FregaBlog

sexta-feira, maio 28, 2010

Juiz ou Patrão?

Passado já um tempo do acordo costurado por Lula com o Irã e a Turquia, os comentários e avaliações são os mais diversos, grande parte coloridos pela ideologia ou interesse do autor. E são bastantes divergentes entre si.
Com os fatos novos que vêm à tona, é possível se desenhar um cenário que, gradualmente, se aproxima da realidade.
Os Estados Unidos não querem, e nem podem, enfrentar um terceiro conflito simultâneo. Custa-lhe segurar Israel para que não o inicie, conflito que, por sua extensão e reflexos, arrastaria os Estados Unidos inapelavelmente para o novo front. Israel, por outro lado, sabe que tem Obama como refém; basta-lhe intensificar os assentamentos em Gaza e apertar um pouco mais o garrote vil com o qual suplicia o povo palestino, para explodir o conflito indesejado e cujo maior derrotado, independente da vitória armada, serão os próprios Estados Unidos.
A Alemanha, país escolhido originalmente para efetuar o enriquecimento do urânio do Irã, perdeu sua boquinha para a Turquia. Não gostou, claro. De quebra, a participação turca meio que cinde a CE, já combalida pela gastança sem fundos.
A Inglaterra, rebaixada a animal doméstico desde Tatcher e Reagan, abana o rabo e faz o que seu dono quiser. A França aplaudiu, teve as orelhas de Sarkozy puxadas pela Alemanha, Estados Unidos e Inglaterra, engoliu os aplausos e voltou a aprovar as sanções. Rússia aceita algumas penalidades, desde que continue a construção da usina elétrica nuclear no Irã. A China também, desde que não atinja seu comércio.
Conforme noticiado, uns quinze dias antes da viagem de Lula, Obama lhe endereçou carta estimulando o acordo. Certo do fracasso da missão, isso seria mais um argumento para aplacar a consciência de alguns integrantes do CS da ONU contrários à política externa dos canhões e, de quebra, faria Lula engolir a audácia de uma política autônoma de um país que consideram periférico. Mas deu zebra.
Lula foi, negociou o acordo nos moldes anteriormente propostos e o time dos mandões ficou sem argumento. Toda uma estratégia montada a duras penas foi pro beleléu.
Lula, ao conseguir o acordo , assegurou a continuidade da política nuclear brasileira. Além de configurar a mudança geopolítica iniciada desde a derrota do Vietnan e muito bem marcada nos episódios de 11 de setembro. Novos interlocutores mundiais estão surgindo, fora do eixo Washington/Moscou. E isso representa uma perda do poder político do bloco americano e súditos.
A imprensa mundial repercute os fatos conforme o interesse de seus governos. Na Alemanha divulgaram até que o Brasil estaria construindo uma bomba atômica conjuntamente com o Irã e Venezuela.
A imprensa nacional também. A maior parte dos comentários é de que o Brasil meteu-se a besta, enfiou o nariz onde não foi chamado. Em alguns, vê-se emergir o "complexo de vira-lata", tão bem definido por Nelson Rodrigues, a cabeça baixa e servil do colonizado. Em outros, percebe-se cristalinamente o viés de seus patrões estrangeiros. Nesse grupo, infelizmente, enquadra-se o comentário de FHC: "Lula fez o gol; resta ver se o juiz vai validá-lo."
Adivinhem quem é o juiz mencionado?

ET: Hoje foi divulgada ameaça americana de retaliar o Brasil por suas posições, impedindo a Petrobrás de participar do mercado de petróleo americano. Será que querem repetir Volta Redonda?

quinta-feira, maio 13, 2010

O Pinóquio

Vejam que interessante a notícia:

"O Ministério Público Eleitoral (MPE) encaminhou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) parecer em que defende que o colegiado recuse o pedido do Partido dos Trabalhadores (PT) para retirar do ar o site "Gente que Mente". O endereço eletrônico integra um levantamento dos governistas contra acusações anônimas na web e está registrado no nome do Instituto Social Democrata (ISD), vinculado ao PSDB. Outro domínio, o www.petralhas.com.br, também está registrado pelos tucanos, conforme admitiu o próprio Eduardo Graeff, coordenador da campanha de José Serra (PSDB) na internet. Este site, no entanto, permanece inativo. (Site Terra, 13 de maio de 2010 • 17h48 • atualizado às 17h53)"

Concordo com o Ministério Público. A Constituição garante a liberdade de opinião e de expressão. Com certeza, se veicular calúnia, que é crime, há as instâncias institucionais para coibir e punir. Censura prévia, preventiva, liminar, não cabe num ambiente democrático, mesmo que isso possa causar incômodos e arranhões de imagem. É um dos preços.
Aliás, pela origem e patrocínio de tal site, já se presume sua contaminação ética. No entanto, não estou surpreso.
Ficaria, sim, se incluíssem o Sr Serra, como destaque e manchete. Como?
Bem, basta o que declarou hoje em Pernambuco, em sua campanha insidiosa de confundir e iludir o eleitorado.
Disse o Sr Serra, textualmente, que Lula merece a popularidade recorde que goza em seu estado natal e que, se eleito, dará continuidade a todos os programas de investimento. Até aí, faz parte do estilo mentiroso dos tucanos.
Disse mais, Serra em súbito ataque puxassaquista: Lula situa-se além do bem e do mal.
Em primeiro, ninguém situa-se nesse patamar canonizante, muito menos qualquer político. Lula entre eles.
Em segundo, Serra, procurando assumir a bandeira continuísta de Dilma, nem conquistará os votos desta, nem conseguirá manter os que nele pretendem votar.
Assim, torço para que o PSDB, num inusitado momento de honestidade, inclua o Sr Serra em seu próprio site. Com direito a filme documentando seu nariz crescer.
Seria bem-feito!

