FregaBlog

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Capital-Motel

A cotação do dólar veio abaixo de R$ 1,70. A Bovespa superou o patamar de 65 mil pontos.
A inflação civilizou novamente sua taxa e as projeções sinalizam para o cumprimento de sua meta anual, bem como mantém-se a expectativa de crescimento do PIB e dos empregos formais
Isso tudo parece bom, mas será?
Em janeiro, o Brasil superou em reservas internacionais o montante de sua dívida externa, pública e privada. Esse fantasma, por vezes real, ou ideológico, ou demagógico, que inspirou tantos "Yankees, go Home" pichados em muros ou coreografados em palavras de ordem virou coisa do passado.
Porém, no mesmo janeiro foi registrado um déficit comercial superior a 4 bilhões de dólares, que pode ser atribuído ao descompasso cambial.
Oferta e procura é lei universal. No capitalismo, regula-se no preço; no socialismo, na disponibilidade de bens. Ou bem variam os preços, ou as quantidades ofertadas. São desequilíbrios do mesmo fenômeno.
Há uma superoferta de dólares. Nossas taxas de juros são administradas como ferramenta de combate à inflação, na contra-mão dos americanos, que promoveram recente redução para combate à recessão.
Abre-se, assim, uma brecha que fomenta o ingresso de capital especulativo no Brasil, país que tem adquirido cada vez mais confiança dos investidores.
O fluxo de moedas tem um paralelismo com a comida. Sua falta, mata de inanição. O excesso, de congestão. Sua má qualidade, de indigestão.
O Banco Central tem se valido dessa super-oferta também como arma de controle inflacionário. Mas isso tem que ter limite. O que torna absolutamente necessária uma regulamentação sobre o ingresso de divisas especulativas, do chamado capital-motel.
A permanecer livre como hoje está, estaremos desestabilizando todo o processo econômico, com reflexos inflacionários diretos. Pois os preços internos de commodities aumentarão em consonância com os preços internacionais e nosso setor exportador tem sua competitividade restringida.
Um exemplo é a soja. Tradicionalmente, o preço situava-se no entorno de US$ 12, o que estaria convertido hoje em cerca de R$ 20 a saca de 60 kg. O que se vê é que o preço aumentou no exterior em função da desvalorização do dólar e também no Brasil, pela supervalorização do Real. O Indicador Diário CEPEA / ESALQ / BM&F - Paranaguá registra, em 18/02, R$ 43.
A desvalorização do dólar frente ao Real exige que os preços internos sejam realinhados, pois há custos que são apurados em real, não em dólar. Se o fenômeno se restringisse somente à desvalorização da moeda - inflação americana- e nosso mercado de moedas estivesse estabilizado, o preço interno manter-se-ia no nível do mercado, acompanhando a inflação interna. Porém, nosso mercado está desestabilizado pelo fluxo de capitais especulativos, sem ordem, bandeira ou pátria. Sem restrições maiores.
E está nos ameaçando de indigestão.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Sonolência Burocrática

- Seu João, pode entrar, disse a recepcionista, cruzando as pernas e olhando para ele.

João, motorista com mais de 30 anos de estrada, precisava renovar sua carteira de habilitação e, para seu azar, o Contran, com sua imbecilidade tão singular, inventou mais uma regrinha para ser cumprida. João entrou e sentou-se à frente da mesa do médico.

Médico esse que, pela cara de enfado e desânimo explícito, demonstrava claramente haver abandonado Hipócrates para dedicar-se à carreira burocrática. Mais chata, porém mais fácil para garantir o pão de cada dia e as pensões alimentícias.

- Seu João, o sr tem distúrbios do sono, perguntou?

- Diz o quê? Repete que eu digo qualquer coisa, afirmou o convicto João, disposto a concordar com tudo.

- Não, seu João, não é isso. O sr tem distúrbios do sono? Dorme bem?

- Bem doutor, dormir bem é difícil naquela cabine apertada. Da cama de meu caminhão não se pode dizer Oh! Que beleza de cama. Mas a gente se amontua e dá um jeito. Só agora recente, depois que inventaro a tal de lei mandando que não posso trabalhar mais de 8 horas no dia, eu perco o sono com a prestação do bruto.

