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quarta-feira, junho 25, 2008

Comandante?

O midiático ministro, a pretexto do embargo da Justiça Eleitoral nas obras no Morro da Providência, determinou imediata retirada das tropas do exército e seu retorno aos quartéis. Para ele, o embargo foi providencial, arrumou uma justificativa sustentável perante seus subordinados e um pretexto político deglutível.
Talvez o governo tenha até agido como amicus curiae in pectoris para fornecer argumentos que levassem ao embargo, embora as obras tenham se iniciado em ano não eleitoral, portanto fora das limitações legais. A essa altura, pouco interessa. Se formalmente seriam sustentáveis, politicamente tornaram-se indesejáveis. Viva a burocracia, e o governo capou o gato.
Se o exército deveria ter sido utilizado para prover segurança às obras é assunto contestável. Particularmente, penso que não. E assim penso por vários motivos, em sua maior parte já expostos em texto anterior. Mas admito que haja quem encontre razões, também ponderáveis, defendendo a medida. O assunto é controverso, sem dúvida.
No entanto, o que não deixa dúvida é a covardia que se instalou nesse episódio. A reação popular no Morro da Providência tem um mandante: o tráfico de drogas, cujas atividades estavam sendo prejudicadas com a presença do exército. E ganharam a batalha, batalha não, a guerra. Nocautearam o exército que, doravante, enfrentará sempre reação hostil em qualquer intervenção que faça. O precedente foi aberto.
E o governo acovardou-se, como de hábito, sempre que precisa enfrentar alguma crise. Dane-se a instituição exército, desde que os comandantes salvem a pele com mínimos arranhões.
A covardia desceu todos os escalões. Ou subiu, sei lá; são vinho da mesma pipa, farinha do mesmo balaio.
O comandante do exército enclausurou-se no silêncio, fechou as valves de sua ostra. Não era nem com ele o assunto. A corporação, dele, não ouviu um sussurro de defesa.
O midiático, por sua vez, entre cafezinhos e declarações infelizes, agarrou a corda do salva-vidas e determinou a imediata retirada das tropas, sem um gesto de defesa também. Ao contrário, quase que vinculando o crime cometido com a instituição, que alíás o puniu desde o primeiro momento.
A covardia culminou com Lula. Declarou ele ser inaceitável a presença do exército no Morro da Providência, como que afirmando de que nada sabia, de que não tinha autorizado, que era inconstitucional, um desvio de função ao menos. Lula está tão especializado em não ver, não ouvir, não falar, que não se surpreendam se começar parecer com os três macaquinhos símbolo do "me inclua fora disso".
Mas Lula, constitucionalmente, é o comandante-em-chefe. Comandante que, na hora do sufoco, assim como todos os outros, abandonou a tropa a seu destino, arregaçou a baínha das calças e deu no pé.
Calças essas que já deviam estar borradas, certamente.

