FregaBlog

sábado, dezembro 30, 2006

Antunes Fumacê - o Interrogatório

- Dizem que foi por causa da maconha, mas eu, conhecedor dos fatos, tenho obrigação de prestar meu depoimento. Comigo é assim, pau é pau; pedra é pedra...
- Sim, Excelência, vou direto ao assunto.
- Quando conheci o Antunes, ele já passava dos 35. Tabelião-substituto. Queimava os dias apondo uma garatuja em papéis pré-carimbados. Reconhecendo e dando fé.
- Era pontual, não faltava ao serviço. De segundas às sextas, das 9 às 16h, lá estava o Antunes ganhando o pão de cada dia, proporcionado pelo pai de criação da Zenita, trubufu de retrós, ele sim, Tabelião.
- Sim, Sr Juiz, Antunes sempre teve temperamento calmo e contemplativo. Para o Sr saber, dizem que o Antunes nasceu assim. Já no parto, além das tradicionais palmadas, teve o médico de aplicar-lhe beliscões. Respirar, não queria.
- Sim, Sr Juiz, não vou mais comentar fatos alheios à questão.
- Não, Sr Juiz, Antunes era até bem inteligente, fazia tudo de cabeça, memória de prodígio. Só que preferia meditar. Disse-me um dia que conseguiu ficar sem pensar em nada, oco escuro em seu cérebro, vácuo quântico, negação da consciência e da inconsciência. O supra-sumo, estágio restrito a algumas categorias de alguns tribunais.
- Não, Sr Juiz, os de Contas. Sim, Sr Juiz, desculpe, quem sou eu para emitir essas opiniões sobre autoridades. Perfeitamente, entendo minha insignificância.
- Fumava maconha, sim Sr, introduzido no hábito ainda adolescente por sua prima mais velha e pilantrinha. Acompanhado da marijuana, meditava por outros universos por horas. Não, não ficava agressivo, apenas com fala mole e ar abobalhado.
- Sim, Sr Juiz, a prima e as bochechas do Antunes não vêm ao caso.
- É verdade. A sogra, uma cascavel sempre suando pelas rugas das ventas...
- Sim Sr. Juiz, a beleza da distinta senhora tabelioa não é parte do processo.
- Juntavam-se a sogra e a Zenita a mandar nele, sim Sr. "Antunes, vai comprar pão; Antunes, vai no verdureiro; Antunes, vai limpar os vidros; Antunes, leva o Lulu pra fazer xixi."
- Sim, Meritíssimo, as necessidades do Lulu não interessam a este tribunal, embora estejam na origem do crime...
-Sim, minha opinião é impertinente. Desculpe, mais uma vez.
- Foram, sim, por muitos anos. Não, a sogra não morava com ele, mas lá ia aporrinhá-lo todo o dia, às 6 horas da manhã. Como eu sei? Ora, pelo Antunes, quando o demovi de levar a velha para passear no zoológico e jogar-lha aos crocodilos. Claro, seria multado pelo IBAMA por intoxicar os animais, eu...
- Sim, Sr Juiz, a saúde digestiva dos sáurios do zoológico também não vem ao caso.
- É verdade, exasperado pelos grunhidos da velha para que limpasse o cachorro diarréico, esfregou o vice-versa - como se diz? - sim, o fiofó do Lulu no nariz da sogra. Não, Meritíssimo, não estou rindo, é nervoso. Sim, foi com tanta força que arrancou uma berruga centenária e os cabelos daquele monumental nariz. E olhe que o Lulu nem reclamou...
- Sim, Sr Juiz, sei, o Lulu não fala...
- Perfeitamente. Desculpe Sr Juiz.
- Que eu saiba, depois da higiene do Lulu, deu um chute na canela da Zenita, passou a mão na Jurema, cabocla ajeitada...
- Desculpe Meritíssimo, mas as coxas da Jurema...
- V.Exa tem razão. Perdão pela inconveniência.
- Onde ele está? Sei, sim Sr. Pelo menos até o mês passado estava em Alto Paraíso, aguardando o pouso de um disco voador. Na última notícia que tive, estava sentado em posição de lótus - é, aquela dos budistas - meditando numa pedra perto das Almécegas.
- Como, a polícia não o achou? Talvez tenha sido então levado para Marte contra a vontade, pois o disco voador encomendado era para levar a sogra.
- Sim, Sr Juiz, V.Exa afirma e quem sou eu para duvidar de sua sapiência? Se o Sr diz, eu só posso acreditar que discos voadores não existem. Quem sabe, então, Antunes transmutou-se em fumaça de maconha? Há vários relatos de uma nuvem fedorenta, estacionada entre Alto Paraíso e São Jorge...
- Não, Meritíssimo, não precisa. Prometo que não falo mais nada.

(Figuras de Brasília ... é publicada às segundas-feiras - às vezes)

Hanged

Bush conseguiu. Sadam foi enforcado. Quem ganha e quem perde?
Perde o Iraque, que mergulhará definitivamente numa guerra civil, cruenta e insana porque em nome de Deus.
Perde o ocidente porque potencializará o ódio à dita civilização judaico-cristã. Os atentados serão inevitáveis.
Perdem os americanos, nesse canto do cisne da pax romana moderna. De ditador, fizeram-no mártir.
Perde a paz, porque Sadam deixou de ser uma moeda de troca.
Ganham as minorias, como os curdos, por exemplo? Decididamente não. Continuarão à margem, párias de uma geopolítica remanescente do colonialismo.
Ganham os judeus? Não, sob o domínio xiita do Iraque, cenário provável, um novo eixo se formará - Irã de Ahmadinejad e Iraque sei-lá-de-quem.
Bush condenou Sadam pelo massacre de 148 curdos. Ninguém desconhece que os crimes praticados sob o regime de Sadam foram enormes, muito maiores do que isso. Bush mesmo, com essa guerra medíocre, já matou mais jovens americanos que o atentado de 11 de setembro, sem contar os iraquianos mortos. Bem, para Bush esses não contam, como nada conta o que não é americano.
Os Estados Unidos, prepotentes que são, umbigo do mundo que se consideram, até agora não haviam chegado totalmente à ausência de pragmatismo em sua política externa. Chegaram.
Assim, ganhou o mundo. Livrou-se de um bandido e mais rapidamente verá o fim da hegemonia americana.
O espírito gerado em Nuremberg só foi adotado como filosofia de Estado a partir de Bush. Hiroíto, na chefia de um estado que promoveu holocausto na China que transforma os campos de concentração em brinquedos infantis, foi mantido no trono japonês sem qualquer censura. Mesmo durante a Guerra Fria, Abel, condenado à morte, foi preservado e trocado posteriormente por Powers.
Bush, senhor das guerras e dos morticínios, entendeu que Sadam era descartável. Quem sabe, quando precisar, pagará o preço com seu próprio pescoço, pendurado numa corda numa das colunas do Capitólio. Ou fará todos os americanos pagarem por ele.
Condolências, Rice.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Estelionato Protegido

Na antevéspera do Natal, em meio ao tumulto causado pela venda de assentos inexistentes e indignação dos lesados, foi veiculada pela TV a imagem de policiais federais fazendo a segurança.
Ficou para mim a pergunta: segurança de quem?
Os policiais portavam armas de combate pessoal, como metralhadoras leves, intimidando usuários revoltados, numa demonstração cabal de que sua mera autoridade era insuficiente para inibir tumultos.
Brandiam contra a população desarmada por força de lei, as armas que lhes foram fornecidas por essa mesma população. O cachorro mordendo o dono.
Brandiam porque sua ação era imoral. Brandiam porque não lhes assistia o bom senso. Brandiam porque assim lhes foi ordenado. Praticaram a ultima ratio regis. Trocaram a força do direito pelo direito da força.
Enquanto isso, os esTAMlionatários, que venderam o que não tinham, que descumpriram todos os princípios da concessão, que escarraram nos direitos dos consumidores, que covardemente esconderam-se atrás de mocinhas indefesas e desinformadas nos balcões, que lesaram os passageiros e tentaram repticiamente escorregar a culpa para um apagão aéreo governamental, sumiram-se em recesso.
Seria ético e moralmente defensável que o uso do aparato repressivo fosse utilizado contra eles, os bandidos, e não contra as vítimas.
Vi também uma passageira que foi detida e indiciada em não sei o quê. Não vi, nem tive notícia, de algum agente dessa patifaria detido e indiciado. É uma inversão de valores.
O Cmte. Rolim deve estar retorcendo-se na tumba. O tapete vermelho, ícone da TAM para o tratamento nobiliárquico de seus clientes, hoje é vermelho de vergonha.
Só há uma saída. Boicotar a TAM, viaje em outra empresa, deixe-a sem chance de fazer booking, quanto mais overbooking, até que sinta necessidade de rever completamente seus procedimentos. Quanto ao aparelho repressivo, bem, deixa pra lá.
Não passam mesmo de cães de guarda.

