FregaBlog

sexta-feira, março 30, 2007

Controladores de Vôo

O site Terra divulgou o manifesto dos controladores, que teria sido publicado hoje. A posição deles é compreensível. São a parte mais frágil.
Ainda vem muito chumbo grosso pela frente, com chuvisco de resíduo malcheiroso, caso investiguem fundo as gestões da Infraero.
Leiam.

"Manifesto dos Controladores de Tráfego Aéreo
- A quem é atribuída as paralisações do tráfego aéreo em virtude de fenômenos naturais como chuvas e nevoeiros?
- Quem, ao tentar expor as verdadeiras situações do tráfego aéreo nos livros de ocorrências dos órgãos operacionais, sofre perseguições da chefia militar?
- Quem é acusado de insubordinado e sindicalista ao executar uma operação de segurança que consta em norma internacional de aviação civil?
- Quem é o principal suspeito ao ocorrer panes no sistema de comunicação, queda de energia ou overbooking de empresas aéreas?
- Quem é o profissional obrigado a monitorar vôos e milhares de vidas acima do recomendado pelas normas de segurança?
- Quem é o militar aquartelado sem o direito de protestar pela falta de operadores?
- Quem é o profissional que tem sua dispensa médica ou férias interrompidas pela convocação de oficiais superiores a fim de suprir a falta de operadores?
- Quem passa os dias trabalhando com equipamentos obsoletos e prejudiciais à saúde?
- Quem tem de se desdobrar para prestar serviço seguro quando ocorrem falhas de comunicação nas chamadas zonas cegas?
Para todas estas perguntas, uma resposta nos parece comum: o Controlador de Tráfego Aéreo.
Passados seis meses de crise, não há nenhuma sinalização positiva para as dificuldades enfrentadas pelos Controladores de Tráfego Aéreo. Ao contrário, as mesmas agravaram-se.
Não bastassem as dificuldades de ordem técnica-trabalhista, somos também acusados de sabotadores, numa tentativa de encobrir as falhas de gestão do sistema.
Nestes meses de crise passamos por diversas degradações, as quais já ocorreram várias vezes anteriormente, mas não em um espaço tão curto:
1. Queda do sistema de vigilância radar em Curitiba, devido tempestade;
2. Queda das freqüências do setor norte de Curitiba, devido raio em Campo Grande;
3. Queda das comunicações em Brasília (SITTI);
4. Vários fechamentos de Congonhas devido chuva forte;
5. Falta de aeronaves reservas para suprir panes em aeronaves no Natal;
6. Queda do sistema de tratamento de plano de vôo de Brasilia e
7. Pane no sistema de Aproximação por Instrumentos de Guarulhos
O único evento comprovado que houve relação direta com o profissional de Controle de Tráfego Aéreo, foi na semana de finados, quando não havia Controlador suficiente para compor as equipes operacionais. Nas demais degradações, NUNCA houve ato de sabotagem por parte desse profissional que trabalha para prover a segurança e não atos de terrorismo.
Apenas para lembrar a sociedade brasileira o evento da queda das comunicações de Brasília foi causado por imperícia de um Tenente da Força Aérea Brasileira, que não pertence ao quadro de Controle de Tráfego Aéreo.
Vale ressaltar que o acesso às salas técnicas é restrito não sendo permitida a entrada de nenhum técnico de outra área. Posteriormente o próprio Comandante da Força admitiu que o equipamento já estava "bastante desgastado".
O último evento em Guarulhos, o qual tanto o Presidente da República quanto o Ministro da Defesa, apressaram-se em levantar a tese de sabotagem outra vez. Infelizmente quem esta de fora e não recebe as informações corretas só pode pensar em sabotagem, mas a verdade mais uma vez veio à tona: desde fevereiro o equipamento aguarda liberação para seu uso. Uma investigação mais aprofundada irá comprovar que a anos que este equipamento apresenta falhas, assim como há vários outros pelo País afora com problemas.
Sempre reportamos as deficiências do sistema, mas nunca deram a devida atenção, acusando-nos de sermos críticos demais.
A incompatibilidade entre a vida militar e o controle de tráfego aéreo já foram denunciadas pela OACI, Organização da Aviação Civil Internacional, e pela OIT, Organização Internacional do Trabalho:
Segundo a OIT,
"A profissão de Controlador de Tráfego Aéreo é única e traz consigo características específicas que devem ser levadas em consideração e quando identificados problemas que se trate de buscar soluções."
"Os conflitos trabalhistas no controle de tráfego aéreo se devem a diversas causas. Em particular parece que existe uma correlação entre seu aparecimento e o reconhecimento inadequado da profissão; a qualidade do equipamento; a falta de capacidade dos sistemas para fazer frente aos períodos de pico de tráfego aéreo; assim como os problemas relativos aos salários e às condições de trabalho. Desta forma os Controladores devem participar, por meio de suas organizações representativas análogas na determinação de suas condições de emprego e de serviço. Além do que, os Controladores devem ser consultados sobre o desenho, a planificação e a aplicação das condições técnicas relativas aos sistemas de controle de tráfego aéreo."
O Brasil vive momentos inéditos de democracia e transparência com o resgate dos valores da ética, do respeito, com a coisa pública. aos direitos da coletividade, momento histórico que, repise-se não se coaduna com a "caixa-preta" que se tomou o controle de tráfego aéreo brasileiro.
Chegamos ao limite da condição humana, não temos condições de continuar prestando este serviço, que é de grande valia ao País, da forma como estamos sendo geridos e como somos tratados.
NÃO CONFIAMOS NOS NOSSOS EQUIPAMENTOS E NÃO CONFIAMOS NOS NOSSOS COMANDOS!
Estamos trabalhando com os fuzis apontados para nós, vários representantes de associações LEGAIS estão sendo perseguidos, com afastamentos e transferências arbitrárias. A represália do alto escalão militar contra os sargentos controladores tem gerado tamanha insatisfação que não suportaremos calados em meio a tamanha injustiça e impunidade aos verdadeiros responsáveis pelo caos. Clamamos por mudanças tão quanto os passageiros desesperados por soluções imediatas.
Devido a desesperança que abateu-se sobre os profissionais de Tráfego Aéreo a partir do dia 30 de março, os Controladores de Tráfego Aéreo do Brasil irão se auto-aquartelar e iniciar greve de fome até que o Governo atenda as nossas REINVINDICAÇÕES:
1. Fim das perseguições e retomo imediato dos representantes de associações e supervisores afastados de suas funções de origem;
2. Criação de uma gratificação emergencial para os Controladores de Tráfego Aéreo;
3. Início da desmilitarização conforme proposta do GTI com absorção voluntária da mão-de-obra dos atuais Controladores de Tráfego Aéreo militares;
4. Nomeação de uma comissão com representantes do poder executivo e dos controladores (civis e militares), a fim de acompanhar as mudanças no Tráfego Aéreo Nacional. Mudanças que devem ser assumidas formalmente pelo Governo Federal, já que ate o momento não há nenhum compromisso institucional neste sentido."