- Não é isso - pensou em complementar com um seu burro, mas só pensou. Quero saber do ronco.

- Bem, já que o doutor tocou no assunto, o ronco é um problema. A gente tá parado num posto, de madrugada, sempre entra um caminhão roncando. É só a gente pegar no sono. Barulheira infeliz.

- Seu João - paciência chegando ao fim - quero saber se o senhor ronca! Que droga de profissão, pensou. Pensou, mas não falou.

- Às vezes o ronco do motor entranha na cabeça da gente, sim. Fica uma zoeira danada nas orêia. Mandei até botar umas borracha no isolamento. Melhorou a fumaça, mas o ronco continua, sim senhor.

- Seu João - quase gritou o médico exasperado - pouco se me dá do caminhão. Eu quero saber se o senhor ronca.

- Ah, sim! Agora intendi. Parece que eu roncava, doutor, no dizer da minha sogra. Mas dispois que a véia morreu, ninguém mais reclamou. Acho que ela inventava, só pra me atentar. Danada, a véia.

- Bem, deixa pra lá. E falta de ar, o sr sente quando se deita?

- Poucas veiz. Tem uns posto, umas churrascaria que serve repolho e batata doce. Aí falta ar dentro da cabine. Tenho até que abrir a janela.

Foi a gota d'água. O médico, indeciso entre mudar de profissão ou ter um ataque de apoplexia, adotou uma terceira opção. Carimbou o papel do exame com um Isento de Distúrbios do Sono.
E assinou. Com CRM e tudo.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Sinuca de Bico

Aparentemente não temos nada com isso. Não temos sequer como influenciar. Mas, queiramos ou não, nossas vidas podem mudar - e mudarão - após a eleição presidencial americana.

Em princípio, as teses do partido democrata sempre me foram mais simpáticas. Mas tenho que reconhecer que os governos republicanos meteram-se menos conosco.
Claro que isso é relativo, pois ambos sempre consideraram os territórios ao sul como seu quintal.

Do lado republicano, o senador McCain se apresenta como um republicano light, contrapondo-se ao fundamentalismo evangélico tão bem representado por Huckabee. Mas mantém a mesma arrogância quando promete manter o embargo à Cuba, que implica no extremo de multar em milhões de dólares e levar americanos às prisões caso negociem com aquele país.

Do lado democrata, Obama promete mudanças e Hillary, experiência.
Li um texto muito bem articulado defendendo que a única possibilidade de vitória democrata seria concentrar os esforços na Sra Clinton e que a brecha estava sendo muito bem aproveitada, e até fomentada, pelos republicanos. É possível.

Porém, com a dívida democrata junto a Al Gore, que riscos corremos nós e a nossa amazônia com uma vitória democrata, seja de Clinton, seja de Obama?
Os democratas tem um histórico real de criar confusões mundo a fora. Preponderantemente guerras foram declaradas sob regimes democratas e encerradas sob as bênçãos republicanas. A do Iraque poderá ser uma das exceções.

Por outro lado, governos republicanos tendem a ingerir mais ativamente na América Latina.

E agora? Se correr, o bicho pega; se ficar...

Fidel

Texto integral da mensagem de Fidel comunicando que não disputará a indicação para Presidente do Conselho de Ministros e do Comando das Forças Armadas na Assembléia.
É o texto de um Estadista, com E maiúsculo. Honra a história.
Fidel cometeu muitos erros nos 49 anos de mandato, alguns deles muito graves. O maior deles, talvez, tenha sido não escrever esta carta há 10 anos atrás.
Sua conduta, enquando soldado de Moscou, era prepotente e intervencionista. Moscou caíu e a ficha de Fidel também. Cuba alcançou estágios sociais evolutivos pouco vistos em outros países, em especial do terceiro mundo. Mas não conseguiu essa mesma evolução no campo econômico nem no cenário internacional.
Porém Fidel é uma figura que, com certeza, marca a história mundial e a evolução para uma sociedade mais solidária.
Isso, ninguém lhe tira.

