.

Ói eu aqui

Hoje resolvi criar este blog. Acho que é a melhor maneira para dar vazão a meus pensamentos e posicionamentos, partilhando-os com quem interessar, como um espaço de idéias e debates.
Quando quiser, e se quiser, este espaço está aberto para todos nós.
Frega Jr