FregaBlog

terça-feira, outubro 28, 2008

Fabricando o Caos

Não é que não reconheça a presente turbulência no ambiente geral dos negócios, com possibilidade de respingos inflacionários e de soluços no crédito.
Reconheço, também, que poucos empobreceram muito e muitos, um pouco. Porém, que eu saiba nenhum deles destruiu bens, jogou-os fora, ateou-lhes fogo. Nenhum deles demoliu bens de produção, salgou terra para que não produzisse, jogou pedra na cruz.
O que perderam, na realidade, nunca existiu. Perderam uma riqueza virtual, de sonho, que não existia de fato.
Nesse mercado especulativo, imitando Lavoisier, Avogadro ou mesmo Gay-Lussac, se alguém perdeu, outro ganhou. Acontece que quem ganhou, ganhou antes e quem perdeu, à época, achava que estava ganhando também. Coisas de jogador. Contava com o ovo no fiofó da galinha. Mas a galimha era galo.
Porém, o que me impressiona é o esforço da imprensa tupiniquim e tupinambá em convencer a população de que há uma crise real.
Para nós, que não sabemos viver sem uma tragédia diária, sem uma comoção semanal ou sem um escândalo mensal, uma crise, ainda mais global, é o frenesi, o supra-sumo, o gozo eterno.
Desde quando a gente vai admitir que o mundo tenha uma crise e a gente fique de fora? Nunca!
Hoje, no Bom Dia Brasil, da Globo, contei 13 vezes em que a palavra "crise" foi pronunciada com entonações compungidas, esgares de bocas, caras preocupadas, pupilas aterrorizadas. Isto nos 40 minutos líquidos de programa, o que dá uma citação a cada 3 minutos. Haja bombardeio.
Fico a imaginar o coitado que escutou isso ao sair pra trabalhar. Caminhou, pelas paradas de ônibus ou peregrinou por estações de trem como quem vai ao cadafalso. Bateu seu ponto, esperando o bilhete azul a qualquer momento. Passou o dia aguardando que a crise lhe fechasse o escritório ou a fábrica ou o botequim, num tsunami epidêmico de horror imobilizante.
E, com tanta expectativa, reconheçamos, ao receber seu salário como antes, ao vender sua mercadoria, ao verificar que não faltou o arroz e feijão, nem a gasolina ou o remédio,
apesar dos arautos do caos, haverá uma frustração.
Uma ânsia pela besta-fera, nostalgia pela catástrofe que não veio.