terça-feira, dezembro 26, 2006

Super-Hombre

Fidel está à morte. Normal, isso acontece com todos os que nascem. Todos sabem disso, menos os que se acham super-homens.
Goste-se dele ou não, Fidel foi um homem que deixou sua marca na história.
Goste-se dele ou não, teve coragem de lutar e arriscar-se pelo seu País e por suas convicções. Só isso o diferencia da grande maioria das pessoas que passam pelo mundo.
Simbolicamente de Sierra Maestra, pôs para correr um grupo governante que fazia de Cuba um quintal e bordel de outros países mais ao norte. É inegável o avanço de Cuba nos campos da educação, saúde e redução de desigualdades.
Também é inegável que não aproveitou o momento para consolidar processos políticos de auto-determinação. O remédio, prescrito e aplicado goela abaixo, também causou perdas expressivas a Cuba.
Impossibilidade de discordância, nivelamento pela pobreza, tentativa de ingerência e exportação de seu modelo, isolamento, tudo isso é o preço a ser pago pelas novas gerações. Houve, então desenvolvimento efetivo?
Esse foi o Fidel estadista.
Grupos românticos e alienados, que aqui são os primeiros a reclamar democracia, cultuam Fidel como herói. Ao mesmo tempo em que se referem às ditaduras militares do cone sul como brutais, aplaudem Fidel em seu uniforme de campanha . Clamam por democracia e aplaudem Fidel com seu partido único e perpetuidade no poder, senhor único das cadeias lotadas por motivações de opinião. Reclamam de nepotismo e esquecem Raul Castro, irmão e herdeiro do trono cubano, imposto como sucessor embora sua visível apatia e carisma de um purgante.
Fidel é um ditador, nem melhor nem pior que os outros, autocrático e arrogante.
Sente-se dono da verdade e iluminado por Deus, o condutor, o líder, o Duce e Führer, o Stalin do Caribe. Imortal, por isso esconde o câncer que lhe rói as entranhas. Sua agonia é assunto de Estado. Secreto e fechado como as portas das prisões políticas. Afinal, super-hombres não podem ter câncer. E ele acredita-se um.
Fidel está à morte. Bom para Cuba e cubanos.
Curados da chaga do analfabetismo, poderão conhecer outros conceitos além de Marx, ler outras opiniões além das publicadas no Granma, readquirir sua liberdade de ser.
Fidel cumpriu seu papel ao dar ao povo cubano a dignidade da instrução e assistência. Infelizmente, à custa da dignidade individual, cidadã, da liberdade.
Foi bom Fidel ter existido, mas está indo embora com um atraso de décadas.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Plim-Plim

Na carta abaixo transcrita e pública na Internet, Rodrigo Vianna, repórter-especial da TV Globo desde 1995, expõe as entranhas das disputas, nem sempre limpas, pelo poder. Vale a pena lê-la e tirar suas próprias conclusões.
Em tempo, o jornalismo da Band está com um baita time. É uma boa opção alternativa.