sexta-feira, junho 20, 2008

Morro da Providência

O episódio envolvendo um pelotão do exército no Morro da Providência desnudou um conjunto de falhas e quebrou alguns conceitos sobre os quais especialistas de toda ordem teorizavam em suas teses e antíteses.
Deixa às claras, de quebra, mais uma constatação da doença social que ataca todos os segmentos e que se reflete nos pequenos e grandes atos. Nossa sociedade, acreditando no bombardeio do politicamente correto; de que deve pagar seu suado dinheirinho para que criminosos e infratores sejam "recuperados" ao invés de punidos; de que as mazelas são resolvidas retirando-se o sofá da sala, e isso vale tanto para o desarmamento como para a venda de bebidas alcoólicas nas BR; de que o guardião da moralidade, verdadeiro tribunal de exceção dito de Contas, é conduzido por ministros vitalícios indicados politicamente por partidos políticos e suas bancadas, além de outros exemplos, começou a ver no exército uma alternativa à corrupção e ineficiência policiais, um sucedâneo às benesses judiciárias aos criminosos, baseadas na lei, claro.
Essa idéia não sobreviveu ao primeiro embate. Exército foi feito para combater inimigos externos, discutível se da Pátria ou se de governos. Mas, combate a inimigo é sem trégua, visa sua destruição. Patrimônios são destruídos, vidas aniquiladas, medo implantado, respeito eliminado. Guerra é guerra, já dizia a madre superiora. Guerra é a inteligência a serviço da barbárie. Invade, destrói, ocupa, mata. Arrasa e impõe suas leis. A formação militar é para a guerra, onde os limites morais do humanismo são relegados a plano mais baixo.
Querem o exército como agente de segurança pública, mas não querem, e não permitem, e nem seria razoável permitir-lhe, aplicar as leis da guerra. Perde-se um bom combatente, ganha-se um péssimo policial.
Estivéssemos em reconhecido estado de guerra, o tenente - imaturo e despreparado para a missão - não teria soltado os presos em território hostil. Ele mesmo teria promovido sua eliminação. Para isso o formamos. Não quis sujar suas mãos nem sua folha de serviço, os traficantes rivais que o fizessem. Aplicou as leis da guerra às avessas.
Prisão preventiva, indiciamento em homicídio, lama no brasão. Foi isso o que conseguiu. estivesse em guerra, possivelmente, além de eliminar os agentes do tráfico local, também combateria os do morro rival. Errou profundamente.
Já a sociedade que agora o crucifixa é a mesma que o ansiava vê-lo com jipes e metralhadoras a garantir o acesso de seus filhos às ladeiras para comprar drogas sem que fossem mortos pelos traficantes. Grande parte dos atuais carrascos financiam o tráfico com as gordas mesadas a seus filhotes, mesadas não raro pagas com dinheiro sujo. Vale tudo, desde que seja assegurada a integridade física desses meninos.
Não há tráfico de drogas sem consumidores ou sem que o próprio tráfico seja ilegal. Mas rever isso dá arrepio à nossa sociedade doente.
O segundo ponto relevante é a nebulosa que paira sobre os reais propósitos do projeto no Morro da Providência. Cunho social ou eleitoral? Seu mentor, senador eleito pelos fiéis da Universal do Bispo Macedo e dele sobrinho e protegido, é também candidato a prefeito do Rio. Coincidência? Talvez. Mas dá a impressão da utilização do exército nessa maracutaia eleitoreira. Bem a gosto do midiático comandante, tomador de cafezinho nos holofotes e domador de jibóias quando flashes espoucam.
O terceiro ponto da febre social: não é possível de fato, apesar de desmentidos, a execução de qualquer obra nos morros do Rio, pública ou privada, sem a concordância dos traficantes. Os governos, federal, estadual ou municipal têm que cumprir o ritual de rapapés e permissões para entrar nesses guetos. Não se estranhe, portanto, que as forças de segurança saibam exatamente onde encontrá-los, quem são. Acontece que não podem ser considerados inimigos, pela legislação atual e pela Constituição Pollyana. Empurra-se o problema com a barriga. Do tenente ao general, do sargento ao midiático, todos sabem e convivem com o fato. Mas ninguém pode agir, impedidos pela própria lei, pela pressão social dos próceres e pelo não reconhecimento da guerra civil que vivemos.
As próprias televisões divulgam a imagem desses traficantes, e de seus soldados, permanentemente armados em vigília de seus territórios. Esses, nem a polícia, nem o exército, nem o midiático, nem Lula mandam combater e desarmar. Desarmam, prendem e multam a nós, simples cidadãos que resolvemos não ser bandidos.
E os assassinos, já os prenderam? Claro que não. Dizem que já sabem quem são, mas isso já sabiam desde o primeiro momento. Os assassinos, esses são protegidos pela lei. Estigmatize-se, então, o exército e seu tenente. É mais fácil e mais rentável. Embora a reconhecida deficiência moral do tenente, atenuada somente por também ser vítima, por ter sido formado para uma coisa e dele ter-se exigido outra, diferente. O que não diminui nem retira sua participação no crime, nem limpa a mancha na instituição que serve.
O fato é que, junto com os três rapazes assassinados, morreu também um pouco do exército.

