FregaBlog

terça-feira, novembro 30, 2010

Alienação

Já está em vigor a resolução da Anvisa determinando a retenção de receitas médicas na venda de antibióticos nas farmácias. Entendem-se os motivos, pois que a subdosagem pode gerar bactérias resistentes.
Na prática, porém, a população corre o risco de não dispor das ferramentas para combater a afecção por bactérias em geral, resistentes ou não. A mesma resolução é omissa quanto à obrigação da prestação de serviços médicos. A população, se quiser, recorra ao bispo, à benzedeira, à mezinha, ao chá de qualquer coisa, à sorte ou ao Inri Cristo.
Vem a imprensa divulgar declarações de médicos e especialistas sobre os riscos da automedicação. Mas não lhes é perguntado qual o risco maior: automedicação ou medicação nenhuma.
Essa turma alienada, seja por motivação corporativista, seja por tecnicismo cínico, tem a mania de estabelecer parâmetros comparativos com outros países. Ah, mas na Alemanha....... sim, mas na Inglaterra etc.
Sei lá se os alemães ou os ingleses têm assistência médica ou não. Pouco me importa. Mas aqui, a grande maioria na nossa população não tem acesso a serviços médicos. O mais próximo que dispõem é o farmacêutico do bairro, figura benemérita que orientava os tratamentos. Agora proibido de auxiliar a população, mero balconista de luxo em que o transformaram.
Daqui pra frente, ou compra no mercado negro ou báu-báu.
Vai morrer de septicemia porque não curou a inflamação na garganta.
E viva a Anvisa!

domingo, novembro 28, 2010

Planejamento Oculto

A preservação da rota de fuga para os traficantes na Vila Cruzeiro talvez não tenha sido falha de planejamento como supus. É possível que tenha sido intencional.
A desculpa oficial é que faltava efetivo, tinham gente insuficiente. É fraca a desculpa.
Basta olhar a imagem de satélite disponível no Google para se verificar ser aquela a única rota de fuga possível, considerada a circunstância do terreno estar cercado e ocupado. Para guarnecê-la, me arrisco a dizer que dois pelotões bem posicionados seriam suficientes para render o bando em fuga com um mínimo de baixas, se é que haveriam. Não dispunham de 20 homens para isso? Poderiam ter antecipado a solicitação de apoio à forças federais? Poderiam retardar a operação em um dia?
Concluo que não fizeram nada disso porque não quiseram. Ou queriam que os capitães do tráfico se unissem às tropas bandidas no Alemão.
A imagem transmitida pela TV dá idéia da fuga de mais de 100 bandidos, talvez cerca de 200. Prenderam hoje no Alemão uns 30 pés-de-chinelo e um ou outro gerente. Onde estão os outros e os que já lá estavam? Para dar significado, prenderam a mulher de um ou outro e reportaram o palácio de um capo, digno da zona sul, do Leblon, segundo afirmou uma repórter sem noção e sem matéria para cobrir a pauta.
Factóides começaram a ser aventados. Fugiram pelo esgoto. Fosse verdade, pelo menos uma boa notícia: o complexo tem saneamento, o que eu, particularmente, duvido. Estão escondidos em casas. Tudo bem, em qual das 30 mil, contando de mansões a malocas?
O fato é que fugiram, escafederam-se. Foi-lhes permitido isso, talvez até negociado.
As tropas envolvidas da PM talvez sejam as melhores do mundo em combate urbano, porém os resultados foram pífios.
Acho que esse era o objetivo oculto.
Dobro-me e me redimo. A operação foi bem planejada.