Lealdade.
Quando cheguei à TV Globo, em 1995, eu tinha mais cabelo, mais esperança, e também mais ilusões. Perdi boa parte do primeiro e das últimas. A esperança diminuiu, mas sobrevive. Esperança de fazer jornalismo que sirva pra transformar - ainda que de forma modesta e pontual. Infelizmente, está difícil continuar cumprindo esse compromisso aqui na Globo. Por isso, estou indo embora.
Quando entrei na TV Globo, os amigos, os antigos colegas de Faculdade, diziam: "você não vai agüentar nem um ano naquela TV que manipula eleições, fatos, cérebros". Agüentei doze anos. E vou dizer: costumava contar a meus amigos que na Globo fazíamos - sim - bom jornalismo. Havia, ao menos, um esforço nessa direção.Na última década, em debates nas universidades, ou nas mesas de bar, a cada vez que me perguntavam sobre manipulação e controle político na Globo, eu costumava dizer: "olha, isso é coisa do passado; esse tempo ficou pra trás".Isso não era só um discurso. Acompanhei de perto a chegada de Evandro Carlos de Andrade ao comando da TV, e a tentativa dele de profissionalizar nosso trabalho. Jornalismo comunitário, cobertura política - da qual participei de 98 a 2006. Matérias didáticas sobre o voto, sobre a democracia. Cobertura factual das eleições, debates. Pode parecer bobagem, mas tive orgulho de participar desse momento de virada no Jornalismo da Globo.Parecia uma virada. Infelizmente, a cobertura das eleições de 2006 mostrou que eu havia me iludido. O que vivemos aqui entre setembro e outubro de 2006 não foi ficção. Aconteceu. Pode ser que algum chefe queira fazer abaixo-assinado para provar que não aconteceu. Mas, é ruim, hem! Intervenção minuciosa em nossos textos, trocas de palavras a mando de chefes, entrevistas de candidatos (gravadas na rua) escolhidas a dedo, à distância, por um personagem quase mítico que paira sobre a Redação: "o fulano (e vocês sabem de quem estou falando) quer esse trecho; o fulano quer que mude essa palavra no texto".
Tudo isso aconteceu. E nem foi o pior. Na reta final do primeiro turno, os "aloprados do PT" aprontaram; e aloprados na chefia do jornalismo global botaram por terra anos de esforço para construir um novo tipo de trabalho aqui. Ao lado de um grupo de colegas, entrei na sala de nosso chefe em São Paulo, no dia 18 de setembro, para reclamar da cobertura e pedir equilíbrio nas matérias: "por que não vamos repercutir a matéria da "Istoé", mostrando que a gênese dos sanguessugas ocorreu sob os tucanos? Por que não vamos a Piracicaba, contar quem é Abel Pereira? Por que isso, por que aquilo... Nenhuma resposta convincente. E uma cobertura desastrosa.
Será que acharam que ninguém ia perceber? Quando, no JN, chamavam Gedimar e Valdebran de "petistas" e, ao mesmo tempo, falavam de Abel Pereira como empresário ligado a um ex-ministro do "governo anterior", acharam que ninguém ia achar estranho? Faltando seis dias para o primeiro turno, o "petista" Humberto Costa foi indiciado pela PF. No caso dos vampiros. O fato foi parar em manchete no JN, e isso era normal. O anormal é que, no mesmo dia, esconderam o nome de Platão, ex-assessor do ministério na época de Serra/Barjas Negri. Os chefes sabiam da existência de Platão, pediram a produtores pra checar tudo sobre ele, mas preferiram não dar. Que jornalismo é esse, que poupa e defende Platão, mas detesta Freud!
Deve haver uma explicação psicanalítica para jornalismo tão seletivo! Ah, sim, Freud. Elio Gaspari chegou a pedir desculpas em nome dos jornalistas ao tal Freud Godoy. O cara pode ter muitos pecados. Mas, o que fizemos na véspera da eleição foi incrível: matéria mostrando as "suspeitas", e apontando o dedo para a sala onde ele trabalhava, bem próximo à sala do presidente... A mensagem era clara.
Mas, quando a PF concluiu que não havia nada contra ele, o principal telejornal da Globo silenciou antes da eleição. Não vi matérias mostrando as conexões de Platão com Serra, com os tucanos.Também não vi (antes do primeiro turno) reportagens mostrando quem era Abel Pereira, quem era Barjas Negri, e quais eram as conexões deles com PSDB. Mas vi várias matérias ressaltando os personagens petistas do escândalo.
E, vejam: ninguém na Redação queria poupar os petistas (eu cobri durante meses o caso Santo André; eram matérias desfavoráveis a Lula e ao PT, nunca achei que não devêssemos fazer; seria o fim da picada...). O que pedíamos era isonomia. Durante duas semanas, às vésperas do primeiro turno, a Globo de São Paulo designou dois repórteres para acompanhar o caso dossiê: um em São Paulo, outro em Cuiabá. Mas, nada de Piracicaba, nada de Barjas.!Um colega nosso chegou a produzir, de forma precária, por telefone (vejam, bem, por telefone! Uma TV como a Globo fazer reportagem por telefone), reportagem com perfil do Abel. Foi editada, gerada para o Rio. Nunca foi ao ar!
Os telespectadores da Globo nunca viram Serra e os tucanos entregando ambulâncias cercados pelos deputados sanguessugas. Era o que estava na tal fita do "dossiê". Outras TVs mostraram o vídeo, a internet mostrou. A Globo, não. Provava alguma coisa contra Serra? Não. Ele não era obrigado a saber das falcatruas de deputados do baixo clero. Mas, por que demos o gabinete de Freud pertinho de Lula, e não demos Serra com sanguessugas? E o caso gravíssimo das perguntas para o Serra? Ouvi, de pelo menos 3 pessoas diretamente envolvidas com o SP-TV Segunda Edição, que as perguntas para o Serra, na entrevista ao vivo no jornal, às vésperas do primeiro turno, foram rigorosamente selecionadas. Aquele diretor (aquele, vocês sabem quem) teria mandado cortar todas as perguntas "desagradáveis". A equipe do jornal ficou atônita. Entrevistas com os outros candidatos tinham sido duras, feitas com liberdade. Com o Serra, teria havido, deliberadamente, a intenção de amaciar.
E isso era um segredo de polichinelo. Muita gente ouviu essa história pelos corredores...E as fotos da grana dos aloprados? Tínhamos que publicar? Claro. Mas, porque não demos a história completa? Os colegas que estavam na PF naquele dia (15 de setembro), tinham a gravação, mostrando as circunstâncias em que o delegado vazara as fotos.
Justiça seja feita: sei que eles (repórter e produtor) queriam dar a matéria completa - as fotos, e as circunstâncias do vazamento. Podiam até proteger a fonte, mas escancarando o que são os bastidores de uma campanha no Brasil. Isso seria fazer jornalismo, expor as entranhas do poder. Mais uma vez, fomos seletivos: as fotos mostradas com estardalhaço. A fita do delegado, essa sumiu! Aquele diretor, aquele que controla cada palavra dos textos de política, disse que só tomou conhecimento do conteúdo da fita no dia seguinte. Quer que a gente acredite? Por que nunca mostraram o conteúdo da fita do delegado no JN? O JN levou um furo, foi isso? Um colega nosso, aqui da Globo ouviu a fita e botou no site pessoal dele... Mas, a Globo não pôs no ar... O portal "G-1" botou na íntegra a fita do delegado, dias depois de a "CartaCapital" ter dado o caso. Era noticia? Para o portal das Organizações Globo, era. Por que o JN não deu no dia 29 de setembro? Levou um furo? Não. Furada foi a cobertura da eleição. Infelizmente.
E, pra terminar, aquele episódio lamentável do abaixo-assinado, depois das matérias da "CartaCapital". Respeito os colegas que assinaram. Alguns assinaram por medo, outros por convicção. Mas, o fato é que foi um abaixo-assinado em defesa da Globo, apresentado por chefes! Pensem bem. Imaginem a seguinte hipótese: a revista "Quatro Rodas" dá matéria falando mal da suspensão de um carro da Volkswagen, acusando a empresa de deliberadamente não tomar conhecimento dos problemas. Aí, como resposta, os diretores da Volks têm a brilhante idéia de pedir aos metalúrgicos pra assinar um manifesto em defesa da empresa! O que vocês acham? Os metalúrgicos mandariam a direção da fábrica catar coquinho em Berlim! Aqui, na Globo, muitos preferiram assinar. Por isso, talvez, tenhamos um metalúrgico na Presidência da República, enquanto os jornalistas ficaram falando sozinhos nessa eleição...
De resto, está difícil continuar fazendo jornalismo numa emissora que obriga repórteres a chamarem negros de "pretos e pardos". Vocês já viram isso no ar? Sinto vergonha... A justificativa: IBGE (e, portanto, o Estado brasileiro) usa essa nomenclatura. Problema do IBGE. Eu me recuso a entrar nessa. Delegados de policia (representantes do Estado) costumavam (até bem pouco tempo) tratar companheiras (mesmo em relações estáveis) como "concubinas" ou "amásias". Nunca usamos esses termos! Árabes que chegaram ao Brasil no início do século passado eram chamados de "turcos" pelas autoridades (o passaporte era do Império Turco Otomano, por isso a nomenclatura). Por causa disso, jornalistas deviam chamar libaneses de turcos? Daqui a pouco, a Globo vai pedir para que chamemos a Parada Gay de "Parada dos Pederastas".
Francamente, não tenho mais estômago. Mas, também, o que esperar de uma Redação que é dirigida por alguém que defende a cobertura feita pela Globo na época das Diretas? Respeito a imensa maioria dos colegas que ficam aqui. Tenho certeza que vão continuar se esforçando pra fazer bom Jornalismo. Não será fácil a tarefa de vocês. Olhem no ar. Ouçam os comentaristas. As poucas vozes dissonantes sumiram. Franklin Martins foi afastado. Do Bom dia Brasil ao JG, temos um desfile de gente que está do mesmo lado.
Mas sabem o que me deixou preocupado mesmo? O texto do João Roberto Marinho depois das eleições. Ele comemorou a reação (dando a entender que foi absolutamente espontânea; será que disseram isso pra ele? Será que não contaram a ele do mal-estar na Redação de São Paulo?) de jornalistas em defesa da cobertura da Globo:"(...)diante de calúnias e infâmias, reagem, não com dúvidas ou incertezas, mas com repúdio e indignação. Chamo isso de lealdade e confiança".
Entendi. Ele comemora que não haja dúvidas e incertezas... Faz sentido. Incerteza atrapalha fechamento de jornal. Incerteza e dúvida são palavras terríveis. Devem ser banidas. Como qualquer um que diga que há racismo - sim - no Brasil. E vejam o vocabulário: "lealdade e confiança". Organizações ainda hoje bem populares na Itália costumam usar esse jargão da "lealdade". Caro João, você talvez nem saiba direito quem eu sou. Mas, gostaria de dizer a você que lealdade devemos ter com princípios, e com a sociedade. A Globo, infelizmente, não foi "leal" com o público. Nem com os jornalistas. Vai pagar o preço por isso. É saudável que pague. Em nome da democracia! João, da família Marinho, disse mais no brilhante comunicado interno:"Pude ter certeza absoluta de que os colaboradores da Rede Globo sabem que podem e devem discordar das decisões editoriais no trabalho cotidiano que levam à feitura de nossos telejornais, porque o bom jornalismo é sempre resultado de muitas cabeças pensando".
Caro João, em que planeta você vive? Várias cabeças? Nunca, nem na ditadura (dizem-me os companheiros mais antigos) tivemos na Globo um jornalismo tão centralizado, a tal ponto que os repórteres trabalham mais como bonecos de ventríloquos, especialmente na cobertura política!
Cumpro agora um dever de lealdade: informo-lhe que, passadas as eleições, quem discordou da linha editorial da casa foi posto na "geladeira". Foi lamentável, caro João. Você devia saber como anda o ânimo da Redação - especialmente em São Paulo. Boa parte dos seus "colaboradores" (você, João, aprendeu direitinho o vocabulário ideológico dos consultores e tecnocratas - "colaboradores", essa é boa... Eu não sou colaborador, coisa nenhuma! Sou jornalista!) está triste e ressabiada com o que se passou.
Mas, isso tudo tem pouca importância. Grave mesmo é a tela da Globo - no Jornalismo, especialmente - não refletir a diversidade social e política brasileira.
Nos anos 90, houve um ensaio, um movimento em direção à pluralidade. Já abortado. Será que a opção é consciente? Isso me lembra a Igreja Católica, que sob Ratzinger preferiu expurgar o braço progressista. Fez uma opção deliberada: preferiram ficar menores, porém mais coesos ideologicamente. Foi essa a opção de Ratzinger. Será essa a opção dos Marinho?Depois, não sabem porque os protestantes crescem... Eu, que não sou católico nem protestante, fico apenas preocupado por ver uma concessão pública ser usada dessa maneira!
Mas, essa é também uma carta de despedida, sentimental. Por isso, peço licença pra falar de lembranças pessoais. Foram quase doze anos de Globo. Quando entrei na TV, em 95, lá na antiga sede da praça Marechal, havia a Toninha - nossa mendiga de estimação, debaixo do viaduto. Os berros que ela dava em frente à entrada da TV traziam uma dimensão humana ao ambiente, lembravam-nos da fragilidade de todos nós, de como nossa razão pode ser frágil. Havia o João Paulada - o faz-tudo da Redação. Havia a moça do cafezinho (feito no coador, e entregue em garrafas térmicas), a tia dos doces...Era um ambiente mais caseiro, menos pomposo. Hoje, na hora de dizer tchau, sinto saudade de tudo aquilo. Havia bares sujos, pessoas simples circulando em volta de todos nós - nas ruas, no Metrô, na padaria. Todos, do apresentador ao contínuo, tinham que entrar a pé na Redação. Estacionamentos eram externos (não havia "vallet park", nem catraca eletrônica). A caminhada pelas calçadas do centro da cidade obrigava-nos a um salutar contato com a desigualdade brasileira.
Hoje, quando olho pra nossa Redação aqui na Berrini, tenho a impressão que estou numa agência de publicidade. Ambiente asséptico, higienizado. Confortável, é verdade. Mas triste, quase desumano. Mas, há as pessoas. Essas valem a pena.
Pra quem conseguiu chegar até o fim dessa longa carta, preciso dizer duas coisas...
1) Sinto-me aliviado por ficar longe de determinados personagens, pretensiosos e arrogantes, que exigem "lealdade"; parecem "poderosos chefões" falando com seus seguidores... Se depender de mim, como aconteceu na eleição, vão ficar falando sozinhos.
2) Mas, de meus colegas, da imensa maioria, vou sentir saudades.Saudades das equipes na rua - UPJs que foram professores; cinegrafistas que foram companheiros; esses sim (todos) leais ao Jornalismo. Saudades dos editores - que tiveram paciência com esse repórter aflito e procuraram ser leais às minúcias factuais. Saudades dos produtores e dos chefes de reportagem - acho que fui leal com as pautas de vocês e (bem menos) com os horários!Saudades de cada companheiro do apoio e da técnica - sempre leais. Saudades especialmente, das grandes matérias no Globo Repórter - com aquela equipe de mestres (no Rio e em São Paulo) que aos poucos vai se desmontando, sem lealdade nem respeito com quem fez história (mas há bravos resistentes ainda).
Bem, pelo tom um tanto ácido dessa carta pode não parecer. Mas levo muita coisa boa daqui. Perdi cabelos e ilusões. Mas, não a esperança.
Um beijo a todos.
Rodrigo Vianna.