"Prometi a vocês na sexta-feira, 15 de fevereiro, que na próxima reflexão abordaria um tema de interesse para muitos compatriotas. A mesma adquire desta vez a forma de mensagem.
Chegou o momento de postular e escolher o Conselho de Estado, seu presidente, vice-presidentes e secretário.
Desempenhei o honroso cargo de presidente ao longo de muitos anos. Em 15 de fevereiro de 1976 foi aprovada a Constituição Socialista por voto livre, direto e secreto de mais de 95% dos eleitores.
A primeira Assembléia Nacional foi constituída em 2 de dezembro daquele ano e elegeu o Conselho de Estado e sua Presidência.
Antes, tinha exercido o cargo de primeiro-ministro durante quase 18 anos. Sempre dispus das prerrogativas necessárias para levar adiante a obra revolucionária com o apoio da imensa maioria do povo.
Sabendo de meu estado grave de saúde, muitos no exterior pensavam que a renúncia provisória ao cargo de presidente do Conselho de Estado, que deixei nas mãos do primeiro-vice-presidente, Raúl Castro Ruz, em 31 de julho de 2006, fosse definitiva.
O próprio Raúl, que adicionalmente ocupa o cargo de Ministro das FAR (Forças Armadas Revolucionárias) por méritos pessoais, e os demais companheiros da direção do partido e do Estado foram resistentes a me considerarem afastado dos meus cargos, apesar do meu estado precário de saúde.
Minha posição era incômoda frente a um adversário que fez tudo o imaginável para se desfazer de mim e ao qual não queria agradá-lo.
Mais adiante, pude recuperar o controle total da minha mente, a leitura e meditar muito, devido ao repouso. Tinha forças físicas suficientes para escrever por longas horas, o que fazia durante a reabilitação e os programas de recuperação. Um elementar bom senso me indicava que essa atividade estava a meu alcance.
Por outro lado, sempre me preocupei, ao falar da minha saúde, em evitar ilusões de que, no caso de um agravamento do quadro adverso, trariam notícias traumáticas a nosso povo no meio da batalha.
Prepará-lo para minha ausência, psicológica e politicamente, era minha primeira obrigação após tantos anos de luta.
Nunca deixei de destacar que se tratava de uma recuperação 'não isenta de riscos''. Meu desejo sempre foi cumprir o dever até o último momento. É o que posso oferecer.
A meus compatriotas, que fizeram a imensa honra de me eleger recentemente como membro do Parlamento, em cujo âmbito devem ser adotados acordos importantes para o destino de nossa Revolução, comunico a vocês que não aspirarei nem aceitarei - repito - não aspirarei nem aceitarei o cargo de Presidente do Conselho de Estado e Comandante-em-Chefe.
Em breves cartas dirigidas a Randy Alonso, diretor do programa Mesa Redonda da televisão nacional, que foram divulgadas por minha solicitação, foi incluídos discretamente elementos da mensagem que hoje escrevo, e nem sequer o destinatário das mensagens conhecia meu propósito.
Confiei em Randy porque o conheci bem quando ele era estudante universitário de Jornalismo, e me reunia quase todas as semanas com os principais representantes dos alunos, que já eram conhecidos como o coração do país, na biblioteca da ampla casa de Kohly, onde se abrigavam. Hoje, todo o país é uma imensa universidade".
Parágrafos selecionados da carta enviada a Randy em 17 de dezembro de 2007: "Minha mais profunda convicção é de que as respostas aos problemas atuais da sociedade cubana - que possui uma média educacional próxima de 12 graus, quase um milhão de pessoas com ensino superior completo e a possibilidade real de estudo para seus cidadãos sem nenhuma discriminação - requerem mais soluções para cada problema concreto do que as contidas em um tabuleiro de xadrez.
Nenhum detalhe pode ser ignorado, e não se trata de um caminho fácil, se é que a inteligência do ser humano em uma sociedade revolucionária prevalece sobre seus instintos.
Meu dever elementar não é me perpetuar em cargos, ou impedir a passagem de pessoas mais jovens, mas fornecer experiências e idéias cujo modesto valor provém da época excepcional que pude viver. Penso como (Oscar) Niemeyer que é preciso ser conseqüente até o final".
Carta de 8 de janeiro de 2008: "Sou decididamente partidário do voto unido (um princípio que preserva o mérito ignorado). Foi o que nos permitiu evitar as tendências de copiar o que vinha dos países do antigo bloco socialista, entre elas a figura de um candidato único, tão solitário e ao mesmo tempo tão solidário com Cuba.
Respeito muito aquela primeira tentativa de construir o socialismo, graças à qual pudemos continuar o caminho escolhido.
Tinha muito presente que toda a glória do mundo cabe em um grão de milho.
Portanto, trairia minha consciência ocupar uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total que não estou em condições físicas de oferecer. Explico sem dramas.
Felizmente nosso processo conta ainda com quadros da velha-guarda, junto a outros que eram muito jovens quando começou a primeira etapa da Revolução.
Alguns quase crianças se incorporaram aos combatentes das montanhas e depois, com seu heroísmo e suas missões internacionalistas, encheram de glória o país. Contam com autoridade e experiência para garantir a substituição.
Dispõe igualmente nosso processo da geração intermediária que aprendeu conosco os elementos da complexa e quase inacessível arte de organizar e dirigir uma revolução.
O caminho sempre será difícil e exigirá o esforço inteligente de todos. Desconfio dos caminhos aparentemente fáceis da apologética, ou da autoflagelação como antítese. É preciso se preparar sempre para a pior das hipóteses.
Ser tão prudentes no êxito quanto firmes na adversidade é um princípio que não pode ser esquecido. O adversário a derrotar é extremamente forte, mas o mantivemos longe durante meio século.
Não me despeço de vocês. Desejo apenas lutar como um soldado das idéias. Continuarei a escrever sob o título 'Reflexões do companheiro Fidel'. Será mais uma arma do arsenal com o qual se poderá contar. Talvez minha voz seja ouvida. Serei cuidadoso".