Camp David

Aplainando terreno para a reunião de Lula e Bush neste fim de semana, em Camp David , o governo brasileiro publicou hoje, no Washington Post, artigo assinado pelo presidente enfocando a produção do biocombustível, desmitificando a "proteção ambiental" e, de quebra, rebatendo as críticas do bolivariano (?), efetuadas por meio de seu porta-voz cubano.
"É um primeiro passo importante no sentido de comprometer nossos países a desenvolver fontes de energia limpas e renováveis (garantindo) a proteção ambiental", acrescentando que a iniciativa "é uma receita para aumentar a renda, criando empregos e reduzindo a pobreza entre os vários países em desenvolvimento onde colheitas de biomassa são abundantes. Essas fontes alternativas (de energia) ajudam a reduzir a dependência global em relativamente poucos países fornecedores."
Rebatendo os ambientalistas escatológicos que vinculam o aumento das lavouras de cana à extinção da floresta amazônica, afirmou que "O solo amazônico é altamente inapropriado para o plantio da cana-de-açúcar. Além do mais, no contexto do compromisso inabalável do Brasil com a proteção ambiental, o desflorestamento caiu 52% nos últimos anos".
E se contrapondo à campanha de Chavez, que brande o fantasma da fome no mundo para combater o biocombustível, Lula foi ainda mais longe.
"Menos de um quinto dos 340 milhões de hectares de terras aráveis do Brasil é utilizado para colheitas. Apenas 1%, ou 3 milhões de hectares, é usado para cana-de-açúcar para etanol. Em contraste, 200 milhões de hectares são pastagens, onde a produção de cana está começando a se expandir. O desafio real de prover segurança alimentar está em superar a pobreza dos que regularmente têm fome. A disseminação da cana-de-açúcar, soja e outras colheitas de oleaginosas para uso em biocombustíveis vai assegurar que as famílias em necessidade tenham os meios financeiros para se sustentar. A agricultura provê não apenas alimento, mas uma maneira de vida para milhões de pequenos produtores em todo o mundo."
Ou seja, enfocou corretamente o problema.
Não se trata da capacidade de produzir alimentos. Trata-se da capacidade econômica de consumí-los, que só se adquire com produção e renda. Trata-se de manter ou não a miséria e sua legião de famintos.
Infelizmente, sustentáculo de governos populistas, como o de Chavez, ou anacrônicos, como o de seu vetusto porta-voz.

quinta-feira, março 29, 2007

Grevistas Federais

Anunciam-se greves dos funcionários do Banco Central e da Polícia Federal. Os primeiros pleiteiam equiparação com os auditores fiscais. Os segundos, o cumprimento de um acordo, ainda meio nebuloso, que teria encerrado a greve do ano passado. Se for devido, deve ser cumprido. Para tanto, existe a Justiça para reparar as quebras de contrato. Que recorram a ela.
O que acontece é que algumas categorias de funcionários públicos descobriram o filão de engordar seus vencimentos. Pela chantagem.
Não abrem mão de algumas facilidades, como licença-prêmio, aposentadoria integral, estabilidade no emprego. Entendo que carreiras do Estado devam ter estabilidade, para não virarem funcionários de governo. Mas daí a utilizarem os mesmos mecanismos reivindicatórios dos empregados da iniciativa privada, o bom dos dois lados, é brincadeira de mau gosto.
O instituto da greve pressupõe um reequilíbrio entre os ganhos do trabalho e do capital. Ambos são intrinsicamente ligados, desde o nascimento, xifópagos, na iniciativa privada.
No funcionalismo público, qual a relação?
Chantageiam vergonhosamente a sociedade, paralisam todas as atividades, prejudicam cidadãos.
Há que se regulamentar urgentemente a greve no setor público.
O mais surpreendente é que ambas as categorias pertencem ao seleto grupo dos mais bem pagos no serviço público. Do Banco Central não tenho parâmetros atualizados. Da Polícia Federal, o salário inicial de um delegado gira em torno de R$ 6 mil e o teto chega a R$ 15 mil. Isso foi dito por um dos líderes da greve, hoje, ao apresentador Carlos Alberto Piotto, da CBN.
O salário-teto de um médico é R$ 4 mil. De um professor do ensino médio, também. De um ministro, cerca de R$ 8 mil.
Enquanto isso, greves anuais se sucedem. Quando não é uma categoria, é outra.
Se querem ser funcionários públicos, é para servirem ao público.
Não para servirem-se dele.

Alimentos Bolivarianos

Fidel assinou um artigo publicado no Granma, com o título "Mais de 3 bilhões de pessoas no mundo condenadas à morte prematura por fome e sede". Nem no título consegue deixar de ser prolixo.

Critica a intenção americana de promover o uso de combustíveis alternativos, como o etanol. Classifica como "idéia sinistra" transformar alimentos em combustível. Diz que chegou a essa conclusão após muito meditar sobre o assunto, que seria necessária uma colheita gigantesca e que muitas pessoas dentre as massas famintas de nosso planeta deixariam de consumir milho .

Afirma ainda que, em Cuba, o álcool é um subproduto da indústria açucareira. "Por isso, independentemente da excelente tecnologia brasileira para produzir álcool, a sua utilização em Cuba não passa de um sonho, um desvario dos que se iludem com essa idéia"."Em nosso país, as terras dedicadas à produção direta de álcool podem ser muito mais úteis na produção de alimentos para o povo e na proteção do meio ambiente".

Em primeiro lugar, é discutível se o artigo foi realmente escrito por Fidel. Talvez tenha saído de seu estado cataléptico para fazê-lo. Ou tenha recebido, de Caracas, o texto por fax.
Não contaram para Fidel que, dentro do zoneamento de produção americana, agricultores recebem dinheiro do governo para não produzirem milho, evitando uma superprodução com danos à economia do agronegócio. É um dos famosos subsídios agrícolas.
Não contaram para o moribundo que populações morrem de fome não porque Malthus profetizou, mas porque não têm renda. Não faltam grãos nem capacidade para produzí-los. Falta é dinheiro.
Cuba é um produtor tradicional de cana e de açúcar. Duvido, porém, que a produção seja devorada integralmente pelos cubanos, por mais famintos que estejam, sob risco de intoxicação glicêmica. Cuba vende açúcar e compra mercadorias que não produz. Qual a diferença com o álcool ou com outras commodities? Nenhuma. Mas não escreveram isso para a múmia. E ele já não pensa faz tempo.
Claro que aproveita para cutucar a produção e tecnologia brasileiras. Essa é a verdadeira intenção. Daí as cores bolivarianas (?) do texto. É um ataque à ameaça energética e redução da dependência do petróleo pelos Estados Unidos.
Para Cuba, a produção de álcool seria um bom negócio. Poderia melhorar as precárias condições de vida dos cubanos. Reativaria sua estagnada economia, combalida por décadas de boicote americano e governo comunista.
Mas não, isso não interessa ao companheiro Chavez.