Desafio Americano

Foi divulgado o déficit em conta corrente dos Estados Unidos no terceiro trimestre. Mantida a tendência e já considerando o acumulado, o déficit de 2006 estará próximo do PIB brasileiro. Para cobrí-lo, é necessário que os Estados Unidos captem cerca de 2,5 bilhões de dólares por dia.
Apesar do Bush e de suas aventuras bélico-histriônico-políticas, o déficit não é de hoje. Os Estados Unidos há muito tempo vêm praticando uma política de absoluta irresponsabilidade fiscal, acelerada a partir da revogação unilateral do compromisso de conversibilidade do dólar em ouro, que haviam assumido em Bretton Woods.
Até agora, eles financiam seu déficit pura e simplesmente emitindo moeda falsa, sem gerar inflação galopante porque é o padrão das reservas internacionais e de trocas.
O Irã de Ahmadinejad decidiu trocar suas reservas de dólar para euro. Se a moda pega, os americanos terão que comprar petróleo não mais com moeda falsa, mas com moeda forte.
Essa foi a razão principal da Guerra do Iraque, pois Sadam caminhava para isso, capitaneando um elenco de sheiks e emires. Em risco de insolvência, os EUA teriam que transigir em relação a Israel, alterando a geopolítica do poder no Oriente Médio e, em seguida, no mundo.
Ahmadnijad é um osso mais duro que Sadam. Ninguém sabe se tem a bomba, o que faz toda a diferença. Possui exército suficiente para defender-se, assim como a Coréia do Norte.
Em verdade, a China é o único país capaz, hoje, de desestruturar os EUA. Possuindo reservas superiores a 1 trilhão de dólares que, se convertida em euros, reviveria um 1929 potencializado. Não o fez ainda porque não lhe interessa. Mas, na Coréia, ninguém trisca.
Bush está numa sinuca de bico. Se deixar o movimento prosperar nos reinos dos petrodólares, estará quebrado. Se resolver aplicar sanções ao Irã, pretextando sua política nuclear, corre o risco de atingir a Coréia e, por tabela, a China. Se nada fizer, o american way of life estará com os dias contados, acostumados que estão a gastar o que não têm.
A exemplo da história infantil, parece que um menino gritou:
"O Rei está nu."

domingo, dezembro 17, 2006

Carlinhos Denatran - o Retorno

Lembram-se do Carlinhos, aquele que foi implantar suas teorias sobre trânsito no Iraque, por obra e graça de sua mania com números? Pois é, voltou.
As forças de ocupação não estavam suficientemente preparadas, ainda muito primitivas, para entender o alcance das propostas de Carlinhos, limitando a velocidade dos comboios militares a 10 km/h. Os oficiais de ligação estavam instruídos a não criar mais dificuldades com a ONU, além das já alimentadas por Bush. O equilíbrio era precário. Precisavam ganhar tempo sem desagradar a turma do Kofi Annan.
Primeiro, discutiram à exaustão o texto formulado por Carlinhos. A cada dia, a cada reunião, surgia uma dúvida sobre uma vírgula ou um termo de difícil tradução. Para facilitar, arrumaram um intérprete, o Habib, nascido em São Paulo, neto de um comerciante da 25 de Março. No Iraque já há dez anos, Habib havia desaprendido o português e nunca havia aprendido a falar árabe. Fanho de nascença, ficou mudo. Achado providencial, o Habib.
Superada a questão lingüística, as forças de ocupação despertaram-se para dificuldades técnicas.
" Mr Karlos, 10 Km/h? Quanto medir um quilômetro? Nossos velocímetros marcar só em milhas", esforçavam-se americanos e ingleses.
Enquanto isso, os comboios circulavam em alta velocidade, espantando galinhas e ovelhas e, eventualmente, atropelando alguma criancinha. Nada de relevante, portanto.
Apoteótico, entretanto, foi o apoio que recebeu da população nativa. Quanto mais devagar trafegassem os comboios, mais facilmente seriam atingidos pelos foguetes dos resistentes e por bolotas de cocô de bode, projéteis malcheirosos insistentemente lançados por meninos contra americanos e ingleses, arriscando-se à metralha amiga.
Os iraquianos estavam adorando Carlinhos e exigiam o cumprimento das normas. Os americanos, sem saída, o suportavam no limite do sem-saber-o-que-fazer. Quiseram até dar-lhe a Medalha de Honra do Congresso, desde que voltasse para o Brasil. O Itamarati, após consultas internas e discussões intermináveis, concluiu que Carlinhos seria mais útil à humanidade longe do Brasil, agradeceu e recusou. Que dessem a medalha, mas o Carlinhos lá ficaria. Os comboios começaram a explodir a 10 km/h, para alegria dos artilheiros. Obedientes às leis de trânsito, esses americanos.
Cheio de moral, a medida seguinte do Carlinhos foi estabelecer a exigência de Carteira Nacional de Habilitação para a pilotagem de carros-bomba. Pensando bem, era inadmissível que os carros-bomba, pilotados por motoristas inabilitados, continuassem a fazer vítimas inocentes no caótico trânsito babilônico. Infração gravíssima, com perda de 7 pontos. Evidente que essa norma desagradou gregos e troianos, xiitas e sunitas, que começaram, timidamente, a pregar uma fatwa contra Carlinhos. Os menos exaltados sugeriam a aplicação de um supositório de dinamite. Os mais exaltados, além do supositório, acender o pavio. Dizem que a vingança havia sido planejada pela CIA, mas ninguém tem prova disso.
Face à tão terrível ameaça, Carlinhos fez as malas, mandou-se para o Brasil.
Aqui, recebido com desagrado mas com toda pompa e circunstância, assumiu seu lugar no Denatran e arregaçou as mangas, com febril criatividade.
Brevemente, aguardem, será exigida CNH para pilotar bicicletas. Ainda não foi regulamentada porque Carlinhos não sabe como formular o exame escrito para o batalhão de analfabetos que têm na bicicleta seu único meio de transporte, nem para menores de idade, em atividades lúdicas. Mas ele vai dar um jeito nisso. Incansável, esse Carlinhos.

Refresco de Pimenta

E não é que o STJ concedeu liminar ao Pimenta Neves para continuar solto.
Eu até entendo. O crime que cometeu, para os Srs Ministros, deve ser de pouca monta. Afinal, o que é tirar a vida de uma pessoa, num Brasil de injustiças. Uma a mais, uma a menos, pouco importa para os magistrados que preferem, no frescor do ar-condicionado e dos recessos anuais, aterem-se ao princípio da presunção da inocência, mesmo contrariando o assassino que já se declarou culpado.
O jornalista Pimenta Neves cometeu, e não negou, um crime bárbaro. Possivelmente dono de personalidade doentia, manejando os liames do 4º poder, conhecedor dos meandros e corredores, sabe-se acima da lei, da ética e dos mais comezinhos princípios da humanidade.
Já velho, decrépito e apostando sua imortalidade na juventude de uma mulher, recusou-se, no alto de sua prepotência, a aceitar perdê-la. Que morra ela, então. Ele, continuará imortal, livre, leve e solto. Talvez até sem remorso. Ora, que ousadia a daquela moça, recusar-se a um semi-deus. Azar o dela, ousar pensar que tinha o direito de escolha.
Semi-deuses de mesmo quilate também são esses intérpretes de uma legislação absurda, formulada por outra falange de semi-deuses tão alienada quanto. Para eles, a vida, os basilares princípios sociais e de urbanidade, o respeito às pessoas, a solidariedade com o sofrimento de familiares, tudo se submete à um entendimento da letra da lei, mesmo que ilegítima e imoral.
Os extremos se tocam. Quando a sociedade afogar-se em leis e interpretações desse tipo, não mais haverá lei alguma. E a benevolência da magistratura superior somente irá acelerar o processo da desobediência civil, da desordem, do descalabro e da ausência de limites. Nesse momento, quando a justiça, ou vingança, como queiram, passar a ser executada pelas próprias mãos, atropelando tribunais, a única lei que vigirá será a da selva.
Será que a Min. Ellen Gracie já sentiu o gostinho?