quarta-feira, maio 12, 2010

Euroinflação

A crise européia, claro, repercute no mundo. A tentativa de integração Alemanha/França, estendida como alternativa capitalista para o dólar, passados alguns anos, mostra que algumas medidas foram esquecidas.
A moeda, mais do que meio de troca, é meio de execução de planos de governo e de políticas públicas. Países podem até ter a mesma moeda, mas não mesmos planos de governo, que alteram-se a cada eleição nos processos de alternância democrática de governos.
E as políticas públicas refletem-se na moeda.
Para evitar a derrocada, mais visível na Grécia e ainda latente na Itália, Portugal e, principalmente Espanha, ensaia-se um fundo bilionário.
Acontece que quem gasta por muito tempo mais do que gera, passará por período de retração. Esse período estende-se até que a taxa média de crescimento seja compatível com a taxa média de geração de renda. Não há saída.
Também não há saída indolor para a zona do euro. Não é possível desvalorizar o euro somente na Grécia ou na Espanha. Por outro lado, não é viável proceder redução da renda nominalmente, na renda incluídos os salários.
Resta-lhes a redução virtual.
A Europa será forçada a desvalorizar o euro utilizando a inflação como arma e os salários e ações sociais - sempre os primeiros atingidos - mantidos com arrocho.
Isso não valerá para todos, mas será utilizado pelos países cujos déficits públicos estejam profundamente desequilibrados. De quebra, um ou outro tirará sua casquinha.
A inflação é o processo mais comum de transferência de poupanças, menos eficaz somente do que os pedágios dos governos peessedebistas e pefelistas. A dificuldade de superar os dois, no entanto, é imensa.
Pode-se aguardar a emissão de moeda pelo Banco Central Europeu para a compra desses títulos podres, talvez com alguma negociação com os bancos credores a título de deságio.
De qualquer forma, será um período turbulento. Micarão na sociedade, como sempre.
Tudo isso porque esqueceram de deixar uma porta de saída aberta. Mil exigências na hora de participar da comunidade européia, nenhuma porta para excluir algum membro. Vão pagar o preço.
É bom vermos esse exemplo para acautelarmo-nos com a amplitude da integração no Mercosul.

terça-feira, maio 11, 2010

Diferenças no DNA

O Sr Serra dá os passos iniciais de sua campanha em movimentos de morde-assopra. Não quer colar em FHC, de conceito maldito, nem descolar de Lula e de seus 80% de aprovação. Nesse gelo fino, ensaia passos rodopiantes, ora pra cá, ora pra lá.
Tem obtido sucesso, apontado pelas pesquisas que lhe estão colocando em primeiro lugar. Confunde o eleitorado, que não percebe as diferenças no DNA entre as plataformas de situação e de oposição.
Mas ontem escorregou. Saiu do armário e mostrou sua verdadeira face. E ela não é bonita.
Suas críticas a Belo Monte, à taxa de juros, ao Mercosul e à banda larga estatal mostram efetivamente que as ordens neoliberais emitidas pelo "mercado" e tão bem obedecidas pelo submisso FHC terão continuidade em um possível governo seu.
Aí está a diferença de origem, de concepção.
No governo Lula, o Estado assumiu seu papel de indutor. Indutor do desenvolvimento, indutor do aumento de renda com distribuição. Assumiu seu papel kantiano, na reafirmação de que o ser humano tem seu valor intrínseco pela sua natureza, não pela sua capacidade de consumir.
Dilma pode não ser o sonho de muita gente (sequer os eróticos). Mas representa a continuidade de uma proposta concreta. Serra, por sua vez, representa proposta diversa, a descontinuidade.
Cabe a nós fazer a escolha, não pela pessoa, mas pela proposta. Afinal, ninguém governa sozinho.
Há correntes que rejeitam Dilma por seu pretenso passado terrorista. Nem vou entrar no mérito, mas deixo a pergunta no ar: o que queriam os terroristas?
O alinhamento automático às diretrizes emanadas, à época, por Moscou? A subordinação de nossa Pátria aos interesses externos? Vamos imaginar que sim.
Esses outrora terroristas, quando assumiram o governo, executaram esse plano? Bem, o que vimos não foi isso.
E o governo do PSDB, que se coloca na oposição, como agiu?
Bem, subordinou o Brasil às determinações emanadas do estrangeiro consubstanciadas no que se costuma chamar de neoliberalismo, praticou os estelionatos eleitorais ao sabor das circunstâncias, deu de presente a seus patrões o subsolo brasileiro, suas redes de comunicação e de energia, as rodovias etc. Virou as costas para outros países fora da constelação de seus verdadeiros patrões. Ou seja, posicionou o Brasil de joelhos, tudo conforme os propósitos do Sr Serra ao sair do armário.
E aí, analisando, quem foram os verdadeiros terroristas?