sábado, fevereiro 16, 2008

BRASIL PRESENTE

Transcrevo o texto abaixo, de autoria do excelente cronista André Carvalho, pela sua oportunidade e qualidade lúcida.
Vale a pena lê-lo.

"Hoje, ao sentar-me em frente ao computador, pensei escrever um artigo retroagindo aos primeiros quarenta e cinco dias do ano que agora se inicia com o término do carnaval. O título, pouco criativo, seria Passando o Brasil a Limpo - Retrospectiva 2008. Na contemporânea vida agitada, veloz e turbulenta, as retrospectivas deviam ser feitas a cada 45 ou 60 dias, por jornais, revistas televisões e consciências. Mal entabulei as primeiras conjecturas, o momento presente sobrepujou o passando a limpo e o artigo virou Brasil Presente.

Inicio com o compenetrado Senhor Ministro da Cultura afirmando, na abertura do fórum Campus Party, que é “preciso bandalargar (sic) o Brasil” O camarote expresso no carnaval baiano tirou o rumo do cara. O Brasil tá bandalargado há muito tempo. Tá largado, tá de banda e não é de agora. Chegou tarde o ministro. Mesmo assim vamos bandalargar mais. Você, eu, ele, Carlinhos Brown, Lula, todo mundo. Bandalargar na saúde, na educação, no saneamento básico, na segurança pública, na inclusão digital e na ética.

Muito elucidativa a entrevista ministerial coletiva no Palácio do Planalto para justificar o uso dos cartões corporativos por funcionários do governo. Ao lado da segunda dama, o Senhor Ministro General de Exército Jorge Armando Félix, declarou com cara de poucos amigos, que em questões de segurança quanto menor a transparência nos gastos, melhor. Sigilo é fundamental. Certo! Aí vão lá e colocam todos os “arapongas” de terno preto, óculos escuros, fone no ouvido, sapatos pretos largos, carros escuros e velozes, andando sempre em pares ou trios, usando o mesmo broche na lapela e o mesmo desodorante nos sovacos, etc. etc. etc.. Parecem uns armários de fórmica brilhante, resultado de horas e mais horas de exercícios nas esteiras ergométricas e dos fartos lanches e jantares, todos adquiridos, sigilosamente, com os cartões corporativos.