quarta-feira, março 28, 2007

Democratas

Pois é. O PFL quer até mudar de nome, de identidade. Como um produto cuja má qualidade queimou a marca. Poderiam, mais simplesmente, lançar o Novo PFL, sob nova direção. Agora diet, com menos fisiologismo. Parece que estou até vendo os outdoors anunciando o novo produto.
Sabem-se em rota de extinção. O trio maravilhoso regina, composto pelo prussiano ex-presidente, pelo babalaô combalido e pelo menino maluquinho, sem contar o mapa-do-chile, pode ser tudo, menos bobo.
Seus espaços são cada vez menores porque seu estilo de fazer política é anacrônico. Sem dúvida, o PFL tem que mudar para continuar a ser uma voz da globalização e do liberalismo hayequiano. O Brasil precisa de defensores dessa corrente de pensamento, como forma de evitar o pensamento único. Embora pessoalmente não pactue com ela.
Mas, voltando à marca. Pretendem se chamar doravante, simplesmente, Democratas. Sem Partido, sem mais nada que caracterize uma facção ideológica.
Aí o bicho pega.
Por convicção ou por imposição constitucional, não importa, todo o brasileiro é democrata. Essa confusão que esses senhores estão fazendo levaria ao absurdo de que, quem fizesse campanha antagônica ao PFL renomeado, seria anti-democrata. Tendo que adotar uma pecha politicamente inaceitável e constitucionalmente proibida.
Teriam que melhor qualificar sua plataforma, para evitar a inevitável confusão.
Claro que é exatamente isso que esses caciques querem. O PFL sempre soube a hora certa de abandonar o navio.
Depois de participar ativamente e usufruir do período revolucionário, sentindo o fim do ciclo, apoiaram a oposição e fizeram o primeiro presidente do novo período, Sarney. Apoiaram Collor e pularam do barco quando estava fazendo água. Tentaram, com sucesso limitado, usufruir do período Itamar. Anexaram-se a FH quando sentiram que seria o novo presidente. Promoveram a reeleição e participaram da maior traição ao Brasil que a história registrou. E continuaram usufruindo das benesses.
Para acender uma vela pra Deus e outra pro diabo, apoiaram Serra sem desprezar o apoio ao candidato Lula, em 2002. Lembram-se das declarações de apoio do ACM? Não deu certo a aproximação e ficarão 8 anos fora do que melhor sabem fazer: usufruir de governos.
Alckmin foi um tiro n'água, a pá de cal. Para não desaparecer, têm que criar nova identidade, maquiar-se. Mas, para isso, não precisam apelar para a propaganda enganosa.
Tomara que o TSE recuse o registro do nome ou determine que se identifiquem melhor.
Antes que surja outro partido mudando seu nome para Brasileiros.

terça-feira, março 27, 2007

Invasão Espanhola

Transcrevo artigo de autoria do jornalista Sebastião Nery, publicado na Tribuna da Imprensa.
O jornalista Sebastião Nery tem uma história de coerência em sua vida. E de coerência nacionalista. Mesmo seus desafetos não conseguem deixar de respeitá-lo, embora tentem calá-lo com a redução de seus espaços, em vista de não conseguirem desmentí-lo.
A Tribuna da Imprensa é um dos poucos veículos independentes na imprensa nacional (sabe-se lá a que custo).
Ambos, jornalista e veículo, merecem nosso respeito.


"Tribuna da Imprensa 27 Mar 2007

O ministro do Santander

Em 20 de novembro de 1975, morreu o ditador Franco, "caudilho da Espanha pela graça de Deus". Com a democracia e a liberdade, em 4 de maio de 76 nascia "El Pais", hoje o maior jornal da Espanha e da Europa.

José Ortega, filho do filósofo Ortega y Gasset, e outros jornalistas não tinham dinheiro para lançá-lo sozinhos, venderam 25% das ações ao editor Jesus Polanco Gutierrez, da "Opus Dei", e a mais de mil acionistas individuais.

Polanco tinha por trás dele o Banco Santander e a Telefônica, que são associados. Foi comprando as ações dos outros e, quando conseguiu a maioria, pôs José Ortega como presidente honorário e assumiu o comando. Até hoje.

Espanha
Mas o que é que o Brasil tem com isso? Tem muito. Os três, Santander, Telefônica e Polanco, acabam de nomear o ministro do Desenvolvimento do Brasil, o jornalista, como Polanco, e banqueiro, como Polanco, Miguel Jorge.

Eles não desembarcaram aqui ontem. Na madrugada de 29 de dezembro de 94, dois dias antes das posses de Fernando Henrique na presidência da República e Mario Covas no governo de São Paulo, o óbvio presidente do Banco Central Gustavo Loyola decretou a intervenção no Banespa, que depois Fernando Henrique doou ao Santander, o maior banco da Espanha.

Quando Fernando Henrique privatizou o sistema de telecomunicações, o de São Paulo, maior e mais rentável do País, foi entregue exatamente à Telefônica espanhola, parceira do Santander e de Polanco. Tudo em casa.

Polanco
Polanco também não apareceu agora. Trabalhando para a ditadura de Franco desde 47, em 60 fundou a Editora Santillana, para livros didáticos. Em 63, já tinha uma editora na Argentina. Em 68, nos Estados Unidos. Em 69, no Chile. Depois, México, Venezuela, Peru, Colômbia, Equador, Porto Rico.

Passou a comprar as editoras concorrentes nesses países, como a Sudamericana (a de Gabriel García Marquez) e a Mecê (a de Jorge Luis Borges). Criou a Eductrade e a distribuidora Itaca. E logo tinha o monopólio de livros didáticos e material escolar em espanhol, na Europa e Américas.

E Polanco chegou ao Brasil. Em 2001, com o Santander e a Telefônica atrás, comprou as paulistas Moderna e Salamandra, as duas maiores editoras brasileiras de livros didáticos e infantis, e outras menores. Atacou também no Rio. Pouco depois, a sua editora Planeta tirava Paulo Coelho da Rocco e numerosos outros autores de outras editoras nacionais. O "dumping" continua.

Fernando Henrique
Toda essa história está contada, documentada, em dois best-sellers do jornalista espanhol Ramon Tijeras: "Como funcionam os grupos de pressão espanhóis - O Império Polanco" e "O dinheiro do poder - A trama econômica na Espanha". O que fizeram e fazem na Espanha é o que fazem também aqui.

Desde que deixou a presidência da República, Fernando Henrique está há quatro anos rodando pelo mundo, com todo seu charme e bom gosto, como um príncipe intelectual, um xeque-sociólogo, presidindo o Clube de Madrid, fazendo "conferências", participando de "seminários", dando "aulas".

Quem banca essa festa toda? O agradecido Santander, a quem Fernando Henrique literalmente doou o Banespa, o segundo maior banco público do País. É um troca-troca sobre o oceano. O Santander é o fundador, financiador e dono do Clube de Madrid, em cujas doces águas Fernando Henrique navega.