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Faz Sentido

Transcrevo mensagem recebida. Não confirmei a fonte, mas seu conteúdo faz todo o sentido. Se as informações estiverem corretas, infelizmente, não foi o único desmando desse grupo que infelicitou o País comandando-o por 8 anos.

"Fonte: Associação de Engenheiros da Petrobrás

Crise Bolívia-Brasil – Gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol)

Carta de ex-petroleira encaminhada à jornalista Miriam Leitão do jornal O Globo.

"Minha querida Míriam,

O culpado disso tudo se chama Fernando Henrique Cardoso que deslanchou o famigerado Projeto Gasoduto Bolívia-Brasil, que vinha sendo postergado pelos militares a décadas, não sem razão, pois o risco-país, que é o que estamos vivendo hoje, era muito alto.

O corpo técnico da Petrobrás se opunha a este projeto. Na época, vocês da Globo, de braços dados com o corrupto do Collor, chamavam a Petrobras de corporativista, reduto de marajás, etc. Mas a empresa tinha razão. Não precisávamos deste gás caro. Tínhamos e temos excesso de óleo combustível BTE (baixo teor de enxofre), o melhor do mundo! Mas tivemos que criar artificialmente mercado para este gás natural importado a preços altíssimos, já na época da assinatura dos contratos (1997).

O projeto foi desenvolvido na subsidiária Petrofértil (empresa de fertilizantes destruída pelo Collor), que então passou a se chamar Gaspetro. Seu Vice-Presidente Menezes (posteriormente veio a ser Diretor da Petrobras por seus "serviços prestados" ao Governo FHC) tinha linha direta com o Presidente da República (FHC), pois este projeto era um dos constantes no programa Brasil em Ação, e o Menezes tinha carta branca para assinar compromissos em nome da Petrobras.

Quando este projeto, já com todos os compromissos sacramentados, foi transferido para a Petrobras, eu tive a infelicidade de ser a técnica designada, pela recém-criada Gerência de Gás (GEGAS), no Abastecimento, para avaliar o projeto. Na época o nosso Gerente era o Paulo Roberto Costa, hoje Diretor de Abastecimento, de quem tive a hora de ser Assistente Chefe de Gabinete até minha aposentadoria. A minha avaliação apontava para riscos que levariam a perdas enormes pela Petrobras, coisa de alguns bilhões de dólares. Para se ter apenas uma idéia, a Petrobras, através da Gaspetro, que agia em nome da Petrobras, assumiu 84% dos investimentos na transportadora do lado boliviano, GTB, para ter APENAS 9% de participação acionária naquela transportadora, onde fui posteriormente membro do Conselho de Administração por dois anos.

Ora, não se precisa ser nenhum gênio para verificar que aí tem maracutáia. Como se coloca 84% dos investimentos em troca apenas de 9% de participação acionária??? Quem ganhou com isso? Resposta: Empresas "pobrecitas" como Enron, Shell e BG. Em 1999, fiz um relatório expondo, à então Diretoria da Gaspetro, os riscos que estávamos correndo, pois as antigas exploradoras, como Chaco, BG, Amaco, estavam fazendo uma verdadeira campanha, através da mídia, contra a Petrobras, que só entrou na exploração de gás e condensado na Bolívia, após a lei modificando os "royalties".

A Bolívia reduziu, por lei, os royalties, de 51% para 18% para novas explorações. Isto porque, quando a Petrobras, forçada pelo governo FHC, através da subsidiária Gaspetro (note-se que a Gaspetro podia assinar qualquer coisa em nome da Petrobras relacionada a este projeto sem passar pelo crivo da Diretoria da Petrobras), assinou os contratos de compra de até 30 milhões de metros cúbicos de gás por dia, era sabido que a Bolívia, até então, só tinha reservas descobertas que garantiam 16 milhões de metros cúbicos por dia. Ou seja, o inconseqüente do FHC fez com que nossa maior empresa se comprometesse a comprar 30 milhões de metros cúbitos de onde não havia reservas e para onde não havia mercado!!!

Espero que vocês, como seres humanos, possam avaliar, a despeito de ideologias políticas e de uma forma justa, o que representaram as decisões tomadas inconseqüentemente no governo FHC. Considero a empresa em que trabalham corrupta e a serviço do grande capital. Espero que vocês, como pessoas, possam ser mais grandiosas que isso.

Coloco-me a seu dispor para esclarecimentos adicional e apresentação de provas do que digo. Meu telefone: 21 2275-2536. Por um Brasil melhor e para todos!

Cordialmente,

Carmen"
Sempre lutando por um Brasil melhor!!!!
Abraços,

Carmen Barreto"

quinta-feira, dezembro 14, 2006

100(%) VERGONHA

A Mesa Diretora findou por aprovar um aumento 100(%) vergonha.
Não conheço os detalhes, quais verbas de gabinete, quais mordomias como auxílio combustível, auxílio correio etc foram cortados. Claro que sabemos que, mais dia, menos dia, voltarão todos com juros e correção. Sempre foi assim.
Em termos absolutos, não representa muito nos gastos gerais da União. Em termos relativos, é preocupante.
Atrás dessa decisão, virá uma enxurrada de cascatas de aumentos, beneficiando a todos que, espertamente, vincularam ou limitaram seus rendimemtos aos dos Srs parlamentares.
A Câmara do DF, por exemplo, cuja verba de gabinete é próxima a R$ 90 mil por deputado; em que, se todos os servidores fossem trabalhar, não haveria lugar físico que lhes acolhesse; que gasta quase 5% da arrecadação para seu custeio e do Tribunal de Contas a ela vinculado, deve estar rindo à toa.
Acabamos de passar por mais uma eleição. O prezado leitor ainda deve se lembrar dos cartazes e santinhos. Em sua esmagadora maioria, os candidatos estavam risonhos. Sabem de que riam? Riam-se de nós, que pagamos as contas que eles fazem em causa própria. Somos obrigados a pagá-las.
O que esses alienados não percebem é que tais atitudes fazem-nos todos descrer da democracia, em pensarmos que é somente um rótulo para benefício de poucos e que ansiemos, ou sejamos no mínimo tolerantes, com a idéia de um salvador da Pátria, que seja ditador porém honesto de propósitos.
A gente sabe que uma ditadura começa cheia de boas intenções e acaba cheia de maus atos. Mas, o que se dirá de um regime que já começa com intenções duvidosas e atos assim? Como explicar isso para a população? Como aceitar bovinamente isso?
Pod tudo, não foi uma decisão parlamentar. É uma decisão para lamentar.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Devassa Aérea

E não é que foi verdade?
Dia 28 de novembro publiquei que o TCU depois de propiciar muitas horas de ocupação para seu contingente de especialistas em generalidades examinar carimbos e papéis e gastar milhares de Reais de nosso suado dinheirinho, concluiria sua devassa - puro jogo para platéia - apontando que faltaram investimentos. Investimentos em quê?
Claro que não foi dito, a não ser genericamente, o óbvio risível, como equipamentos, sistemas, treinamento. Sempre falta isso em qualquer atividade, até na casa da gente.
Encontraram-se dois Ministros. Um para dizer isso. O outro, para rogar aos céus uma saída. Tenho pena desse último, mais assustado que cusco em tiroteio, torcendo que dezembro passe rápido e leve consigo o abacaxi que caiu no seu colo.
Ontem foi a vez do Cindacta II. Desligaram a energia para manutenção. Não acredito que os sistemas dependam exclusivamente da energia comercial, sem um no-break com gerador e banco de baterias. Seria muita irresponsabilidade. Esses sistemas não funcionaram? A informação oficial é que o desligamento estava programado.
Tenho fortes motivos para supor que isso é mentira.
Em primeiro lugar, não se faz manutenções dessa ordem em dia de semana, em pleno horário comercial. Em segundo lugar, se fosse programada, teriam antes testado a integridade do sistema reserva.
Estou começando a supor que, atrás desse caos aéreo, existem fortíssimos interesses econômicos, possivelmente ligados à questão de quem pagará o pato, ou melhor, a indenização pelas vítimas do 1907.
Vejam, se ficar comprovada a ineficiência do sistema de controle e a eventual culpa de controladores, agentes do Estado que são, a dolorosa será remetida diretamente à viúva que, com nossos impostos, cobrirá mais essa.
Estão fazendo tudo para desmoralizar o sistema, para provar que não funciona o que até setembro passado era exemplo.
O CINDACTA II, com sede em Curitiba, abrange o Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e partes de São Paulo. É trafego pesado e região com fronteira extensa.
Antes, foi a vez do CINDACTA I, com uma "queda" inexplicável de freqüência. O próximo, qual será? O III ou o IV?
Enquanto isso, o TCU diz que faltou investimento.
No bordão do Barrentinho, personagem do saudoso Bussunda - Fala sério!

domingo, dezembro 10, 2006

O Pavê

Pois não havia festa sem o pavê da Tia Lina. Como declarava em falsete o primo Jericó, esganiçado e fanho. Sem pavê, sem festa.

