FregaBlog

quinta-feira, julho 24, 2008

Começaria Tudo Outra vez

Queria, sim. Não precisava ser com tanta velocidade, passar tão depressa, correr tanto. Mas queria chegar nos 60 anos, idade vetusta e respeitável, em que mesmo a mais quadrada besta adquire ares de pensador, a cofiar suas barbas brancas com olhar no infinito. O que não é meu caso, claro. Tenho raspado a barba, ultimamente.
O 60 anos é um bom momento para retrospecto. É uma idade em que a vida passou, mas ainda recomeça a cada novo dia, com nova dimensão. Há beleza também nos ocasos, às vezes maior do que no nascer do próprio dia.
E vem a primeira imagem, a do pôr-do-sol do outono no Guaíba, águas mais do que douradas, fulgurantes como o próprio sol a se esconder, a partir da Duque, casa de minha mãe, por trás da Ilha dos Marinheiros, rumo ao Jacuí e, quem sabe, recolhendo-se para passar a noite na torre da Igreja de São José, em Taquari.
Taquari da terra natal de meu pai e adotiva de meu avô. Taquari do Carapuça, dos Pinheiros, da Lagoa Armênia. Taquari que quase não convivi, mas onde esse ciclo começou e materializou-se na Rua Almirante Câmara, 358, na Tristeza. Sob o testemunho silencioso, mas nevado em algodão da paineira centenária.
Deus me propiciou pais sábios. Muito sábios. Pais com valores morais muito sólidos. Pais com espírito crítico sempre presente, a questionar a melhor conduta, a maior adequação às transformações. Pais com espírito aberto, nos limites da abertura de seu tempo.
De quebra, ainda me deram 6 irmãos. Nem consigo distingüir um do outro quanto à solidariedade, amizade profunda, coração aberto. Cada um, a seu jeito e maneira, são pedaços de mim mesmo.
E, como não há ponto sem contraponto, matéria sem anti-matéria, conceitos sem contra-conceitos e valores sem contra-valores, dialética insana, sinto-me compungido a estabelecer um marco zero do tempo em 23 de julho de 1948. Sessenta anos se passaram, simetricamente, então, sessenta anos haviam de se passar até aquela data. Meu ciclo, portanto, é de 120 anos.
Minha contagem, assim, estende-se desde poucos meses após a abolição da escravatura. Reinava então Pedro II, num império representativo do melhor período experimentado pela história brasileira.
No golpe republicano de 89, um ano já havia transcorrido dessa contagem regressiva. E um a um foram seguindo, com enormes e fantásticas metamorfoses sociais, tecnológicas e de costumes.
Sou, portanto, testemunha de 120 anos de transformações. Os primeiros 60, pelo depoimento de quem os viveu e que tinham, em meu nascimento, a idade que hoje tenho. A derradeira metade, por mim mesmo.
E são dessa metade minhas lembranças mais reais.
Vivi uma vida de coragem. Nada foi muito fácil, mas tudo enfrentado com muita disposição de luta e de superação de dificuldades. Tudo muito divertido, pelo menos quando delas me distanciei um par de anos. Às vezes, meia-dúzia deles, mas o que é o tempo se não um tipo de escada rolante a nos levar para o andar de cima? Além do que Deus sempre me amparou, na forma que o judaísmo reduziu pela expressão Javé Erez. A mão nunca faltou e mesmos os anos em que os gafanhotos comeram foram sempre supridos pelo divino. Nada me deixou faltar além do suportável, além do imprescindível para que aprendesse as lições necessárias à minha evolução ou ao cumprimento de minha missão.
Escolhi cenários, no livre arbítrio. As peças já estavam escritas e os atores escalados em cada um deles. Os fatos, predeterminados. Foi só uma questão de usufruí-los e mudar de cenários foi um dos exercícios que mais pratiquei. Em cada um, outras peças já escritas, na melhor dimensão cabalística.
Amores, amei muito e muito aprendi com eles. Amor de adolescência, sem beijos trocados nem carícias roubadas, mas com olhares disfarçados. Amores de juventude, inconscientes e inconseqüentes, lições de vida.
Amor de adulto, solidário e cúmplice. Amor de madureza, de resgate da descontração e juventude. Amor de senilidade, talvez o próximo. Amor a mim mesmo, egoísta, porém o mais importante. Amor à natureza e seus mistérios; ao ciclo das vidas e formas; a meu País e meus irmãos de nacionalidade; a Deus, em todas suas nuances e expressões. Reconheço, amei muito e intensamente.
Dessa capacidade transitória de amar, restaram mais do que amizades, porém afinidades intensas, pontos de tangência e de secantes e algumas trombadas nos encontros casuais e fortuitos das bolhas de sabão que somos cada um de nós, livres no espaço temporal, numa demonstração da teoria do caos. CQD.
E, fruto desses amores, 4 filhos.
Adriana, a mais parecida comigo em qualidades e defeitos. Mais velha, muito amiga. Tão amiga que está encarregada de cantar Imagine, como requiém em minha missa de 7º dia, fato que espero ainda demore muito.
Só como esclarecimento, não que eu faça questão dessa missa, mas entendo que acabará acontecendo, por iniciativa de alguém, por tradição ou promoção de um encontro social solidário de despedida, de virar a página. Além disso, trará a vantagem de permitir de público que se enalteçam, mesmo que falsamente, minhas qualidades e que meus defeitos sejam lembrados atenuadamente, sem raiva, en passant, com desculpas e perdões antecipados e constrangidos. Gostaria de assistí-la, iria rir muito, mas creio que haverá um impedimento material de fazê-lo.
Luciana, um bibelô ainda frágil porque não descobriu sua força, não desvendou e livrou-se de seus grilhões. A mais parecida comigo fisicamente, o que, modestamente, a transforma na mais bonita.
Mariana, miúda e pequena, com os cabelos que lembram os de minha mãe, ainda me deve uma monografia. Madura, desabrochou numa mulher superior. Sou muito contente por ela.
Estevam, meu tocaio, é tudo o que eu gostaria de ter sido. Isso diz tudo. Que vá em frente.
Enzo, o neto, a continuidade, o futuro.
Enfim, nesse epitáfio temporão (até parece nome de parente do Ministro da Saúde) de uma vida ainda em transcurso, levemente vivida, sem traumas e mágoas, porém consolidando conceitos e repelindo preconceitos na medida limitações humanas, é que encerro o capítulo dos primeiros 60 anos de minha vida.
E, confesso, gostei deles! Penso até em repetir a dose.