Miguel Jorge
Não é surpresa a posse, hoje, do novo ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, vice-presidente do Santander desde 2001. Jornalista competente, foi para São Paulo na década de 60, com o chamado "grupo de Minas", que ajudou Mino Carta e Murilo Felisberto a fundarem o "Jornal da Tarde". Acabou diretor de redação do "Estado de S. Paulo", de 77 a 87.

De lá foi 15 anos diretor da Autolatina (Ford e Volkswagen) e em 2001 para o Santander, onde, "nos períodos pré-eleitorais, costumava montar um escritório para receber políticos que buscavam doações eleitorais. O Santander foi o segundo maior doador (o primeiro foi o vice José Alencar) da campanha de Lula à presidência em 2002, com R$ 1,4 milhão, o mesmo valor doado ao tucano José Serra. O número total (R$ 4 milhões) contrasta com os R$ 12 mil declarados em 2006. O Santander optou pela chamada doação camuflada, uma brecha na legislação que permite doar o dinheiro para os partidos que, depois, o repassam para os candidatos" (Regina Alvarez e Ricardo Galhardo, "O Globo").

Os três
No Brasil rural de antes de Juscelino, quem fazia ministros eram os bancos de Minas: Lavoura, Nacional. No Brasil industrial, depois do golpe de 64, Delfim levou o sistema financeiro para São Paulo, e o Bradesco, o Itaú é que passaram a nomear governadores e ministros. No Brasil colonizado de Fernando Henrique e Lula, quem manda são os bancos estrangeiros.

O Boston (aquele dos trambiques ilegais de dólares) impôs Henrique Meirelles no Banco Central. O Santander de FHC nomeou Miguel Jorge para o Desenvolvimento. Nesse fim de semana, a Polícia Federal denunciou o Merrill Lynch por "lavagem e remessa ilegal de dólares". Vem aí um ministério para ele. O Brasil adora um bandido externo. De preferência, norte-americano."

quarta-feira, março 21, 2007

Mercosul?

A Argentina vive uma bolha de crescimento artificial. Afirmo isso comparando com o aqui verificado por ocasião do lançamento dos sucessivos planos demagógicos que congelavam preços. Também aqui, no primeiro instante, houve elevado crescimento do PIB. Aqui, como lá, essa situação economicamente insustentável é sucedida por um período de crescimento negativo, de recessão.
Lá na Argentina, que ainda não saiu da moratória e tem dificuldades em acertar seus débitos com o Clube de Paris, a demagogia vai além da economia. É o populismo de Kirchner, aliado da política hegemônica do bolivariano (?) Chavez.
A liderança de Chavez só subsiste enquanto tiver petrodólares para financiá-la. Os programas energéticos brasileiros representam-lhe uma ameaça. Daí a necessidade de isolar o Brasil, promovendo um cerco muito mais abrangente do que o tentado por Solano Lopez, que nos levou a uma guerra de 5 anos.
E o ponto mais vulnerável para atacar e promover o desgaste brasileiro é a Petrobrás, indelevelmente vinculada ao Estado brasileiro, tão vinculada que nem o FHCalabar teve coragem para vendê-la.
A última é do ministro argentino do Planejamento, Julio de Vido, declarando que os contratos da Petrobrás na Argentina "serão seriamente afetados" se a empresa não realizar os "investimentos necessários" no país. "O Estado vai avançar se não se adaptarem às suas obrigações contratuais", disse o ministro, com ampla repercussão na mídia portenha.
A Petrobrás foi para a Argentina no contexto de aproximação e fortalecimento do Cone Sul. A estatal YPF encontrava-se em estado pré-falimentar, num país de economia instável, politicamente instável e com reservas de petróleo decadentes.
Hoje a Petrobrás detém 10% do mercado de petróleo e gás da Argentina, mas é a primeira empresa integrada da área energética no país. Atua na exploração, produção e venda de petróleo, gás e seus derivados e na distribuição de eletricidade.
Para que se tenha idéia da dimensão do mercado argentino, lá, a Petrobrás opera com 750 postos de combustíveis, o que deve ser menos do que possui na Grande de São Paulo. Não tenho dados, mas acredito que o PIB argentino e dessa região metropolitana sejam próximos.
Todo esse auê em rítmo de tango é pretextado por uma declaração do presidente da Petrobrás, num seminário, ao responder um questionamento sobre a política de preços argentina e ter declarado, no contexto da resposta, que congelamentos de preço, em geral, implicam em realinhamentos periódicos, sem o que provocam desestímulo de investidores.
Bastou isso para ouriçarem-se todos, quase dando ares de crise diplomática, com cobrança de esclarecimentos entre chancelarias. Vejo o bolivariano (?) atrás dessas atitudes.
É ridículo.
Em minha opinião, o Brasil deveria repensar sua política de investimentos nesses países que estão sempre buscando antagonismos conosco, cuja política de governo é de nos atirar pedras.
O programa de investimentos da Petrobrás, lançado em agosto de 2006, destina 2,4 bilhões de dólares para inversões na Argentina, no período 2007/2011, representando 85% do total programado para o Cone Sul. É o maior investimento da estatal além-fronteiras.
Melhor seria investir aqui mesmo no Brasil ou então em países mais confiáveis.
Será investimento perdido.