Perdeu-se na memória familiar desde quando o indefectível pavê era constante nos cardápios comemorativos. Desde sempre, surgiu com o Big Bang, considerava o primo Jericó, versado em astronomia e pós-graduado em horóscopo de jornal, que acrescentava colérico "jerico é a mãe, meu nome é Jericó", com inconfundível voz de taquara rachada. O epípeto era uma antecipação à piadinha permanente e repetitiva do primo Jacy, saindo de seu topor alcoólico para fustigar Jericó "manda esse jerico parar de zurrar".

O fato é que bastava uma festa, aniversário, aprovação no supletivo ou mesmo o enterro de um conhecido, tudo era pretexto para Tia Lina , maga das bolachas e cremes-de-leite, surgir com seu pavê.

- "É minha contribuição", modesta e orgulhosamente afirmava, olhos baixos, aguardando agradecimentos e elogios.

A bem da verdade, após décadas de constante treinamento, o pavê agradava a todos. Até Zenita, gerada nas macegas e criada pela família, diabética e manca, sempre dava um jeito de surrupiar uma lasca e comê-la escondida atrás da porta da cozinha. Escondida principalmente do Primo Jacy, que sempre que a via ordenava "manda essa saúva fechar a boca". Desagradável esse Jacy, mas não desprovido de razão. Por duas ou três vezes, após comer o pavê, teve Zenita que ser levada ao hospital, babando e com tremores. Para espanto dos plantonistas, Jacy berrava nos corredores "manda esse doutor receitar um namorado". Mandão, esse Jacy.

Assim, por muitos natais, páscoas, vestibulares e aniversários, missas de batizado ou de sétimo dia, acostumaram-se todos com o pavê da Tia Lina.

Solteirona empedernida, a esperar até hoje pelo caixeiro viajante que prometeu voltar - dizem as más-línguas que só lhe deixou lembranças e a Zenita, - levou sua vida a construir e montar pavês em todos os pretextos e ocasiões.

A decadência física da Tia Lina foi percebida por todos, não por sua tosse seca, sua magreza progressiva, surdez ou má visão, mas pela qualidade do pavê, que já não era o mesmo.

-É creme de leite do Paraguai, sibilava Jericó. Besteira, não se faz mais bolacha como antigamente, sentenciava Jacy, acrescentando "manda esse jerico calar a boca", afirmação prontamente contestada por um agudo "jerico é a mãe, meu nome é Jericó".

Um dia, após meteórica passagem de três dias na fila de um hospital, Tia Lina esticou as canelas, na afirmação irreverente de Jacy, coração de pedra. "Ainda bem, não agüentava mais pavê. Ela que vá fazer pavê pro Arcanjo Gabriel".

A família encontrou-se no Campo da Esperança. Quase toda, porque Zenita não estava. Encomendado o corpo por um padre alemão com sotaque italiano, no meio de um creio-em-deus-pai, Jericó interrompe com um grito desafinado: "A Zenita chegou e tá trazendo um embrulho". Desfeito o pacote, via-se uma travessa com pavê.

Junto com o doce tinha um bilhete da Tia Lina. Na mensagem post-mortem, flutuando numa bandeirinha fincada no pavê, com letra tremida, leram todos:

"Pensavam que não ia ter pavê no meu velório?"

(Figuras de Brasília... é publicada neste blog às segundas-feiras - às vezes)

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Bandido Profilático

Os brasileiros, em todas as classes econômicas e sociais, convivem e sofrem as conseqüências da epidemia de violência que nos cerca e ameaça. Há um clamor público, solenemente ignorado pelos que fazem as leis e pelos que as aplicam. Aqueles, sempre jogando para a platéia. Não conseguem impedir o contrabando de armas, como corolário, proíbem ao cidadão honrado tê-las.
Os últimos, com uma leniência fraterna, olham o crime pelo ponto de vista do bandido e não da sociedade que lhes contratou para puní-lo.
Todos, cercados de seguranças pessoais que nós também pagamos, vivem na ilha da fantasia, à margem da vida do cidadão.
Aí aparece um bandido que, fazendo o mal, presta um grande serviço. Assalta os Min. Ellen Gracie e Gilmar, no trajeto entre o Galeão e a Zona Sul.
Ohhhhh... comoção nacional. A segurança falhou. Não, não, a Ministra é que não pediu a segurança especial do TJRJ. Ohhhh...
A terceira figura na linha de sucessão brasileira foi assaltada, ficou sem suas malas, batons e maquiagens. O Ministro coadjuvante na desventura, talvez sem sua carteira, cartões de visita, de crédito e débito. Ohhhhh...
Entrevistada hoje, a Sra Presidente do STF disse que estava tudo bem, que a Governadora havia lhe ligado. Cumpriu a agenda oficial com a roupa de ontem (talvez tenha comprado em um shopping 24 horas uma ou outra peça de troca urgente e um tubo novo de laquê. Do Ministro, nada se falou, mas é de se supor que tenha feito o mesmo, excetuando, claro, o laquê.
A Governadora Garotinho, com algumas ações que certamente serão questionadas nesse mesmo Tribunal, agiu rápido. Determinou imediata repressão policial, que matou os dois culpados na Tijuca, menos de 24 horas após o ocorrido. Digo culpados porque, depois de entregarem suas almas a Belzebut, voltaram do mundo dos mortos para avisar os policiais que tinham sido eles. A Polícia Civil ainda não se pronunciou, nem quanto à culpabilidade, nem quanto à confissão post-mortem.
Como todos são iguais perante a lei, afirmado e reafirmado pelo Supremo com intensidade somente menor do que a presunção de inocência para culpados confessos e assinados, a Gov Garotinha estará perdoada por não cumprir a Lei de Responsabiliade Fiscal, pois a conta do telefone será astronômica caso ligue para todos os assaltados no Rio de Janeiro. Além dos cemitérios que serão ampliados para agasalhar em sono eterno os bodes expiat, digo, os defuntos boquirrotos.
Quem sabe, dessa salada, na medida em que os altos escalões sejam forçados a descer de seus pedestais, abandonar o irrealismo e viver, pouco que seja, os dramas da população; quando sentirem que já não estão mais tão seguros assim, porque a epidemia arrisca a todos de contágio, adotem medidas pragmáticas no combate à violência, nem que seja por razões de sobrevivência própria.
Os Ministros sentiram na carne o que os turistas sentem todos os dias no Rio de Janeiro e o que a população sente todos os dias no Brasil.
Senhores Ministros, bem-vindos ao mundo real.

Errei?