Na Universidade de Brasília o Magnífico Reitor, cujos prenome e sobrenome não consigo pronunciar, que dirá escrever, reformou o imóvel em que mora, gastando a módica quantia de R$ 470.000,00 da verba destinada à pesquisa. Creio que a UNB usou a preciosa oportunidade para fazer pesquisa nas áreas de medicina, geologia, engenharia civil, hidráulica e elétrica. Pesquisa tipo: qual o diâmetro da tubulação de água e a pressão aplicada para encher uma banheira de hidromassagem com 15m³ em sete segundos? Qual a espessura do granito aplicado em base totalmente plana, e de semelhante coeficiente de dilatação, para suportar 01 ton/m² caso ocorra uma festa para Phd’s na residência oficial? Qual o resultado para a visão dos míopes, sem lentes corretivas, se aplicado nas paredes da sala a cor bege, alternada com o vermelho, em listrinhas horizontais de 2,3cm cada? Quantos Kva’s são necessários para iluminar, em carga reativa, a vida de um Reitor?

O Brasil vem se destacando no mundo acadêmico por pesquisas e mais pesquisas, principalmente nas áreas do genoma e da nanotecnologia. Estudar o genoma desse Reitor ou seu “nanocérebro” deve ser interessantíssimo.

Para finalizar, em depoimento a Justiça Federal, o Sr. Roberto Jefferson, réu depoente, chorou e anarquizou, dando o mote e o tom para a ópera-bufa em que poderão se transformar o conteúdo, transcurso e desfecho do processo dos mensaleiros.

O Brasil está sadio e pungente, caso contrário não teríamos esse festival de comicidades. Somente um país saudável é capaz de produzir tantas piadas. Somos a melhor zorra total da América Latina. Superamos as fanfarronices “bolivarianas” de Hugo Chávez.

Saravá!!!"

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Beijo da Mulher Aranha


Está circulando pela internet.

Acho até tratar-se de montagem ou de somente ângulo de visada.

Mas vou, só por um momento, fazer de conta que seja verdade.

E, em sendo, temos evidente um equilíbrio no mau-gosto. Imaginem o que esconde o bigode de Sarney. Afinal, não pode ser à toa o portar um escovão de piaçava sob o nariz durante décadas. Algum mal oculto, lepra não, mas sarna pode ser sugestivo. Quem sabe só uma cicatriz de navalhada? Ou será um lábio leporino? Seja o que for, mesmo que nada seja, nem uma pulga ou carrapato, duvido que escovações múltiplas retirem o odor dúbio do camarão seco do mercado de São Luis, entranhado por décadas de consumo no solar de Curupu.
E o cheiro de amoníaco, da tintura? Bem, esse pode ser disfarçado com toda a tecnologia cabeleirística disponível a quem se disponha gastar e possua fortuna pessoal. Esse sim se disfarça mais do que a negritude bigoduda do ilustríssimo, tão natural e verdadeira como uma nota de três reais.
Por outro lado, a senadora não é nenhuma Mônica Veloso. Trubufu de retrós, feiúra apocalíptica. Claro, em minha modesta e infundada opinião. Apesar da embalagem, quem sabe esconda beleza interior, singular e indescritível. Tão indescritível e oculta que, por mais que me esforce, não consigo imaginá-la, nem descrevê-la. Devo isso, claro, à minha ignorância em aprofundar-me nas emoções humanas.
Mas, quem sabe, exista.
Ou não. Afinal, prá quem já encarou marimbondos de fogo, qualquer aranha é bobagem.
Porém, ganha a base aliada com esses conchavos. Acertos de palanques, corredores ou de alcova? Não, de língua. Ferina de uma, matreira do outro. Cúmplices, trocando cuspes e sabores de camarão. Um seco, de São Luís; outro frito, da Lagoa da Conceição. Complementares.
No dizer de Freyre: sem tesão não há solução. Complemento eu: nem composição.
E assim caminha a humanidade. E o Senado também.
Mas não adianta. Não consigo acreditar que seja verdade.
A realidade é cruel, mas não grotesca.









