FregaBlog

sexta-feira, abril 30, 2010

Maturidade

O STF ontem deu uma demonstração inequívoca de maturidade e compromisso com o tecido social. Não foi unânime e isso mostra ainda mais a seriedade da decisão.
Há segmentos saudosistas e revanchistas, de lado a lado. Outros há cuja opinião é formada por informações recebidas, nem sempre desapaixonadas ou mesmo imparciais. Alguns inspiram-se em realidades de outros países, sempre dispostos a importar modelos e conceitos, na clara manifestação do complexo de vira-latas tão bem definido por Nelson Rodrigues.
Prevaleceu o bom senso e pavimentou-se a estrada da pacificação com a história, via que foi aberta no contexto do amplo acordo. Por incrível que pareça, a proposta que prevaleceu, formulada pelo próprio governo de exceção, promoveu uma ampliação da proposta da oposição, que excluia os exilados.
A maturidade da época, também não unânime mas majoritária, teve seu respaldo nos fundamentos dos votos dos Ministros. Os que na época discordaram nas discussões no Congresso Nacional, pelas mesmas razões ou não, também foram acolhidos nos dois votos vencidos, dos Ministros Brito e Lewandowski.
Particularmente, tinha a convicção que o STF, com todo peso institucional e seu compromisso com o país, haveria de decidir dessa forma. Era absolutamente necessário reconhecer uma espécie de prescrição aos crimes cometidos pelas partes em confronto, aguardando que o tempo, pela morte dos autores, promovesse sua decadência.
O STF optou pela paz.

quinta-feira, abril 29, 2010

Estelionatos

Governos sempre são pródigos em cumprimentar com o chapéu alheio. Não é este, não foi aquele: são todos. O estelionato é o mais curto caminho para a prática da demagogia, o que qualifica os governos, em geral, como o maior 171 dentre a constelação de pilantras que nos rodeiam. Mas isso nem vem ao caso.
O governo FHC promoveu uma concentração de renda pela transferência de poupança do público para o privado. Assim, vendeu - ou somente deu - patrimônios nacionais, congelou rendas como o salário mínimo, reajustes de servidores etc, em contraposição à prodigalidade nos aumentos tarifários das empresas privatizadas.
O governo Lula, via oposta, promoveu a transferência do privado para o público, via carga tributária. Assim, os reajustes para os servidores foi generoso e do salário mínimo superou a inflação e o ganho de produtividade nacionais. Os investimentos públicos foram retomados, evidentemente sem privatizações ou cobranças de pedágios.
Dentre os dois, confesso, prefiro este. Mas discordo das dosagens.
O salário mínimo, por exemplo, evidentemente iria pressionar as contas públicas que, sem poupança interna, oxigenaria a memória inflacionária. Como de fato aconteceu.
O Banco Central, em sua convicção ortodoxa, aplica o remédio universal: aumento das taxas de juros. Resolve? É provável, mas o difícil são os efeitos colaterais e o risco do paciente morrer não da doença, mas do remédio.
Vejam o círculo vicioso. Aumentam os custos, aumentam os preços. A economia cresce virtualmente, sem respaldo de estrutura. Aumentam mais os preços. Os juros aumentam, a economia reduz o crescimento, reduz a demanda e há excesso de oferta, caem as vendas. Vendas menores com custos maiores, reduzem-se o lucro, a formação de poupança, os investimentos futuros. Com base tributária menor e com gastos engessados, resta-lhe recorrer ao mercado para financiar-se. Mais pressão sobre juros.
Agora vem a pressão do reajuste dos proventos de aposentados da previdência, afetando somente os da iniciativa privada, dado que os da pública são reajustados integralmente. Oferece o governo 6 e qualquer coisa porcento. É mais do que a inflação e menos do que o aplicado ao salário mínimo. Quer a oposição 7,7%, embora nos 8 anos que tenha governado, sequer a inflação tenha sido concedida. O governo tenta um acordo para 7%.
A oposição, claro, insistirá nos 7,7% - mesmo índice do salário mínimo. Não que lhe interesse realmente a sorte dos aposentados, mas simplesmente colar em Lula o desgaste de vetá-lo em ano eleitoral.
Lula poderia muito bem não vetar os 7,7%, caso aprovem, mas retirar as dotações necessárias de emendas parlamentares dos que votaram a favor. Talvez fosse uma resposta justa.
O certo, entretanto, é que nem o estelionato praticado pelo governo peessedebista nem pelo petista, mesmo que naturezas diferentes, são práticas adequadas à gestão pública.