quarta-feira, julho 16, 2008

Tudo como Dantas na Terra de Abrantas

Prende, solta. Solta, prende. Afasta delegados porque investigaram? Que poderes ocultos encondem-se atrás dessa quadrilha?
Poderosos, certamente, a ponto de criarem uma pequena crise institucional. Reuniram-se o Presidente da República, o Presidente do Supremo, o Ministro da Justiça e o midiático da Defesa, ex-STF, para acomodar os egos e interesses.
Lula, bom sindicalista e negociador por profissão e vocação, acalmou os ânimos. Genro e Gilmar só faltaram trocar juras eternas e até a incompetência alegada com duplo sentido foi trocada por atribuição, na coletiva reconciliatória.
O que será que Lula soprou aos três pares de ouvidos? Que argumentos usou para enternecer tão vaidosos e maquiavélicos corações?
Teria mencionado que, se Dantas abrisse a boca, poderia levar FHC à barra dos tribunais? Gilmar Mendes, por aquele indicado e guindado ao STF, teria, com o grupo pustulento que nos (des)governou por 8 anos, alguma dívida de gratidão? Dantas afirmara já que nas instâncias superiores estava tudo dominado. Será? Bem, a Min Northfleet, ex-presidente, também já havia beneficado o grupo com sua interpretação da lei. Mas custo a acreditar que não seja somente mais uma bazófia do banqueiro e que os supermeritíssimos não tenham aplicado corretamente a hermenêutica apropriada.
O fato é que, entre mortos e feridos, afastados os delegados do caso e negados os dois habeas- corpus para os remanescentes presos, as águas pacificaram-se e nem se fala mais nas ligações e do tráfico de influência do lobista purgante Greenhalgh e do Chefe de Gabinete Gilberto.
Volta tudo ao que já foi. Tudo como dantes.
E a notícia comovida do dia passou a ser o retorno de Cacciola, extraditado de Mônaco. Até parece que não temos já em solo pátrio banqueiros ladrões em quantidade suficiente. Fosse para fazer justiça, com Totó Cacciola poderiam embarcar no mesmo vôo os senhores Gustavo Franco, Chico Lopes, Pedro Malan e o eterno gerúndio Fernando Cardoso.
Mas, para proteger essa turma, houve a reunião no Planalto. Tudo em benefício do establishment.
Diante de tantos interesses e forças adamastônicas, sou levado a crer que o mais fraco é, ao final, o menos culpado. Cacciola, provavelmente, não tem as armas, o poder de destruição de Dantas. Prenda-se-lhe, então.
Assim, a tecnologia nacional supera, mais uma vez, a do Velho Mundo.

sexta-feira, julho 04, 2008

Y-Juca Pirama

"Tu choraste em presença da morte,
Em presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte
Tu choraste, meu filho não és!"
Canto VIII Y-Juca Pirama, Antonio Gonçalves Dias