Pois é.
Por várias vezes considerei que o apagão aéreo estava sendo amplificado por diversos setores da sociedade, em busca de audiência, por desconhecimento, por qualquer outro motivo. Havia razões para isso.
Em primeiro lugar, até o malfadado acidente, as operações aéreas fluiam normalmente, sem sobressaltos. Um aeroporto aqui, outro ali, fechado por condições meteorológicas. Um sobrevôo de 10 ou 15 minutos no destino, por congestionamento de aproximação. Um retardo de 5 ou 10 minutos na cabeceira, aguardando autorização para decolagem. Nada de mais e nada diferente do que ocorre em todo o mundo, exceção de alguns países bem subdesenvolvidos.
Em segundo lugar, reafirmo que em toda a ocasião que acionei ou fui acionado pelos órgãos de controle aéreo, os equipamentos funcionaram e as orientações foram precisas.
Em terceiro lugar, pela filosofia operacional de integração do controle de tráfego com a defesa aérea "desse País", como diz o Lula. Não passava pela minha cabeça que pudesse haver descaso com a segurança nacional. Portanto, os equipamentos deveriam ser adequados.
Ledo engano.
Vem o Sr Brigadeiro Comandante da Aeronáutica, do alto de sua constelação de estrelas e de asas prateadas, declarar que os equipamentos, com mais de 6 anos de uso, estavam desgastados. Que eu saiba, equipamentos eletrônicos desgastam-se só se não forem corretamente mantidos.
E parece que é isso mesmo. Declarou ainda que não há um só técnico brasileiro capacitado para mantê-los, o que fica a cargo de uma empresa estrangeira, se bem entendi, com um técnico francês residente no País. É interessante que o ITA, de renome internacional e vinculado à própria Aeronáutica, que forma engenheiros eletrônicos do mais alto gabarito, não disponha de conhecimento para formar esses técnicos.Pior ainda, depois de chamado às falas pelo Pres Lula, declarou que irão comprar mais equipamentos para redundância dos sistemas.
Quer dizer que não há? Quer dizer então que uma dor de barriga qualquer, uma banana de dinamite que seja, dessas de quebrar pedra, pode deixar o Brasil cego, surdo e mudo em seu espaço aéreo.Quer dizer que esses senhores, no alto de sua empáfia, desprezaram tudo o que o País neles acreditou, formando-os desde cadetes para que cuidassem de nossa segurança. Em troca de quê? De galões e vaidades?
Lamento as declarações. Não o conheço e sequer posso afirmar com certeza de que disse realmente tudo isso. Foi publicado na imprensa, como extrato de sua entrevista coletiva. Mas se foi verdade, não cabe a esse senhor outra ação além de reconhecer o erro do qual foi partícipe, pedir desculpas à Nação e afastar-se definitivamente para o anonimato da vergonha. Ele e todo o Estado Maior que o secundou e a seus antecessores, que, por desídia, não honraram os mais de 40 anos de salário que receberam nem a confiança que lhes depositou o povo brasileiro.
Tomara que nada disso seja verdade.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Algo de Podre no Ar

O apagão aéreo de ontem exala mau-cheiro. A informação, soando como uma desculpa oficial, foi que ocorreu pane na freqüência do Cindacta I, em Brasília.
Cheira mal porque não há uma freqüência, mas diversas utilizadas naquele Centro, exatamente como alternativa. Depois, freqüência não dá pane.
Então, podemos imaginar pane de equipamento rádio. O rádio pifou. Acontece que não é um rádio, são dezenas. Quem sabe as antenas? Bem, essas têm redundância. Será que todas pifaram?
Quem sabe, então, os controladores resolveram sair para comer um Big Mac e tomar Coca-Cola. Definitivamente não acredito, porque são profissionais responsáveis.
Pelo ocorrido, em vista da integração dos sistemas de defesa aérea e de controle do tráfego aéreo, grande parte do Brasil, incluindo sua Capital, ficaram com o espaço aéreo desprotegido. Verdade que não estamos em guerra, ainda bem. Mas vem dos romanos a lição do si vis pacem para bellum, eternamente gravado no portal da PE em Porto Alegre, num prédio que não existe mais.
Para isso investimos várias centenas de milhões. Ineficazes e inoperantes? Certamente não. Então, o que houve? Sabotagem? De quem e com que propósito? Desmoralizar o DECEA e de roldão a FAB? Criar o pânico e a insegurança na população? Desgastar o Governo?
Muito mais do que os inconvenientes causados à aviação civil, precisamos de informações e respostas objetivas quanto à segurança nacional.
Foi noticiado, também, que foi solicitado apoio da Polícia Federal para investigar o ocorrido. É bom mesmo que mergulhem fundo e descubram o que está havendo.
Até o acidente com o avião da Gol, o tráfego aéreo era normal. Atrasos não significativos, sem panes de comunicação etc. Depois, começou o caos. Por que esse acidente, trágico mas causado por uma infeliz coincidência, está representando um ponto de inflexão, quase ruptura no tráfego aéreo. A quem está interessando essa confusão?
Fala-se muito na desmilitarização do setor. Tem alguma coisa a ver com isso? Forçar a barra pela comoção popular? Também não acredito.
Então, o que está havendo. Acabem de vez com o mau-cheiro das coisas ocultas e abram o jogo.
Os brasileiros merecem.

terça-feira, dezembro 05, 2006

Militares Furam Fila

A edição de hoje do Correio Braziliense, em uma de suas manchetes internas, evidencia o quanto pode ser perigosa a conjugação da ignorância com o denuncismo. Com a manchete "Militares Furam a Fila", deixa no ar a possibilidade de que estejam se beneficiando de estrelas e galões para não ficarem submetidos aos atrasos nos aeroportos.
A ignorância fica por conta dos autores da matéria. Para que nivelemos as informações, transcrevo as prioridades das operações aéreas previstas na legislação, que não foi elaborada agora, no calor da crise.

Decolagem
1 - em operação militar (missão de guerra ou de segurança interna)
2 - transportando enfermo ou ferido grave
3 - em operação do SAR
4 - conduzindo o Presidente da República
5 - em operação militar (manobra militar)
6 - demais aeronaves
Pouso
1 - aeronaves em emergência
2 - planadores
3 - transportando enfermo ou ferido grave
4 - em operação do SAR
5 - em operação militar (missão de guerra ou de segurança interna)
6 - conduzindo o Presidente da República
7 - em operação militar (manobra militar)
8 - demais aeronaves

Como se vê, essa seqüência prioriza a vida e o próprio Presidente da República a ela se submete, sendo somente a 4ª prioridade nas decolagens e 6ª nos pousos. E os órgãos de controle nada mais fazem do que cumprir a lei, o que é o mínimo que se pode esperar de um servidor público. Que cumpra a lei. Não a Lei de Gerson, como maldosamente sugere a manchete, num denuncismo vazio e alarmista. E isso se pode atribuir aos responsáveis pela linha editorial.
Há segmentos, não sei se por imitação de outros países ou por convicção própria, com o fermento do ressentimento, buscam caracterizar as forças armadas como geradoras de benefícios cafajestes em causa própria, carimbando-as com os estigmas do arbítrio e da prepotência, mesmo com o sacrifício da ética.
Não se trata de defender atos e fatos do passado, do presente ou, quiçá, do futuro. Trata-se de não fomentar o ódio, fazendo da verdade sua primeira vítima.
Essa visão míope apequena setores da imprensa, o que se lamenta, pois não sobrevive a democracia sem liberdade de expressão. Esta deve ser preservada antes de tudo, mesmo que seja utilizada para informações parciais e facciosas. Resta-nos acreditar que o estágio de evolução da sociedade lhe permita avaliar a credibilidade e as intenções dos ditos formadores de opinião, com visão crítica para expurgar os fatos do alarmismo.
Afinal, é mais difícil desmontar uma meia-verdade do que desmoralizar uma mentira inteira.

domingo, dezembro 03, 2006

Carlinhos Denatran - A Viagem

Carlinhos sempre foi das contas e detalhes. Desde pequeno. Os números antes do be-a-bá. Contava com os dedos, com feijões, pedrinhas, com que fosse.

-Mãe, hoje quero 268 grãos de arroz no meu prato.

Se passasse ou faltasse, havia escândalo, pois Carlinhos - Karlos Frederico em homenagem a Gauss - era obstinado pela precisão dos números.

Dona Maricota, mãe velha de filho único, fazia-lhe todas as vontades, a ponto de contar os grãos antes de cozê-los. Esse menino vai longe, pensava em seus devaneios, enquanto contava, pesava e media de acordo com as especificações do Carlinhos.

No colégio, era o terror dos professores, com sua obsessão por pesos e medidas. O que não podia ser pesado ou medido, não valia a pena. Por essa mania foi suspenso ao tumultuar a aula negando a existência do zero e apalpando o traseiro da Zenita, lambisgóia desdentada e magricela.

-Mostre-me, professora. Se o zero é a negação da quantidade, então não existe. Mesmo aqui, com nenhuma carne, o zero não existe

Dona Jurema, com muitas carnes, poucas luzes e menos ainda paciência, azucrinada pelo estridente grito da Zenita, deu-lhe um cascudo e o botou porta a fora. "Ah, maldita profissão, ter que agüentar essa peste. Ainda mais na TPM." Para não punir somente a professora - as outras recusavam-se a dar aulas pro Carlinhos - o Diretor suspendeu-o por dois dias.

Carlinhos assim cresceu. Media-se na porta da cozinha todos os dias, anotando os progressos diários. Tudo registrava. Como os professores não o queriam perto, foi aprovado em todos os anos, com louvor. Entrou na UNB pelo PAS, cursou Estatística, sempre tabulando e sonhando com médias, modas, medianas e variâncias. Era, antes de tudo, um chato.

Formado, decorou todos os pontos e vírgulas do Estatuto dos Funcionários Públicos e foi classificado em primeiro lugar no concurso do Detran. Analista de Trânsito. Ao passar e engomar diariamente a farda amarela de Carlinhos, Dona Maricota, peito cheio de orgulho, pensava: esse menino vai longe.