Especialização em Generalidades

A melhor definição que já ouvi sobre o assunto é que, no extremo, o generalista sabe nada sobre tudo e o especialista, tudo sobre nada.
Como extremos não existem, vá lá. Vamos fazer uma concessão. O generalista sabe quase nada sobre quase tudo. O especialista, quase tudo sobre quase nada.
O que sei é que vivemos sob o império da especialização. E aí, só por nostalgia daqueles tempos dos quais nunca imaginávamos sentir saudade, reflito sobre alguns resultados alcançados.
Na saúde, o médico era efetivamente clínico geral. Esse é quem nos atendia, que curava desde bicho-de-pé até apendicite. Não pedia exame de sangue para detectar virose, de urina para saber que havia uma infecção. Somente tratava.
Os especialistas de hoje são hábeis em ler exames e ineptos em diagnosticar pelos seus próprios conhecimentos.
A educação era conduzida por generalistas. A verdade é que aprendíamos nos bancos escolares. Os especialistas conseguiram impor livros bonitos e atrativos, mas sem conteúdo. Tudo em pról de uma pedagogia na melhor técnica, mas sem conteúdo. Todos sabemos os resultados.
As igrejas eram genéricas, pregavam um deus genérico. Hoje, especializaram-se. Umas na venda de milagres, outras na prosperidade. Há, ainda, as que sabem tudo sobre demônios. Outras, sobre os poderes de um copo d'água em ciam da televisão.
Na odontologia, então. O dentista tratava velhos e crianças. Obturações e canais. Hoje, até para extrair um dente há que se buscar um especialista, indicado pelo próprio dentista.
Nosso trânsito é formado por especialistas. Resultado: regras cada vez piores e mais burocráticas para fomentar o caos e a tormenta. Exige-se que o motorista também se especialize e o aumento dos casos de barbeiragem explícita e evidente se somam.
Pollyanas de plantão especializaram-se em considerar bandidos como vítimas da sociedade. Os bandidos especializaram-se em usar a lei para atacá-la. E a polícia criou unidades especializadas em matar bandidos sem cobrar propina.
As leis mais genéricas deram lugar às especializadas. Resultado: quase mil novas leis por ano (só as federais), sem contar das regulamentações às emendas constitucionais. Paraíso dos advogados. Especializados, evidentemente.
Na especialização especializada, objetivo maior de uma sociedade distorcida, não há lugar para um valor fundamental: o bom-senso, o senso crítico.
Chamem os generalistas.
Urgente!

sábado, fevereiro 09, 2008

Usos e Abusos

Tudo o que é disponível, é usável. Mas, sem valores como ponderação, respeito, bom-senso, pode virar abusável.
É o caso dos cartões corporativos, bola da vez da mídia e véu do momento a toldar importantes questões que nos afligem.
Não que o assunto não seja importante. Muito pelo contrário.
Trazê-lo á tona nos faz lembrar do quanto a natureza humana é frágil e do tanto que os valores éticos de nossa sociedade estão corrompidos.
Tivéssemos nós também um cartão desses, associado à sensação de onipotência e de impunidade umbilicalmente ligada à gestão pública brasileira nos últimos tempos, também fraquejaríamos?
Sinceramente, não sei.
Essa questão não pode ser relativizada nem quantificada.
Relativamente, o gasto foi pouco. De um orçamento federal de mais de 200 bilhões em despesas, foram gastos perto de 80 milhões. Menos de meio porcento. Relativamente, não é nada.
Em termos absolutos, para nós é muito. Para o Bill Gates, não relevante.
A crise maior é moral. É a falência do Estado tutor.
Pela emoção da crise Collor, criaram a Lei 8666, em substituição à regulamentação em vigor, instituída pelo DL 200. Com a nova lei, entraram em detalhes operacionais que engessam o correto e abrem túneis para o mal-feito. Resultado: diversas reedições, alterações, escândalos sucessivos.
O Estado de São Paulo, a acreditarmos nas notícias, utilizou o cartão em mais de 130 milhões, em 2007. Superou o governo federal. Nos outros estados, ainda não há notícia, mas a OAB está fuçando, em sua vocação para luzes e holofotes.
Estão errados os governos estaduais, municipais e federal no uso do cartão? Não, claro que não. É elemento facilitador da gestão pública e eliminador de pequenos-caixas espalhados pelas diversas repartições para o atendimento de pequenas despesas.
O Comando da Aeronáutica, recentemente, divulgou nota a rspeito dos gastos em cartões por oficiais da força, com informações que os justificam plenamente. Aparentemente, uso correto.
Nesse caso, então, o que há de errado?
O erro, em minha opinião, é a ruptura dos valores morais experimentada pela sociedade brasileira, que tornou Macunaíma profético.
É necessário interrompermos o processo de tutela e curatela do Estado sobre os cidadãos. Eliminar essa infinidade de fiscalizadores, de tribunais de contas e de faz-de-contas. De instituir o império da lei. De punir exemplarmente quem se valha da sociedade em benefício próprio. E para isso existe o judiciário.
É necessário que a formação dos jovens, além dos estudos, respalde-se no exemplo, instrumento único para a fixação de valores. E não é gastando fortuna pública com segurança de filha adulta, no caso Lurian, que se dá o exemplo.
Madames ou circunspectos senhores, juízes, desembargadores, procuradores, parlamentares, secretários e sua entourage, agentes públicos de todos os escalões e escalas, quando utilizam viaturas públicas para compras ou passeios pessoais, estão dando esse exemplo?
Quando funcionários surrupiam papel e lápis da repartição para complementar o material escolar de seus filhos, consideram normal?
Quando o dedo funciona livre, lépido e solto para fazer ligações telefônicas que não são feitas em casa como corte de despesas pessoais, consideram justo?
Quando a máquina da xerox serve até para copiar correntes petéticas para distribuir aos outros, ameaçando se não forem reproduzidas, consideram ético?
Quando deputados federais ressarcem-se de 16 milhões de litros de gasolina só em 2007 - suficientes para um veículo de luxos percorrer 80 vezes a distância da terra à lua - dão bom exemplo moral?
Enquanto tudo isso permanecer, não há o que reclamar. Éa regra do jogo.
É a conversão do uso em abuso.