Bicho-Papão IV

Assim como a miséria, as desigualdades de oportunidade, as cidadanias diferenciadas e classificadas, o desrespeito aos mais fracos, a leniência de autoridades, a corrupção, o peculato socialmente admitido, tudo isso e muito mais são faces do meu atual bicho-papão.
Porém, creio que a pior delas é o preconceito. Que estigmatiza. Que rotula. Que prejulga. Que difunde o medo. Que inspira o pavor. Terrorismo ideológico.
O preconceito é o maior obstáculo à evolução dos bichos-papões de cada um de nós.
E se o bicho-papão não evoluir, transmutar-se, perde-se no contexto temporal. Fica desatualizado. É defunto que não morre. Um Zumbi. Fantasma.
Meu bicho-papão deixou de ser o comunismo. Não porque ele fosse bom, mas porque não mais existe. Perdeu-se no tempo. É passado. Também não é mais o holocausto nuclear. Porque os líderes nacionais não são suicidas. A destruição planetária por uma chuva de radiação, por neutrons e elétrons e por todo um abecedário de raios e ondas, é remotíssima.
Meu bicho-papão mudou. Mudaram também os bichos-papões de todos? Sim e não.
Para muita gente, o bicho-papão continuam sendo os comunistas, reais ou imaginários. Por puro preconceito que tolda a visão crítica. Para outros, são os antigos adversários dos combates. São bichos-papões personalizados. Para alguns, o tempo não passou. Vivem da saudade, não usufruem dela.
A eleição de Lula, independente de se gostar ou não de sua conduta, representou uma vitória sobre o preconceito. Mas também deu cara ao bicho-papão de alguns. Questionando nomes e personalidades pelas posições que adotaram, lá atrás, no mundo bipolar. Não por suas posições de hoje, no mundo de hoje.
Continuam com o mesmo bicho-papão de antes.
Muito se reclama de ações como do Bolsa Família. Bando de vagabundos, serve pra tomar cachaça, estimula a inércia etc. É verdade, em alguns casos. Mas quem de nós, no calor de nossa casa e de nossa comida, pode julgar a carência absoluta, conhece a realidade da miséria, da desesperança, do desânimo pela vida? Quem? Se programas desse tipo servirem para dar esperança de vida a alguns compatriotas, já é útil. Mesmo que outros desperdicem a oportunidade, por ignorância.
Por preconceito, rotulam ações sociais como marxistas, executadas por marxistas e que pretendem, em futuro não longínquo, implantarem um Brasil marxista. Grande parte dos que assim pensam sequer leu O Capital.
Recusam-se, por preconceito, a admitir o julgamento e a opção popular fora do contexto pseudo-aristocrático ou acadêmico.
E divulgam seus medos pelo mais fantástico meio de comunicação interpessoal desde a criação da linguagem falada. A internet faz dos bichos-papões seres imortais.
Para uns, o bicho-papão continua a ser o comunismo. Para outros, o terrorismo revolucionário. Para uns, o Lula. Para outros, Tarso Genro ou até Franklin Martins. Revivem o ogro por 40 anos ou mais. Não o deixam morrer. Consideram-lhe imutável, à espreita da primeira oportunidade para atacar, para comer criancinhas. Não perceberam que o mundo mudou. Que as pessoas amadureceram. Que fronteiras e o controle político sobre as populações são mais frágeis. Que a opressão e tirania não mais conseguem ficar incógnitas, em gulags, em campos de concentração, em cárceres políticos.
É o mesmo tipo de gente, num contraponto de sinal trocado, que promove e paga indenizações imorais a título de reparação pelos reflexos dos combates pós 64. É gente que não consegue virar a página.
O não questionar criticamente nossos medos torna-os irracionais. Sem serem inverídicos, porque baseados em fatos, mas irreais, porque intempestivos. Os medos não podem fugir do ambiente temporal e geográfico. Mais do que do histórico.
Afinal, história não é necessariamente o que aconteceu, mas sim o que foi escrito.
(Ufa! Acabou. Agradeço a paciência de quem conseguiu chegar ao fim)

terça-feira, março 20, 2007

Bicho-Papão III

E, nas bombachas de Jango e no arrastado verbal de Brizola residia, escamoteado, o bicho-papão. Em suas mil faces, nivelaram-se e confundiram-se comunistas reais, agentes dispostos a implantar o comunismo na marra, mesmo que pelo terror, com intelectuais e pensadores, líderes comunitários, sindicais e estudantis, cada um deles buscando melhor condição para sua categoria ou no livre expressar de seu pensamento.
E não é falácia. Conheci alguns deles. Um foi declarado comunista porque transcrevia pensamentos do filósofo Jose Ingenieros, extraídos do livro O Homem Medíocre, no mural da escola. Outro, dirigente sindical dos bancários em Porto Alegre, por sinal primo distante do então governador do Estado, foi espancado e preso por liderar uma passeata contra a implantação da lei do FGTS.
É evidente que esse era o melhor caminho para o recrudescimento das lutas. A repressão indiscriminada, a confusão de propósitos. Os agentes do bicho-papão passaram a contar com adesões e mais adesões. Bem formados e doutrinados, conseguiram conduzir massas heterogêneas, alguns por idealismo, outros por revolta pessoal. Liderados pelos comunistas e sem formação política crítica, muitos, que de comunistas nada tinham, fizeram o jogo deles.
Como atenuante, não se pode esquecer que o mundo vivia em ambiente bipolar, sem chance para uma terceira via. Ou se aderia a um lado, ou a outro. E os critérios de julgamento sobre o lado que as pessoas estavam também era contaminado pelo ambiente maniqueísta e pela paixão irracional da ignorância e do medo. Quase uma torcida de futebol.
Mesmo assim, pela primeira vez comecei a questionar a real natureza do bicho-papão. A questionar verdades dogmáticas. A me recusar a aceitá-las como um axioma. Timidamente, é verdade. Mas comecei a adquirir o hábito do questionamento.
O movimento comunista não lutava por qualquer tipo de redemocratização do Brasil. Aproveitava-se dos que por esse motivo lutavam. Tinham, somente, um adversário comum. A negação desse fato é uma das grandes mentiras que nos bombardeiam até hoje. Tão grande quanto a afirmar que todos os que combateram a revolução de 64, ainda que com armas, eram comunistas. Em especial a juventude, sempre cheia de ideais e pouco experiente, que foi utilizada como massa de manobra. Sempre o é.
Foi nessa época em que o meu bicho-papão travestiu-se. Desmaterializou-se. Dissolveu-se. Perdeu o rosto e começou a adquirir a forma informe das idéias. O bicho-papão começou a ser o contraste. A injustiça. A opressão. A falta de escolhas. O pensamento único obrigatório. O não pensar. A cristalização das desigualdades hereditárias. O racismo. O preconceito. O fundamentalismo.
Meu bicho-papão não ocupa mais meus sonhos. Meu bicho-papão é a realidade de cada dia.
Combatê-lo, é uma ação diária. Como o de antigamente, continua tendo várias faces. A cada uma, um combate específico.
Meu bicho-papão evoluiu. Já não mais mete medo. Pelo contrário, gera indignação.
A miséria é uma das faces cruéis do novo bicho-papão.
(Sei que já está ficando chato. Prometo encerrar o assunto amanhã)