domingo, abril 04, 2010

Celibato e Pedofilia

Já não restam dúvidas que as ocorrências de pedofilia praticadas por padres católicos superam em número as noticiadas no seio de qualquer outro grupo religioso.
Mas quero discordar da corrente dominante. Não atribuo isso diretamente à prática do celibato.
Digo diretamente porque não acredito na incapacidade de controle da libido e do desejo sexual. Os tais padres pedófilos seriam pedófilos, mesmo que casados, amancebados. Tivessem um harém à disposição, ainda assim pedófilos seriam.
Sua perversão é mental, emocional e psicótica. Não se pode atribuí-la ao celibato.
Sendo assim, permanece a dúvida do por quê da concentração deles justo em uma organização cujo inspirador prega o respeito e o amor.
Aí, secundariamente, entra sim o celibato.
Grande parte dos jovens que buscam a vida religiosa clerical católica está disposta a abrir mão de uma vida sexual ativa, acreditando poder sublimar essa energia em dedicação ao próximo. Porém, não se pode desconhecer que, ainda adolescentes ou recém-saídos dessa fase, são povoados pela insegurança característica dessa idade, em parte provocada pela própria explosão hormonal.
O que não sabem é que estarão incorporando-se a uma organização que não prima pelo respeito e verdade.
Naquela fase conturbada ocorre a maior cooptação das chamadas vocações sacerdotais. As jovens cabeças são intoxicadas por preconceitos, medos e lendas. O fervor fanatizante é inculcado em seus cérebros e os acompanham por toda a vida.
A grande maioria sequer chega a ter lucidez, com o amadurecimento, de questionar os reais propósitos dos sacrifícios que lhes foram impostos. Alguns flagelam-se, tomam banhos gelados e seguram a onda. Outros apaixonam-se, abandonam o sacerdócio e constituem família, sempre carregando a nuvem negra da culpa, da qual nunca se livram, cultivada e permanentemente recordada pela organização que abandonaram.
No entanto, há uma minoria que busca, no recolhimento da vida, a esperança de dominar sentimentos ruins e perversões, que reconhecem mas não aceitam possuir. Fugindo de uma possibilidade de vida sexual, recalcam sua homossexualidade, suas fantasias pedófilas e outros impulsos, os quais não se reconhecem capazes de dominar nem dispostos a tratar clinicamente.
Esses são, creio, os padres pedófilos praticantes, sem abandonar aqueles que, embora pedófilos, pela prática religiosa conseguem conter seus impulsos, e que seguramente se encontram em qualquer grupo social.
A insatisfacão sexual é reconhecida como fonte de neuroses. Desde Freud, que a ela atribuía a maior parte dos desvios de comportamento humano.
Sendo verdade ou não, o fato é que o instituto do celibato, adotado com fundamento em algumas frases de Paulo de Tarso e mascarado com os fundamentos econômicos de centralização de riquezas e poder à igreja, é cínico e bem caracteriza a hipocrisia dos que dizem falar, no Vaticano, em nome do Cristo.
Felizmente, o fim do medo está acabando com isso, e forçará a igreja católica a uma profunda revisão de seus conceitos e preconceitos.
Se quiser sobreviver por mais tempo como guia espiritual de milhões.

quinta-feira, abril 01, 2010

Sr Serra, dispenso!