quarta-feira, outubro 22, 2008

Orgasmo da Tragédia

Sociedades, assim como os indivíduos, são organismos vivos que nascem, amadurecem, adquirem comportamentos, adoecem e morrem. Nossa sociedade brasileira está doente e o principal sintoma é a espetacularização da tragédia.
Não se pode atribuir esse fato à mídia, apesar de sua contribuição na difusão desse comportamento, que só existe em razão da tragédia dar audiência, aumentar seu valor publicitário.
É uma doença de nossa estrutura social mesmo, da aceitação passiva de contrastes gritantes, da concentração da miséria em guetos e favelas, da consciência coletiva de que, de tempos em tempos, elegemos alguns cafajestes para nos representar e governar nossas vidas.E ficamos contentes com isso.
O país do trabalho e da decência virou o país da esperteza. Da esperteza, o da tragédia. Novos valores passaram a ser cultuados.
Em pequenas coisas percebe-se essa mudança de comportamento. Não há acidente de trânsito que não gere engarrafamento. Se de pequena monta, somente pela arrogância policial em bloquear pistas desnecessariamente. Se de grande monta, pelos próprios motoristas ansiosos de ver intestinos ou massas encefálicas esparramados pelo asfalto. Quanto mais trágico, maior o espetáculo, maior o orgasmo coletivo.
Não é por pena que param. Não se trata sequer ato de solidariedade. Porém, pela visão dantesca de membros espatifados, corpos esmagados, sangue coagulado.
O bandido, o assassino, o transgressor é o elemento essencial de nossa sociedade. Sem ele, o pão e circo não se completaria, para infelicidade geral da nação.
Talvez a origem esteja lá atrás, há dois mil anos, quando Paulo nos transmitiu mais valor ao suplício do Messias do que a sua própria mensagem de amor. Imagens ensangüentadas dele na cruz nos são muito mais presentes do que a prática de suas lições de solidariedade, de inclusão. Quanto mais ensangëntadas e sofridas, melhor.
Talvez, entretanto, a origem não seja essa. É possível que a transformação sádica tenha se motivado a partir de um desejo inconsciente de vingança. Ou não sádico, mas masoquista, em sentir que está sob permanente ameaça, tal como presas aleatoriamente escolhidas por predadores de tocaia. Pode ser até que a sobrevivência pessoal seja intimamente interpretada como uma vitória pessoal contra o destino, única vitória que lhe tem sido possível obter face às injustiças de um Estado tutor. É possível. A morte não sofre a tutela dos legisladores, nem de juízes, nem de delegados. A morte é a suprema libertação dos escravos e não depende da vontade de seus senhores.
O velório da protagonista da última tragédia orgástica nacional, a Eloá, foi simbólico. A imprensa, a extrair suas últimas gotas de audiência sobre o cadáver, na tentativa de prolongar a comoção. Destaque para a mãe da menina, a declarar que perdoa o assassino. Não fosse o Código Penal, talvez lhe convidasse pra um churrasquinho no próximo fim-de-semana, pois perdoado está, segundo ela. Bem na linha de algumas editorias que tentam responsabilizar a polícia pela morte da menina, na linha do endeusamento do homicida.
Grupos de populares com cartazes e camisetas, a clamar por justiça. Mas qual justiça? Que ato a ressucitaria, a traria de volta, passaria a borracha no tempo e nos fatos? Dar-se-ão por satisfeitos em acompanhar as idas e vindas do inquérito, as chicanas protelatórias, o noticiário que prolongue seu orgasmo. Serão atendidos, dado que, mesmo se condenado nominalmente por todos os crimes imputáveis, o assassino não cumprirá mais do que 6 anos - vá lá, 8 - e retornará limpo, lépido e faceiro ao seio da sociedade clamante por um herói. A menina Eloá já terá seus ossos misturados à terra que a acolheu e o bandido estará recebendo tapinhas nas costas cumprimentando pelo seu retorno após pequenas e imerecidas férias patrocinadas por nós mesmos.
Pena de morte pra ele? Nunca! Como a sociedade poderá viver sem bandidos a ela integrados?
Como ser iconoclasta e eliminar seus heróis?
Nessa mesma linha, continuamos a aceitar e conviver com quem compra drogas e financia os traficantes - isso nem crime é - continuamos a exigir mais presídios para abrigar nossos ídolos ao invés de casas para os trabalhadores, continuamos a aceitar o jugo do Estado tutor a regular nossas vidas em seus ínfimos detalhes, versão moderna da escravatura, pois os bandidos nos resgatam a bandeira da liberdade, fazem o que querem e, a eles, o Estado não tutela. Nenhum agentezinho de um Detran da vida entra numa favela pra ver se o avião está usando capacete. Ninguém é detido, num desses guetos, por portar um AR15. É mais fácil oprimir a bovina população nas ruas, que chega ao extremo de aprovar e aplaudir ser opressa.
Manter os bandidos vivos e atuantes, afinal, é desejo da própria população.
Assim fica-lhe assegurado romaria a velórios, com direito a fotos do defunto no caixão.
Assim fica-lhe assegurada a lembrança do último orgasmo, enquanto aguarda o próximo.

sábado, outubro 18, 2008

Quem Matou Eloá?

Confesso, fui eu! Acuso, foste tu! Fomos todos nós.
A jovem Eloá já morreu. Que a natureza isso reconheça, evitando que se mantenha uma morta-viva, um zumbi.
Matamo-la todos nós, matou-a nossa hipocrisia.
Matou-a o Estatuto da Criança e do Adolescente, que nós aplaudimos.
Matou-a nossa Constituição, com seus dispositivos irrelistas de proteção à pessoas que não devem ser protegidas, sem o que desprotege-se a própria sociedade.
Matou-a esse exército de psicólogos pollyanas, sempre a postos para arrumar justificativas comportamentais para atos criminosos.
Matou-a o clamor popular a intimidar a polícia a utilizar um franco atirador que explodisse o cérebro doentio do seqüestrador.
Matou-a a própria covardia policial demonstrada pelo uso de munição não letal na invasão do apartamento.
Matou-a o Ministério Público, matou-a a OAB, pelo corporativismo. O grupo de advogados que vive do crime tanto quanto os criminosos.
Matou-a editorias e apresentadores de televisão, à busca de minutos de audiência, promovendo entrevistas telefônicas enchendo a bola do bandido.
Matou-a a leniência com os criminosos; nossa incapacidade de discutir seriamente a pena de morte.
Matou-a o politicamente correto. O chamar cadeia de centro de internação e recuperação; o presidiário de recuperando; a progressão de penas. Matou-a os políticos que insistem em falar de combate à criminalidade ao invés de combate ao ciminoso.
Matou-a nossa sociedade doente.
Deus queira que nossos filhos possam sobreviver a tudo isso. Que tenham mais sorte que a Eloá.