segunda-feira, março 19, 2007

Bicho-Papão II

E cada vez que a Rádio Nacional soltava a vinheta de edição extraordinária do Repórter Esso, na voz de Eron Domingues aguardávamos o anúncio do desembarque soviético nas costas brasileiras. Era o bicho-papão chegando. Com alívio, a notícia era sobre alguma batalha na Coréia, onde o bicho-papão já havia chegado. Procurei no mapa, a Coréia era bem longe, o bicho-papão demoraria a nos alcançar.
A não ser que os agentes brasileiros do bicho-papão ficassem mais ativos. Prestes já não havia tentado em 1935? Urgia caçá-los, fosse onde fosse. O senador McCarthy não estava fazendo isso, lá na pátria livre? Ora, os traidores disfarçavam-se. Qualquer um que lutasse por melhores condições de trabalho, de oportunidade; qualquer um que ousasse criticar a política americana não era taxado de comunista, sendo de fato ou não? Bastava parecer para ser.
Aqui também. Gritar "O Petróleo é Nosso" era coisa de comunista. Tentar uma Lei de Remessa de Lucros, impensável. Pichar, então "Yankees Go Home" era o cúmulo do adesismo. Tudo coisa dos agentes do bicho-papão.
Claro que os americanos não eram onipresentes. Haviam se omitido no massacre em Budapest, como também se omitiriam, mais tarde, na Primavera de Praga. Na época eu não sabia que haviam previamente combinado não intervir lá, era terreno cedido aos russos. Eu só achava que era mais um tentáculo do bicho-papão.
Enquanto isso, a Voz da América assegurava a derrubada de MIGs 15 e o avanço americano na Coréia, impedindo a ameaça ao mundo livre. Ainda bem.
O bicho-papão, em meu imaginário, começou a adquirir, às vezes, olhos oblíquos, ensombreados por um chapéu cônico de palha de arroz. Amarelado de desnutrição, pois sua dieta reduzia-se às sobras das plantações nos banhados que não fossem bombardeados com agente laranja. Fêmur de criancinha? Nenhum, pois os americanos haviam, certamente, colocado todas as crianças sob sua guarda.
Malditos comunistas, a eles agregados a quadrilha de Mao Tsé Tung que tinha posto o ditador aliado aos americanos, Xiang Kai Chek, para nadar até Formosa . Lá, eles já tinham ganhado a luta. A gente que se cuidasse.
Nesse meio tempo, aqui no Brasil, num macartismo retardado, oradores no padrão de Carlos Lacerda insuflavam e exacerbavam o medo do bicho-papão, rotulavam pessoas e adversários com a pecha de comunistas. Um presidente foi levado ao suicídio.
Mas os americanos continuavam incansáveis, num altruísmo de fazer inveja a São Francisco.
Nesse momento, o bicho-papão mudou de face. O medo adquiriu o nome de holocausto nuclear. Por obra e graça de Rosenberg, ou não, os comunistas quebraram o monopólio americano de armas nucleares. O bicho-papão podia acabar com o mundo e com nossas mocidades. Com armas milhões de vezes mais potentes das que os americanos pulverizaram Hiroxima e Nagazaki. O fim da aventura humana na terra, que depois virou música.
A ameaça nuclear foi o bicho-papão da vez. Claro que a culpa era dos comunistas. As armas americanas seriam só para nossa defesa, nunca para atacar os outros.
Como dois cachorros raivosos, cada um latia mais alto em seu lado da cerca. Mas sem ultrapassá-la. Em minha cabeça, os latidos comunistas eram a ameaça do bicho-papão. Os latidos em inglês eram de nosso cachorro. Para nos defender.
Pouco tempo depois, foi a vez do Vietname, de onde os franceses haviam sido postos para correr, em Diem Bien Puh. Malditos Mao Tsé Tung e Ho Chi Min, agentes do bicho-papão. Maldito General Diap, seu delegado.
Os vietnamitas seriam livres dos agentes do bicho-papão, nem que fossem forçados a isso. Que fosse na marra, mas seriam. Os americanos, da tropa de Westmoreland, eram a nossa segurança.
Com tanta confusão, o bicho-papão desmaterializou-se em imagem. Disfarçava-se com mil faces, igual ao Cão. De quem era, certamente, filho. Mas, seguramente, continuava comunista.
A vigilância tinha que ser redobrada. Ora, não tinha assumido a presidência um milionário e latifundiário, um dos maiores pecuaristas do Brasil que tinha se aliado ao bicho-papão? Cúmulo do absurdo, tinha chefiado uma missão diplomática-comercial com a China. Queria fazer as chamadas reformas de base, como reforma agrária, reforma bancária, lei de remessa de lucros e outras menos polêmicas que hoje pareceriam travessuras de meninos.
A vigilância aqui tinha que ser redobrada, pois esse presidente havia sido eleito pelo povo. Mas quem é o povo. Pouco interessa se esse presidente era rico e essencialmente capitalista. Era, antes, um comunista muito bem disfarçado. Provavelmente por Moscou e sua fortuna teria origem em manobras da KGB (ainda chamava-se NKVD). Por isso o povo foi iludido e os bons brasileiros teriam que salvá-lo, antes que fosse tarde.
Assim, meu bicho-papão vestiu bombachas e aterrisou em Brasília.
(Continua amanhã, para os que ainda tiverem saco para ler.)

domingo, março 18, 2007

Bicho-Papão I

Confesso. Tive medo de bicho papão.
No imaginário infantil, os medos coletivos passados para mentes virgens cristalizavam o pavor de inimigos imaginários, prontos para causar toda a sorte de danos, físicos e morais.
Na minha geração, nascida ao final da II Guerra, o bicho-papão eram os comunistas. Vejam, comiam criancinhas (nada a ver com os casos de pedofilia clerical) assadas, ao som de risos e danças cossacas. Eram ateus, inimigos do Papa, este sim defensor do bem e artífice do paraíso. Chegavam a afirmar que a religião era o ópio do povo.
A minha geração acompanhou os comunistas levantarem o muro de Berlim, o que forçou os americanos a promoverem a fantástica operação da ponte aérea, frustrando o sítio. Os comunistas matavam quem ameaçava pular a cerca que dividia a Alemanha.
Mas minha geração nunca escutou nada sobre o bombardeio em Dresden, já em 1945, com a Alemanha derrotada. Nem sobre campos de concentração na Califórnia. Nem sobre as atrocidades cometidas pelas patrulhas americanas. Os alemães lutavam até a morte porque era mais suave morrer do que cair cativo em mãos americanas. Ao extremo, uma divisão do exército alemão rendeu-se a uma companhia brasileira para evitar serem prisioneiros de guerra deles.
Não se comentava nada o fato da divisão da Alemanha resultar do acordo anglo-americano-soviético em Ialta. Nada se comentava da decisão em repartir o mundo entre duas ideologias. Nem que a Alemanha também estava ocupada por americanos e ingleses (os franceses já haviam saído após imporem suas fronteiras). Nada se comentava que pudesse minimamente igualar os dois senhores do bem e do mal, Estados Unidos e URSS, nessa ordem.
Que a ditadura soviética era brutal não se questiona. A cultura russa nunca viveu regimes de liberdade, nem sob Catarina, nem sob Pedro, nem sob Alexandre, nem Lenin, Stalin, Krutchev, nem sob os ditadores subseqüentes, nem na glasnost e perestroika e também na Rússia de Putin.
A cultura deles é outra e a opressão, para eles, tem cores diferentes das que enxergamos.
Porém, no maniqueísmo que nos era incutido, confesso. Em minha primeira infância, o bicho- papão parecia um soldado soviético, devorando um fêmur infantil tostado numa fogueira, com um riso falho de dentes. Cuspindo num crucifixo. Xingando o Papa.
Sem dúvida, tinham que ser eliminados da face da terra antes que em Florianópolis (era lá que eu morava) aportassem. Nesse sentido, muito pedi a Deus, com o apoio das freiras e padres da catedral. De quebra, também entravam na oração os protestantes, espíritas e maçons, todos com negócios com Belzebuth e que, talvez, fossem até comunistas desfarçados. Anticristos.
Convencido que fui, convencido fiquei. O comunismo era a grande maldição da humanidade, praga apocalíptica, prevista por Nostradamus. Urgia eliminá-lo, mesmo antes de se preocupar com o desenvolvimento do Brasil, com a redução da miséria, das desigualdades, das oportunidades. De que serviria uma sociedade próspera se o inimigo poderia vir e tomar tudo? De que adiantaria o ideário humanístico, formulado ainda na Revolução Francesa, de liberdade, igualdade e fraternidade? O último bastião de nossa defesa, os Estados Unidos, ainda segregava seus cidadãos pela cor da pele. Mas eles sim é que eram uma sociedade civilizada, não aqueles selvagens bolcheviques, que reuniam-se somente para maquinar como subjugar o ocidente.
Por isso tudo, meu bicho-papão tinha uma estrela vermelha em seu boné de pele. E um riso sinistro de maldade, pronto para espetar criancinhas e assá-las numa fogueira, escutando Olhos Negros.
(Para preservar a paciência de meus dois ou três leitores, dividi este escrito em episódios. Amanhã continua a saga do bicho-papão)