sábado, novembro 27, 2010

Dunquerque Carioca

A imprensa está vendendo a imagem de grande vitória no Rio de Janeiro. Eu estou cético. Para mim fica muito clara a diferença entre um comandante militar e um policial. Um planejaria a aniquilação do inimigo, o outro sua prisão.
Não conheço na história militar uma vitória que se limite a expulsar o inimigo. Pelo contrário, sua retirada tem que ser explorada como consolidação da vitória. E quanto mais desorganizada, quando a retirada se transforma em fuga desordenada, mais essa circunstância tem que ser explorada para alcançar a derrota completa do inimigo.
Sempre que se permite ao inimigo reagrupar, nova batalha será enfrentada.
A batalha da Vila Cruzeiro bem mostra a diferença entre o estrategista militar e o da segurança pública. Contra aparato de forças francamente desfavorável, os traficantes e seu bando foram expulsos do território. Foi-lhes permitido abandonarem posições e despojos com muito poucas baixas.
Os alemães também cometeram esse erro em Dunquerque. Perderam a guerra.
Contrariamente ao que a imprensa ufanamente divulga, os criminosos tinham sim um plano de fuga. O que se viu pela televisão foi um efetivo equivalente a uma companhia abandonar o terreno levando seu armamento para reagrupar-se em território amigo, o complexo do Alemão.
Tivesse a operação melhor planejamento, essa rota de fuga deveria ter sido ocupada previamente pelas forças da lei , preparando o bolsão e aniquilando o inimigo e sua capacidade de reação. Aí sim, se poderia dizer que houve uma vitória contra os traficantes.
Nova batalha será enfrentada, essa de maior proporção. Agora contra um inimigo reorganizado e com capacidade intacta de promover atos de guerrilha urbana. Sem o efeito surpresa.
Foram os planejadores dessa operação absolutamente incompetentes. Provavelmente, conhecem patavinas de história militar. Ou então não querem acabar com o tráfico, mas somente contê-lo, assegurar o fornecimento de drogas para a zona sul e pras festas de embalo, mantendo o sustento e a propina da banda podre da sociedade, policial ou não.
Conseguiram, no máximo, reduzir o acesso ao crack ao bando de zumbis que assaltam em cada esquina pra comprar uma ou duas pedras.
Temporariamente.