quinta-feira, outubro 16, 2008

Horário da Mentira

Quem sou eu pra duvidar? Autoridade é autoridade e, mesmo que incompetente, não deixa de sê-la, amparado pela Constituição, CódigoPenal e por nossa mentalidade colonial.
Quem, assim, poderá duvidar do horário de verão. Um ou outro inconveniente como eu, céptico, a questionar evidências e meter o bedelho em tudo. De resto, nosso povo ordeiro e cordato, submisso às últimas, está sempre disposto a apoiar o politicamente correto na visão da mídia e de alguns funcionários públicos, mesmo que lhe doa o lombo.
De fato, não é porque nunca senti nem tive notícia de alguma redução na conta de luz que deve ser mentira a tão propalada economia. Culpa minha, certamente, por não colaborar com esses cálculos e estatísticas.
Porém, alguma coisa está realmente mudando em nossos hábitos. Foi-se o tempo em que Deus ajudava quem cedo madrugasse. O Brasil está acordando cada vez mais tarde. Não são já poucos os funcionários públicos que iniciam o expediente matutino às 3 da tarde, saindo as 5 para o almoço. Como ninguém é de ferro, depois da sesta começa o Jornal Nacional. Assim, a necessidade de manter-se informado supre sua presença no turno vespertino, que começaria, certamente, às 20 horas. Pontualmente.
Padaria já abre às 7. Lojas, às 9 ou 10, dependendo do ponto e do ramo.
Para esses carimbadores malucos, expedidores de alvarás e licenças, pouca diferença faz. Vivem sob luz artificial mesmo, ar-condicionado e descompromisso.
Diferentemente do Brasil que se rege pela natureza, pelos ciclos solares e lunares. Estes são os únicos a economizar energia no verão. Não pela mudança burocrática e inconsistente que pariram. Mas porque o dia é mais longo mesmo e o único lugar cujas luzes ficam acesas independentemente da luminosidade do dia são os gabinetes das mesmas autoridades que inventam essa aberração.
E, como sempre, justificam em estatísticas falsas. E como sempre, o povo acredita.