Em recente viagem a S.Paulo, fiz umas contas.
No trecho da Anhangüera, desde a divisa com Minas até Cajamar, complementado pela Bandeirantes, desde Cajamar até São Paulo, em jornada da ordem de 500 km, há dez postos de pedágio, com preço médio de R$ 5,80 em cada um. Isto para veículos de passeio particulares (placa cinza), pois se for de categoria comercial, o preço médio alcança R$ 11,60. Em se tratando de veículos de carga, o pedágio por posto é de R$ 5,80 por eixo de carga. Uma carreta, normalmente com 4 eixos, paga R$ 23,80 em média por posto. Nos casos mais extremos, como um bitrem, com 10 eixos, a tarifa unitária alcança R$ 58,00, ou seja, R$ 580,00 para trafegar nos 500 km, mais de R$ 1,00/km.
Vou fazer uma estimativa. Estou supondo que, por dia, sejam cobrados 9 milhões de pedágios. Parece muito, mas pensem comigo. Imaginemos que 500 mil veículos transitem em cada via, por dia. E que, desses, 60% sejam veículos de passeio e ou outros 40% tenham, em média, tarifação com base em 3 eixos e que, na média, seja percorrida somente a metade da rodovia por esses veículos, ou seja, passem por somente 5 postos. Façam as contas e chegamos nos 9 milhões de cobranças básicas. Nove milhões, a R$ 5,80 cada, temos um faturamento diário bruto de R$ 52.200.000,00, o que nos leva à surpreendente quantia de R$ 19.053.000.000,00 por ano. Ou seja, mais de dezenove bilhões de Reais por ano. Essa é a transferência de poupança promovida pelo PSDB, a título de incompetência do Estado em gerir sua infraestrutura. Estado "incompetente", aliás dirigido por eles "com competência" há 16 anos (com toda essa grana, até dá pra entender porquê).
Sei que há uma tendência, muito bem comprada pela imprensa, de enaltecer a qualidade da rodovia, atribuindo-a exatamente à gestão privada. Essa opinião é freqüentemente repercutida por camadas, em especial as que não conheceram o complexo rodoviário antes da privatização e os que somente viajam de avião. Afirmo - acreditem se quiserem - que quando era operado pelo DER/SP antes do PSDB, tinha qualidade de pista equivalente e hoje, com gestão privada, não é significativamente melhor que o trecho Catalão/Brasília, seqüência da Anhangüera, recuperado pelo DNIT e sem cobrança de pedágio.
Em contrapartida, o Sr Serra deu ao tráfego o trecho sul do rodoanel. Em seu discurso, ressaltou o investimento de R$ 5 bilhões, o que deve incluir as indenizações por desapropriações, além de naturalmente se tratar de rodovia bastante cara, pela quantidade de obras de arte rodoviária necessárias, desde a transposição de 2 represas até a infinidade de viadutos. E o trecho não chega a 70 km.
Ou seja, guardadas as proporções e diferenças, e mesmo que se não as guardasse, fosse o pedágio recolhido pelo estado, a cada 2 anos poderiam construir outro complexo Anhanguera/Bandeirantes. Ou melhor, num mandato de 4 anos, quantas ferrovias poderiam ser colocadas em operação, reduzindo absolutamente a demanda sobre as rodovias?
Mas isso não interessa ao PSDB, nunca o interessou e nunca o interessará.
Esses apologistas do Estado mínimo e das privatizações chegam a se orgulhar dessa insanidade. Nem sei mais se por interesse na transferência de poupança e sua concentração nas mãos de empreiteiros - a fonte é mais fácil - ou se por visão míope mesmo, convencidos por seus patrões internacionais.
Diz o Sr Serra ainda em seu discurso de renúncia ao governo de SP: "O Brasil pode mais." Desculpe, Sr Serra, mais disso, eu dispenso.