Todas as redes e noticiários fizeram questão de mostrar ontem as imagens do tenente Guidetti chorando compulsivamente em seu depoimento à Justiça, no contexto do inquérito sobre o episódio do Morro da Providência.
Não estou aqui nem para defender, nem para condenar o tenente. Considero-o também uma vítima.
Vítima da desestruturação social causada pela defesa ingente das pollyanas que só falam em combater a criminalidade, mas recusam-se a combater os criminosos.
Vítima por receber salário aviltante, que o força a conviver diariamente com traficantes e bandidos onde mora, numa cabeça-de-porco em um subúrbio, condição essa incompatível com sua posição de oficial do Exército brasileiro.
Vítima de uma má formação técnica e psicológica em uma Academia que deveria forjar fortes e não burocratas.
Vítima de uma ânsia inconseqüente de setores, inclusive na imprensa, em promover uma condenação final das Forças Armadas.
Vítima de chefes despreparados e, por vezes, até desleais.
Vítima. O que não reduz sua culpa.
Não tinha o direito de entregar seus prisioneiros a traficantes rivais. Não tinha o direito de manter relação cúmplice com bandidos. Não tinha o direito de pensar que a quadrilha rival daria somente um "susto" em seus inimigos de quadrilha.
Não tinha o direito de agir como o fez.
Mas, principalmente, não tinha o direito de chorar, de desmanchar-se em choro convulsivo. Assumisse sua conduta com dignidade. Não ridicularizasse a farda que estava vestindo.
Dentre todas as lições que não aprendeu na AMAN essa foi a mais crítica.
Não abandonar a honra frente ao combate, ao inimigo, à adversidade.

quinta-feira, julho 03, 2008

Lei Bêbada

Até que ponto tendências ditatoriais conseguem conviver num ambiente democrático? A partir de que ponto o estado de Direito resume-se ao direito da força?
Democracias são frágeis na definição de mecanismos que a protejam, porque sua proteção está diretamente associada à dos indivíduos, de quem é intrinsicamente subordinada.
E quando os indivíduos valem-se desses mecanismos para sufocar as liberdades, porém amparados nos próprios mecanismos democráticos que lhes asseguram o direito de fazê-lo? Como reagir? Assegurando a liberdade de nos asfixiar?
Esse é o grande conflito inerente às sociedades politicamente democráticas mas culturalmente desrespeitosas aos direitos das pessoas.
A competência jurídica, por acaso, também assegura a competência do ato? O fato do Congresso aprovar uma lei, do Presidente sancioná-la, tudo nos conformes e nos artigos e parágrafos, obrigatoriamente torna-a uma lei universal, oportuna, necessária e adequada?
A Lei Bêbada, recentemente aprovada, mostra claramente que não.
É uma lei intimidatória, não regulatória. Escarra em alguns direitos fundamentais, como o contraditório, a presunção de inocência, a responsabilidade pelo ônus da prova.
É uma lei ditatorial, pelos poderes excepcionais concedidos aos agentes públicos. É uma lei infeliz, em razão de contrariar hábitos saudáveis do lazer e descontração.
É uma lei mentirosa por utilizar-se de meias-verdades e argumentos falaciosos. Não é uma norma de regulação de conflitos ou interesses. É uma lei maliciosa, que honra qualquer governo autocrático.
Seu exagero nos leva a sermos superados na inflexibilidade somente por uns poucos países desenvolvidos - Albânia, Argélia, Ajerbaijão, Colômbia, Etiópia, Rep. Tcheca, Hungria e Nepal, segundo ranquing publicado pela Isto É.
Fantástico, Sr Genro. Superou seus mestres da juventude. Stalin teria orgulho de seu pupilo.
E note-se que não é necessário beber álcool algum para ver-se, o desairado cidadão, encurralado pelas garras da justiça. Basta simplesmente uma declaração do guarda, basta que não lhe agrade nossos olhos, ou que não lhe paguemos uma gratificação extra, dependendo do caso.
Ou basta um bochecho com antisséptico, um bombom com licor, uma taça de vinho, um copo de garapa ou, sei lá, uma colher de própolis. As hipóteses são muitas e invadem até o metabolismo de alguns diabéticos.
Basta que qualquer coisa dessas seja praticada imediatamente antes de soprar o bafômetro. Ou que, somente, o guarda não vá com sua cara. Sem apelação nem contraprova. Sem choro nem vela.
Por essa razão, vamos convir. Abandonem de vez o álcool. Em todas suas formas e versões. Se quiserem, usem cocaína, maconha, ecstasy, heroína, ópio, LSD, morfina ou qualquer outra droga do gênero.
E soprem o bafômetro com toda segurança.