terça-feira, junho 10, 2008

Mulheres de Atenas, Homens de Esparta

Deu entrada no STF uma representação promovida por uma(seriam várias?) entidade de defesa corporativa de homossexuais. Deu ou dará tanto faz o tempo, o verbo dar é o mesmo.
Reclamam os gentis sorellos do tratamento discriminatório, persecutório até, a vitimar os dois sargentos que saíram do armário espargindo lantejoulas e jogando cocô no ventilador.
De fato, se os dois se dão - tão bem, lógico - o que estrelados coronéis têm a ver com isso? Amásios e amantes ditos há 11 anos, habitando em unidade funcional, ninguém suspeitou antes? Nem uma desmunhecadinha ao menos em frente à tropa falicamente perfilada? Claro que sabiam, conviviam com o fato e, cá pra nós, é problema deles. Não que lhes gabe o gosto, entrelaçar bigode com bigode, nem com buço de fêmea. Côncavo sem convexo, que coisa mais sem graça. Pelo menos em minha antiquada opinião, mas vá se saber dos gostos dos novos tempos.
Tempos novos, não do dar e receber, pois cada um tem coceirinhas onde lhe aprouve. Mas orgulho da coceirinha impertinente, qual bicho-de-pé, quanto mais coça, mais gostoso fica. Bicho-de-pé ou bicho em pé, sei lá. Novos tempos, novos significados.
O fato é que os enamorados sargentos resolveram publicar o que era privado. Devassaram as quatro paredes (sete, contando com as da suíte), ufanaram-se peito cheio de orgulho, quiçá de silicone, apontaram o exemplo, fixaram a bússola, quebraram a sinonimia entre macheza e virilidade. Lançaram a dúvida do sentinela ao general, do sacristão ao cardeal.
Há uns 10 anos, um oficial superior, não me lembro com certeza, mas acho que sim, pertencente à tropa de machos com mais corda de machos em todo o Exército, a Brigada Paraquedista, foi flagrado em íntimas carícias com michê contratado, dentro de seu automóvel, no Rio de Janeiro. Não fez disso motivo de orgulho pessoal. Esse infeliz sim, merecedor de solidariedade. Cercou-se de mulher e filhos, na vã tentativa de controlar seus instintos. Se alguém teve preconceito, foi esse desafortunado, a vestir uma capa que não era sua, a fingir uma situação para encobrir suas entranhas de si mesmo, feroz juiz e inimigo interno. Esse, não orgulhou-se de nada, seus sonhos e devaneios, pesadelos se tornaram, por ele não foram gerados.
Diferentemente dos sargentos ativistas, ou passivistas, à sua escolha, leitor. Orgulharam-se de condição que não era sua, certamente herdada nos mistérios de uma natureza caprichosa e em constante mutação. Orgulhassem-se de uma personalidade leal, de retidão de conduta, de solidariedade social, além de outros valores adquiridos em sua formação, valores que tivessem dependido de si, de suas determinações, seria justo o orgulho. Com que razão se orgulharia o homem de ter nascido homem? E a mulher, razão teria? Esse fato deles não dependeu, em nada contribuíram para isso, uma palha moveram. Embora haja quem sustente que homem e mulher procedem de planetas distintos - Marte e Vênus são constantemente citados - o certo é que, se ambos terráqueos, sua diversidade não se encerra no gênero, avançando sobre a espécie. Quem duvida que entre os humanos, condição única no reino animal, machos e fêmeas são de distintas naturezas, juntando-se somente para folguedos e, de quebra, procriação? Ou mesmo para reclamar de saias curtas, de seios à mostra, de roupas espalhadas, ou mesmo sem qualquer motivo, em tempos de insuportável TPM?
Talvez os romeus-e-julietas fardados assim pensassem e, abdicando a procriação, potencializassem os folguedos, baipassando TPMs e dores de cabeça. Mas, e daí? Problema deles. Estamos habituados a considerar macheza valentia. Não era bem assim com os soldados de Esparta, amantes agrilhoados até à morte. Assim também as legiões romanas batiam-se e folgavam em justa e medida proporcionalidade com vencidos e vencedores. Em gênero, número e grau, nessa indeclinável ordem.
Reconheço, no entanto, a bizarrice numa patrulha em combate, ordenar o comandante com voz de falsete e trejeitos de ninfa: meu amor, vá pela direita e não se atrase para o jantar. Sei não, acho que não funcionaria muito bem.
Porém, pra ser datilógrafo, secretário, ajudante, sargenteante etc a macheza não é tão importante assim. Aliás, desde que abriram o acesso às mulheres - embora sua reconhecida e definitiva incapacidade de ler mapas - deram passo maior, final, demolidor desse preconceito binomial de macheza como sinônimo de valentia. É o axioma de Madame Satã.
O que pegou então?
Pegou a divulgada deserção. Pegou a vinculação de suas opções, suspeita lançada à toda tropa. Entrevista com direito à capa de revista com camiseta camuflada e tudo. Qual a razão? Orgulho, mágoa, revolta, vingança?
Acho que não. Foi pra criar de fato essa quizumba e amenizar a punição certa e legal, justa e regulamentar pelo crime cometido.
Macho-fêmea, sim. Burro, não.