domingo, fevereiro 03, 2008

Matilde

Ah! Sim. Perfeito. Ela se enganou.
Nós também nos enganamos. Às vezes, confundimos uma moeda com outra, na hora de comprar pão, de pagar o ônibus. Às vezes é o caixa que se engana. Enganar-se é normal.
O anormal é enganar-se com o cartão de crédito dos outros. Nesse caso, o engano é moral, e por engano leia-se falha, deficiência, defeito.
A ex-Ministra Matilde, coitadinha, enganou-se. Foi induzida ao erro por dois assessores mal-intencionados ou incompetentes. Ela, claro, utilizou o cartão como se fosse seu, mas foi por engano. Tudo o que ela queria era promover a igualdade racial e, racista como se mostrou, quem sabe dar um cartão desses a todos os afro-descententes que encontrasse. Como resgate histórico.
Até eu que sou mais bobo e, infelizmente, fora dos padrões raciais da Matilde, procurei onde começava a fila. Também queria. Confesso que não achei.
Matilde gastou quase R$ 15mil em média mensal, suficiente para promover sessões de bronzeamento radicais em muitos ariano-descendentes,para aproximá-los dos padrões raciais propugnados por ela.
Mas foi por engano que ela usou os cartões.
É que ela foi contaminada por uma variedade específica de febre amarela, que ataca os cara-de-pau e torna o sorriso daquela cor quando o mal-feito é descoberto.
Matilde padece de um conflito interno grave. Não sabe o que vem em primeiro lugar: a nacionalidade ou a cor da pele. A rosemberguiana às avessas várias vezes escorregou nisso, chegando a pregar o racismo, a discriminação entre brasileiros.
Acho até estranho que ainda não tenha se valido disso para dizer que está sendo perseguida por ser negra e pobre.
A negritude dela é evidente, mas não tem qualquer correlação com sua inconseqüência. A pobreza, certamente. A de espírito.
A pobreza de espírito também torna as pessoas vulneráveis a outro vírus, ainda não classificado, mas que ataca os sentidos da audição, da visão e do olfato. Impede que a pessoa veja o que está fazendo, que ouça seu bom-senso, que sinta o cheiro do cocô. Mas, surpreendentemente, não afeta o tato para busca do dinheiro público, nem o da fala, para poder jogar a culpa para terceiros.
Que feio,Matilde!