terça-feira, março 13, 2007

Silêncio dos Bons

Recebi a informação de que o Governo Lula está projetando unificar as áreas de comunicação do Executivo e haveria convidado o jornalista Franklin Martins para chefiá-la, convite ainda não aceito.
Na mesma informação, como um alerta conspiratório, eram relacionados outros participantes da surda luta armada que se instaurou na Brasil na primeira metade do período revolucionário de 64, vencida pelo poder central.
Dentre os então guerrilheiros citados estão:

Dilma Roussef, Ministra Chefe da Casa Civil ("ESTELA", "LUIZA", "PATRICIA", "WANDA"). Acompanhou a fusão entre o COLINA e a Vanguarda Popular Revolucionária, que deu origem à Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-P).

Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais. Em 1972 um enorme carregamento de armas enviadas pelo governante de Cuba, Fidel Castro, para a "defesa da revolução socialista" foi descoberta em sua casa.

Tarso Fernando Herz Genro ("CARLOS, "RUI"), ministro das Relações Institucionais. Em 1966, atuava na UNE e era militante do PC do B. Atraído para a luta armada, saiu do PC do B e ingressou, em 1968, na Ala Vermelha. Em 1970, ficou preso durante três dias no DOPS; solto, fugiu para o Uruguai. Na década de 80, foi militante do clandestino Partido Revolucionário Comunista (PRC).

Franklin de Souza Martins ("WALDIR", "FRANCISCO", "MIGUEL", "ROGERIO", >"COMPRIDO", "GRANDE", "NILSON", "LULA") Em Abr 69, foi eleito para a Direção Geral do MR-8 e, em meados desse ano, participou do seqüestro do embaixador dos EUA.- Em fins de 1969, fugiu do Brasil no esquema da ALN, indo fazer curso em Cuba.

Sem entrar no mérito do texto, pergunto: E daí?

Todos eles amadureceram e trocaram as armas. Acho que é de von Klausewitz a frase de que guerra é política com derramamento de sangue e política é a guerra sem. É possível.
Conquistaram o poder pelos meios legais, com o apoio da maioria da população numa livre escolha.
Não se pode dizer que estão a serviço de qualquer Estado que não o brasileiro. Não consta que tenham doado a infra-estrutura nacional a estrangeiros nem que a eles tenham alienado o subsolo brasileiro. Esse conjunto de ex-guerrilheiros, pelo contrário, tem mantido uma política nacional altiva, diferentemente de outros tempos em que o chanceler brasileiro teve que tirar os sapatos na imigração em Washington para ser revistado. Em missão oficial.
Os que lutaram contra eles também amadureceram. Têm melhor entendimento de seu papel institucional. Também submetem-se à lei, sem ameaçar crises a cada instante.
Franklin Martins é um jornalista respeitado e um dos comentaristas políticos de maior credibilidade no Brasil. Que bom se aceitar o convite.
Quanto a ficar revolvendo o passado, é vontade de procurar pêlo em ovo. Na época, muitos jovens, com indignação combativa, buscaram o rumo certo mas com caminhos errados. Falhou nossa geração em não lhes apontar o melhor caminho, por meio de uma formação política crítica e não dogmática.
Esses jovens envelheceram. Que bom para o Brasil se, a cada nova geração, surgirem outros indignados, dispostos a mudar o estabelecido mesmo com riscos pessoais, de promoverem a evolução. Cabe a nós fornecer-lhes as ferramentas para o melhor discernimento, para a capacidade de criticar os caminhos, de não serem pura e simplesmente conduzidos. De pensarem. De não adotarem o pior caminho.
Nesse momento, a frase de Martin Luther King é intrinsecamente atual:
"O que mais preocupa não é o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons."

segunda-feira, março 12, 2007

Boquirroto Belicoso

Eis que o bolivariano(?), em sua turnê de contraponto à de Bush, vaticinou mais uma de suas patacoadas.
Após discursar na Argentina, sob o olhar de media-luz do taínha morta, pegou o rumo dos Andes, para a terra do Evo.
Discursando contra Bush em um quartel, denunciou o patrocínio de magnicídios pela CIA, começando por ele e pelo próprio Morales.
E alertou. Caso toquem em um fio de cabelo de Morales ou dele mesmo, será início de uma guerra de cem anos.
Esses ditadorezinhos cucarachos se acham mesmo imortais. Por cem anos Chavez lutará. Talvez ao lado de Fidel, a essa altura tentando alcançar o recorde de Matusalém.
Alerta Chavez também sobre a possibilidade dos Estados Unidos valerem-se do apoio de alguma força armada reacionária para alcançá-los. Minha leitura dessa afirmação é de que Brasil se cuide, se tentar tornar-se uma potência energética renovável em conjunto com os americanos.
É bem verdade que Chavez tem aproveitado os dólares que recebe dos americanos, pela venda de petróleo, para armar-se. E bem. Mas isso não lhe dá força nacional em seu sentido mais amplo.
O programa de biocombustível é uma ameaça à política hegemônica de Chavez. E estou convencido que ele reagirá. Começando pela Colômbia, que se dispôs a investir no programa. Após, contra o Brasil, por meio de seus teleguiados.
Nossa política externa tem que ser alerta e firme. É impossível transigir com o futuro do País.
Chavez irá gritar, espernear, esbravejar, ameaçar e talvez até agir limitadamente.
Se o reduzirmos à verdadeira grandeza, passada a erupção, veremos que a montanha pariu um rato.