Dedicado ao serviço, usava suas folgas a pesquisar e medir. O chefe, burro e incompetente, não entendia a necessidade de tabular a influência da cor do carro nos acidentes, a relação entre o tamanho do extintor de incêndio e a altura do motorista ou o tom da buzina com a quantidade de buzinadas.

-Seu Karlos, vá carimbar processos e me deixe quieto. Se quiser, vá medir isso no fim-de-semana.


E assim Carlinhos fazia, com toda dedicação e empenho. Tanto empenho e dedicação, acompanhados de explicações matemáticas incompreensíveis, por isso mesmo incontestáveis, faziam os relatórios subirem os escalões hierárquicos, de mesa em mesa, de andar em andar, com elogios sucessivos. Afinal, pensavam, como dizer ao chefe que não entendiam disso. "Quem quiser, que passe seu atestado de burro, eu não...", pensamento unânime da nomenklatura burocrática.

Assim, passaram a ser exigidos extintores de incêndio que nunca são usados, kits de primeiros socorros de utilização duvidosa, viseiras de capacetes a prova de mosquitos, absoluta e rígida exigência de amortecedores originais de fábrica, números de RENAVAN incompatíveis com os registros internacionais, engates de reboque embutidos etc.

Tanta proficiência proporcionou carreira meteórica ao Carlinhos. Nunca, em tão pouco tempo, foram feitas tantas regras, baixadas tantas medidas, impostos tantos controles. Tudo com fundamento científico. Na mudança de governo, Carlinhos foi guindado à presidência do Órgão máximo. Sem dúvida, por absoluto merecimento.

Na posse, Dona Maricota, já avançada em anos e quase cega pensava "esse menino vai longe".

"Aos 48 senhores e 13 senhoras presentes, meus agradecimentos por sua presença nesta solenidade." E assim começou o discurso de posse, para o sono dos presentes e orgulho de D. Maricota que, acordada pelos 17 segundos de aplauso (cronometrados por Carlinhos), sonhou: "esse menino vai longe..."

Na primeira reunião, apresentou proposta de que a velocidade máxima dos veículos fosse reduzida para 10 km/h, isso nas auto-estradas, pois seu estudo demonstrava a forte correlação entre velocidade e acidentes. Se a velocidade dos veículos tendesse a zero não mais haveria vítimas de trânsito. O lógico argumento não foi contestado.

A proposta, aprovada por um modorrento Conselho, subiu ao Ministro para deliberação final. Decidiu o Ministro aprová-la, com base nos sólidos fundamentos estatísticos, não compreensíveis, mas ainda assim sólidos na opinião abalizada do Chefe de Gabinete, primo de seu mais importante cabo eleitoral. Porém, como é ano de eleição e carros parados não conduzem eleitores, incluiu Carlinhos numa missão de apoio humanitário do Itamarati, para implantação de sua tese longe das urnas.

D. Maricota ao ver, através de seu cristalino embaçado pela catarata, o vulto de Carlinhos a embarcar para o Iraque, ainda pensou "esse menino vai longe".

(Figuras de Brasília ... é publicada neste blog todas as segundas-feiras)

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Estado Pródigo ou Povo Trouxa?

Vejam essa pérola.
Lembro que esse "Tribunal", apesar do nome, é vinculado ao Poder Legislativo, não ao Judiciário. São "só" 63 salários mínimos mensais. Comparem com os rendimentos de um Ministro do STF, com o do Presidente da República, com o de um Ministro do Executivo. E com direito a todas as mordomias negadas aos cidadãos comuns, mas que lhe pagarão as mesmas, nelas incluída a aposentadoria integral.
Não é à toa que os Deputados Federais (V Osmar Serraglio) são ávidos em trocar todas suas mordomias por uma vaga no TCU.
Anote bem para onde vai seu suado e extorquido dinheirinho pago em impostos e quem age tão irresponsavelmente com ele. Esse é o preço da democracia? Ou será que Maria Antonieta reencarnou (O povo não tem pão? Que comam brioches)

O Tribunal de Contas da União (TCU) oferece um salário de R$ 22.111,25 para o melhor colocado no concurso público aberto nesta semana para preencher uma vaga de auditor da instituição. Os interessados em concorrer a esse posto precisam ter nível superior completo e mais de dez anos de profissão em áreas relacionadas ao cargo.
º
Ministério Público abrirá 451 vagas de até R$ 4 mil
Entre as responsabilidades do auditor, está a de exercer as funções relativas ao cargo de ministro mediante convocação do presidente do TCU em caso de ausências por motivos de licença, férias ou outro tipo de afastamento legal. Outra atribuição é presidir a instrução de processos que lhe forem distribuídos, além de outras atribuições.
Para ser nomeado em caso de aprovação no concurso, o candidato precisa ser brasileiro nato ou ter nacionalidade portuguesa. Neste último caso, a pessoa deve estar amparada pelo estatuto de igualdade entre brasileiros e portugueses, com devido reconhecimento conforme previsto pela Constituição Federal.
Outras exigências para o candidato são a ter idade entre 35 e 65 anos, possuir conhecimentos jurídicos, contábeis, econômicos, financeiros e de administração pública. Os interessados podem fazer sua inscrição pela Internet, no site www.cespe.unb.br/concursos/tcuauditor2006.
O cadastro começa no próximo dia 18 e termina em 7 de janeiro de 2007. A taxa cobrada é de R$ 150. As provas estão previstas para os dias 3 e 4 de março.

Fonte:
(http://br.invertia.com/noticias/noticia.aspx?idNoticia=200612011540_INV_30274412)

Movimento Sem Limites

Ontem foi noticiado que movimentos ligados a grupos autodenominados de Sem-Terra bloquearam o acesso ao porto de Maceió, impedindo o carregamento de navios com açúcar. Ainda na notícia, o acesso somente foi liberado após receberem um fax da direção do Incra, comprometendo-se a agilizar determinado assentamento. Ainda ontem foi noticiado confronto entre 3000 participantes desses movimentos e ruralistas, na região de Cascavel, oeste paranaense.
O movimento dos sem-terra teve origem nas desapropriações pelas construções das usinas hidrelétricas. Pleiteava, reivindicava e pressionava por uma nova terra, dado que a sua estava inundada. Mantinha-se dentro da Lei e da liberdade de manifestação.
Gradativamente, o que era justo passou a ser utilizado como justificativa para embate social, nos melhores preceitos leninistas. Doutrinam esses grupos a ultrapassarem os limites da lei, ou melhor, a ignorá-la sempre que de seu interesse. A isso dá-se o nome de justiça pelas próprias mãos. Assim, bloqueiam rodovias, invadem propriedades, esbulham, ameaçam, tudo em nome da revolução de massas que pretendem implementar. Mas com outro nome: Sem-Terra. A história registra muitos movimentos de lobos em pele de cordeiros.
Porém, os participantes não são bandidos, maus-caráter, facínoras ou salteadores. São somente ignorantes, manipulados por uma elite muito bem preparada para instaurar o caos. Querem melhorar de vida e só percebem o engodo quando são assentados em nome de uma agricultura familiar. Ora, agricultura familiar, de forma geral, é agricultura de subsistência. Mantém a família no limiar da fome. Comem o que produzem e algum excedente, um saco de arroz, meia dúzia de galinhas, são trocadas por produtos que não produzem. Vivem por casa (ruim) e comida (pouca), e nada mais. Há alguma diferença com o dito trabalho escravo?
Esse processo de favelização do campo, defendido com o olhar cúmplice de autoridades vinculadas à mesma elite que manipula esse exército de Brancaleone, impedirá as atividades produtivas da mesma forma que a favelização da Baixada Fluminense está a impedir a ordem social naquela região.
O Brasil está a um passo de implantar pra valer a produção de biodiesel. Fontes, como o dendê, são totalmente adaptadas às novas fronteiras agrícolas do norte, onde projetos bem estruturados, cooperativados e com aproveitamento industrial poderiam ser implantados. No entanto, pergunte-se aos líderes desses movimentos ou do Incra se estariam dispostos a iniciar vida nova em tais projetos. Certamente não aceitariam, porque perderiam sua bandeira de luta. A pacificação social não é seu propósito, porém a desordem e a sua reconstrução, dentro de filosofia coletivista.
É esse mesmo movimento, infiltrado nos mais diversos estratos da sociedade, que gera a profunda leniência com os fora-da-lei; que divulga uma imagem romântica e robin-hoodiana dessa massa manipulada; que toma decisões judiciais que os defendem; que aprova leis que lhes dão amparo; que condena qualquer ação policial de cumprimento da lei; que não processa as lideranças pelas violações constitucionais, incluindo o direito sagrado de ir e vir; que cria o caldo de cultura para a desordem social completa.
Que institucionaliza a sociedade sem-limites.