sábado, outubro 11, 2008

Bush's Earthquake

Que o mundo não será mais o mesmo, que o ciclo da "pax americanae" foi pro brejo, dá pra perceber. A tão falada crise mundial é o aspecto mais visível disso.
Mas afinal, que crise é essa? Volta e meia escuto comentários no sentido de que "os americanos que se explodam", ou mesmo "bem-feito pros especuladores".
Esquecem-se que os efeitos dos terremotos não se limitam a seu centro.
Bem, pra entender a crise, sem ter a pretensão de eu mesmo entendê-la. A essência do capitalismo está nos processos de compra e venda e de que, nesse processo, quem vende acha que está recebendo mais do que o objeto vale e quem compra pensa que está pagando menos do seu efetivo valor. No extremo, não deixa de ser um conto do vigário sucessivo. Teoricamente, caberia ao mercado o nivelamento e a contenção dos interesses em passar o outro pra trás. Porém, quem é o mercado, se não o conjunto desses golpistas?
Além disso, como determinar o real valor de um bem? Quanto vale um copo d'água? Depende!
Há alguns sentimentos envolvidos em toda a transação.
O primeiro deles é a necessidade frente à escassez. Ou seja, a famosa oferta e procura. Na beira de um rio, um copo d'água não tem valor comercial. No deserto, vale muito. E, pra quem esteja morrendo de sede, vale a vida. O bem continua o mesmo, mas seu valor mudou.
Outro fator é a temporalidade. O agora, o daqui a pouco, o lá na frente também determinam o valor do bem, tanto para o comprador como para o vendedor.
Se o comprador intui que, no futuro, aquele bem terá seu valor aumentado, o comprará agora mesmo que seja para recebê-lo no futuro. Ou seja, paga por um bem que não existe. Paga por uma expectativa de lucro. Assim, um recebe pelo que não tem, o outro paga pelo que não recebe.
Esses contratos adquirem um valor vitual e, por sua vez, são negociados com outros atores que também intuem o valor futuro. Por esse mecanismo, é entendimento de que a safra se soja brasileira troca de mãos pelo menos 40 vezes antes mesmo de ser plantada.
Esses contratos compõem-se nos ativos das organizações ou dos indivíduos e lastreiam outras operações de crédito, numa jogatina digna de Las Vegas.
Nessa mirabolante corrente da felicidade, a moeda, que deveria ser um padrão de troca entre os diversos bens disponíveis, um parâmetro de relativização de seus valores, passa a ter vida própria. Vida virtual, no entanto.
No pós-guerra, em Bretton Woods, combinou-se que a moeda de troca internacional seria o dólar americano e que este seria lastreado em ouro, conversível portanto. Pouco mais de uma década passada, os Estados Unidos decidiram que a conversibilidade não seria mais praticada, pela evidência de que havia mais moeda do que lastro. Moeda virtual, falsa. E todo mundo fingiu não ver que o rei estava nu. Pirâmides virtuais incrementaram bolsas de valores e mercado interbancário, em operações de derivativos e afins.
E a maquininha de imprimir dólares continuou a pleno vapor, financiando a irresponsabilidade fiscal americana e suas aventuras belicosas mundo a fora. Num mundo unipolar, porque não?
Acontece que um elo dessa cadeia se rompeu. A especulação com contratos de financiamento imobiliário, a trocar de mãos que nem china em fandango, criou um mico gigantesco. A garantia desses contratos era os imóveis irresponsavelmente financiados sem outro objetivo além de possuí-los em carteira e vendê-los a bancos, que lastreariam suas operações com esses ativos. Quando materializou-se a inadimplência, as garantias mostraram valer muito menos do que os créditos. Ou seja, o dinheiro dos depósitos e aplicações sumiu, escafedeu-se, evaporou-se na cadeia especulativa.
Acontece que os bancos, em especial nos Estados Unidos, são submetidos à regulamentação frágil. Berço do liberalismo, "no rules, best rules". E aí caiu a ficha. O rei estava nu.
As bolsas de valores despencaram, pois o valor virtual das ações não era compatível com o das empresas. E os bancos tentaram desesperadamente passar o mico adiante, promovendo uma super-oferta, até para recuperarem, em parte que fosse, o dinheirinho dos seus depositantes e aplicadores. Não deu, bem se vê.
No mercado interbancário, as operações de crédito que eram lastreadas em títulos podres encolheram. O governo americano, em operação bilionária, tenta assumir pra si o gigantesco mico. Os governos, cada um a seu modo, vão fazendo a mesma coisa, pra evitar um colapso amplo, geral e irrestrito. Essa hecatombe, caso ocorra, fará todos os bens virtuais, neles incluindo as reservas nacionais, virarem fumaça. Daí o esforço mundial para evitar a quebra.
O Brasil, destino de capital especulativo de detentores de dinheiro virtual nascido de títulos apodrecidos e micados, é vulnerável, sim. Menos do que antes, sem dúvida. Tem dólares pra injetar no mercado, devolvendo os micos que recebeu. Está fazendo isso com leilões de dólar a vista, como precaução a uma escalada inflacionária. Fosse ao tempo do professor Cardoso Esqueçam-o-que-Escrevi, talvez o processo fosse outro. Mas é impensável que passemos por um terremoto sem que haja danos e prédios destruídos.
Essa crise poderá até se mostrar vantajosa para o Brasil, na medida em que muito poucos ajustes no mercado interbancário serão necessários, Uma ou outra compra de carteiras de bancos menores pelos maiores, financiados pelo Banco Central e coisas do gênero. Não há previsibilidade de crise bancária nacional. Até em razão do maior banco ser estatal, apesar dos esforços frustrados do Sr Cardoso.
O Brasil é menos especulativo e mais produtivo. Asseguradas as linhas de crédito à produção e comercialização - ao que parece o governo continua apostando nisso - nosso lastro estará sólido.
E, no aforisma machadiano, ao vencedor, as batatas.
Basta que mantenhamos a capacidade de produzí-las.