sábado, março 10, 2007

CHIPS

Não, nada a ver com eletrônica e informática. Ou será que tem, face à quantidade de luzes e alarmes que ornamentavam uma alcatéia de motocicletas que circularam em Brasília, nesta semana? Tirem suas próprias conclusões; confesso-me incompetente para tanto.
As possantes motocicletas em questão - mais de vinte, em comboio - roncavam aos pares, casais inusitados de gêmeos idênticos. Assim como os pilotos, em seus uniformes da Polícia Rodoviária Federal.
Não sei o que faziam em bando, policiais rodoviários que eram, numa via urbana. Vá se querer entender o que faz a polícia. Seus desígnios são conhecidos por poucos iluminados.
Mas o que chamava a atenção, mesmo, eram as letras garrafais aplicadas nas laterais. Literalmente.
POLICE.
Fiquei pensando. Seria um presente de Bush aos fiscalizadores das BR? Em homenagem à visita dele, mudaram o idioma pátrio? Quem sabe, o responsável pelos veículos da PRF concluiu seu madureza em inglês? Ou será que, pelo complexo de inferioridade nacional, entenderam que escrever em português seria uma agressão gratuita a turistas estrangeiros?
Acho que não, não foi nada disso.
Pra mim, a culpa foi do pintor do letreiro, já esclerosado, que confundiu o falado apoio à produção de chips e outros elementos de eletrônica fina, previsto no PAC, com o matusalênico seriado CHIPS (California Highway Patrol) que, nos idos da TV em preto e branco, narrava a saga e aventura de dois policiais rodoviários da Califórnia.
Pensou, o caduco, que estava pintando a moto para eles.

sexta-feira, março 02, 2007

Pefelices

O PFL quer desviar o foco da discussão sobre o PAC. Talvez por temor dos reflexos na opinião pública, ingressou no STF com duas ADIN. No STF a matéria será analisada sem o debate público, ainda que com conotações políticas, como é de praxe. Querem tirar a discussão do Congresso.
A primeira ADIN trata da criação do fundo de investimento lastreado em recursos do FGTS. Segundo eles, a propositura por Medida Provisória fere a emenda constitucional 32 que proíbe o seqüestro de bens de poupança popular.
Estão forçando a barra. Em primeiro lugar, os recursos do FGTS, administrados pela CEF, já financiam obras de saneamento em diversos municípios. Em segundo lugar, o tal fundo de investimento assegura ao trabalhador uma remuneração mínima equivalente à hoje existente. Por último, o FGTS não se trata de poupança popular; esqueceram-se dos fundamentos de sua criação.
A segunda ADIN contesta a MP que estabelece que o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores (Padis), vinculando-o a critérios estabelecidos pelo Executivo. Pela Constituição, segundo o PFL, essa deveria ser uma atribuição do Parlamento, por meio de lei, e não do Executivo.
Mais uma vez, estão forçando a barra.
O que o PFL teme, de fato, é que o PAC dê certo. Não se sabe se gerará os resultados projetados. Não se sabe se os recursos para saneamento chegarão às prefeituras com menos burocracia. Não se sabe se o Brasil entrará efetivamente no restrito clube da eletrônica fina. Tudo é uma incógnita. Mas, se pelo menos parcialmente der certo, perde o PFL seu palanque para 2010. E isso, para esses senhores oriundos da antiga UDN, mentores de apocalipses e fomentadores de golpes contra a democracia, será o fim.
Depois de 8 anos caudatários de outro partido e outros 8 anos fora do poder, não querem arriscar perder 2010.
Nem que para isso tenham que torpedear qualquer iniciativa que possa dar certo.
Para eles, quanto pior, melhor.

quinta-feira, março 01, 2007

Tudo como d'Antes

Enfim, boas notícias. Pelo menos, o Brasil não perdeu a identidade.
Só de hoje:

- Em São Paulo, o Guarda Municipal que alvejou o bandido que estava assaltando um Banco foi execrado publicamente pelo tucano Zé Serra e pelo pefelista Kasseb, maiores autoridades locais. Onde já se viu. Reagir a um assalto? Nem pensar. Não é sem razão que o número de assaltos a Bancos em S. Paulo cresceu 52% nos últimos 12 meses.

- O STF decidiu não decidir sobre a aplicabilidade da lei da improbidade aos políticos no exercício por ocasião da infração. O Min Grau pediu vistas e a voz lúcida no plenário foi do Min Marco Aurélio, que defende que se julgue antes causa semelhante, começando a contagem dos votos em zero. Na ação atual, movida por ex-ministro de FHC, o placar já está de 6 em favor do ex-ministro, computados os votos de quatro juízes que já se aposentaram.
A propósito, o ex-ministro turista em jato da FAB teve seu nome aprovado por unaminidade pela Mesa do Senado para presidir a Anatel, a maldita agência (des)reguladora das telecomunicações.
Quem sobrevive sucessivamente a governos diferentes, ou é muito bom, ou sabe de coisas...

- O Dep José Eduardo Cardozo, do PT, que teve contribuição destacada na CPI que apurou(?) falcatruas parlamentares, com atuação firme inclusive contra colegas de partido, apresentou seu nome para presidir a Comissão de Ética da Câmara. Resultado: está sendo boicotado pelos partidos que tiveram membros processados, inclusive do próprio PT. Temem que reabra os processos contra os deputados que renunciaram para fugir do julgamento e foram reeleitos e os cujos processos não foram concluídos na última legislatura. Ou seja: é inconveniente porque foi sério.
Solidarizo-me com ele, pois os motivos são os mesmos que me levaram a processar a União por uma condenação absurda e incompetente do TCU e de ser processado pela mesma União, atrás da multa que me foi aplicada, mesmo antes da justiça se manifestar sobre o mérito da injustiça cometida.

Ou seja, o Brasil continuou o mesmo hoje, nem melhor, nem pior, apesar da crise chinesa.

Estrilos do Bufão

Não deu outra. Como previsto, o bolivariano (?) Chavez abriu as baterias contra a produção de etanol e o possível acordo para abertura do mercado americano para o produto brasileiro.
Chavez, que convive com um déficit fiscal fruto de suas bolivariadas, depende da dependência americana de seu petróleo e foi buscar apoio sabem a quem? a Fidel. Quem, certamente, ergueu-se da tumba para ironizar a produção de álcool. "Onde chegará o preço dos alimentos", indaga Fidel. Logo a Chavez, que de alimento só entende o que ingere em sua pança. Avantajada, por sinal.
Quando o Brasil prestou assesssoramento a Cuba para aumento na produtividade de suas usinas de álcool e açucar, Fidel não pensava bem assim. A bem da verdade, o moribundo não deve estar conseguindo pensar em nada. E há muito tempo.
E quem associou-se às críticas de Chavez? Nada menos que o MST. Não é novidade. À direção desse movimento pouco interessa o assentamento de trabalhadores. Muito pelo contrário. Uma reforma agrária tiraria deles o palanque ideológico. E o incremento na produção de biocombustível possibilitaria o assentamento de todos.
E, em minha opinião, o movimento irá recrudescer. Os teleguiados de Chavez no Equador, Bolívia, Paraguai irão endurecer com o Brasil, a comando do bolivariano. Os movimentos políticos travestidos em ecológicos e sociais, fomentarão a bagunça interna. E, lá em baixo, o movimento será acompanhado por um olhar de taínha morta, aquele mesmo que flutua na margem sul do Prata.
E que, se puder, tirará vantagem da pressão sobre nós.