sexta-feira, novembro 26, 2010

Susto

A escalada da violência urbana teve um início claro. O período de exceção política.
Mas o que a ditadura tem a ver com isso, se em seu decurso não havia essa bandidagem? Tudo e nada.
Nada porque ela decididamente não a acobertou. Tudo, porque a constituição de 88, com o intuito de impedir a truculência do Estado, ainda traumatizada a sociedade pelo arbítrio, promoveu a impunidade em cláusula pétrea como efeito colateral à salvaguarda da liberdade e democracia. Abrigou, com a ampla condução da opinião pública pela imprensa, abortos como a culpabilidade somente admissível após sentença transitada em julgado pelo último tribunal recursal possível e a impossibilidade de pena de morte ou de trabalhos forçados. Propiciou também o surgimento da mão na cabeça prevista no ECA, entre outros.
Bando de polianas em que nos tornamos.
A escalada da violência urbana teve um meio claro. A tolerância hipócrita elitista.
Os ingleses promoveram o uso de entorpecentes em algumas de suas colônias, notadamente na China, como instrumento de dominação da vontade autônoma. Líderes de povos dominados aprenderam a lição e utilizaram a droga para expulsar invasores, como no Vietname.
Nos Estados Unidos, atolado numa guerra imperialista sem sentido, os alucinógenos passaram a ser francamente utilizados pela juventude, tanto a que estava diretamente envolvida na guerra como a que, em sua pátria, contra ela se mobilizava, bem representada pela geração hippie. O glamour libertário associou-se ao LSD, maconha, heroína e cocaína.
No Brasil essa geração ficou adulta e com independência econômica na década de 80, trazendo em sua bagagem a lembrança do glamour de Woodstock e das drogas. Foi a época das festas de embalo, em que LSD, maconha e cocaína faziam parte do cardápio. O meio artístico, pelo quase orgulho que demonstrava em utilizar as drogas abertamente, manteve a aura glamurosa do uso.
Essa geração, principalmente nas classes A e B, mesmo quando não fazia uso diretamente, foi extremamente tolerante com seus filhos, amigos e grupo social. O uso de drogas passou a ser tolerado, sem qualquer impedimento ou barreira à convivência. Porém, eram caras, exigiam recursos pessoais que restringiam o acesso por camadas mais pobres.
Para preservar seus filhinhos, conseguiram descriminalizar o uso. Os meninos poderiam continuar se drogando sem ser incomodados pela polícia. E assim, a droga passou a ser consumida juntamente com os currículos universitários.
Não se deram conta que o dinheiro fácil que escorregava para os traficantes era a fonte de financiamento necessária para a ampliação do mercado. Os traficantes passaram a contar com os recursos necessários para ampliação de seu negócio, passando a vender a crédito. Novas camadas foram incorporadas, em especial as desprovidas de recursos dos papais riquinhos, que passaram a roubar, assaltar e matar para conseguir pagar aos traficantes que lhes supriam e aos advogados que os libertavam. De quebra, a maus policiais que não os prendiam, a maus agentes penitenciários que lhes facilitavam a vida, a maus profissionais que os absolviam.
Mas aí veio o susto, chamado crack.
O crack é barato, ao alcance de qualquer um que tenha dois reais. E pior, não cria só dependentes, mas zumbis, sem princípios nem valores, sem rei nem lei.
Aí, a criminalidade explodiu e atingiu mesmo as camadas abrigadas em bunkers ou mansões. Todos, indiscriminadamente, mesmo os que habitam em coberturas e carros blindados, somos dependentes do crack e reféns dos traficantes.
Assustada, a elite governante e dominante começa a esboçar uma reação. Como sempre, de acordo com seus interesses. Guerreiam os traficantes para que, exauridos, fiquem impedidos de popularizar o uso, vendendo a crédito. Mas não combatem os usuários, origem do problema.
Como sempre, querem preservar a si e a diversão de seus filhinhos. Com toda segurança.
A escalada da violência urbana não terá fim enquanto a sociedade abrigar-se na hipocrisia de não reconhecer o tráfico e o consumo como irmãos gêmeos e submetê-los às mesmas regras .

segunda-feira, novembro 01, 2010

E Eu Também.

Todos, em todas as etapas da vida, sentimos medos, racionais ou não. Os racionais permitem uma avaliação, uma ponderação; são mais facilmente controláveis para que não se transformem em pavor, em paúra.
Já nossos medos irracionais, por não se detectar uma razão mais sólida que se sustente na reflexão, tendem naturalmente levar-nos ao descontrole, à cristalização, à limitação da reação.
Medos irracionais não sobrevivem à uma seqüência de "e daí?". É simples. Pegue um seu medo e o questione, pergunte-se a si mesmo "e daí?". Se na terceira ou quarta derivada a explicação da explicação da explicação não tiver chegado ao cerne e ainda refletir o medo, pode estar certo, estará configurado o medo irracional.
Li esses dias atrás que o homem não é um animal racional, mas um ser que racionaliza. Concordo com isso. Exercitemos, pois, nossa natureza.
Durante toda a campanha recebi milhares de mensagens tentando despertar meus medos. A maior parte não resistiu ao segundo "e daí?". Infelizmente, senti muita gente boa apavorada, à beira do irracionalismo.
As próprias campanhas dos candidatos tentavam estimular o medo, ao invés da esperança. Jogada de marketing, o medo sempre é um sentimento mais forte, a raiva mais intensa que o perdão.
Durante o período, refleti e procurei argumentar, dar novos elementos para reflexão a todas as mensagens que exprimiam medos racionais e ignorei todas as suportadas na irracionalidade. Se alguém gosta, sente o prazer masoquista de alimentar seus medos, quem sou eu para impedí-lo?
Medos racionais convivem com a esperança; os irracionais com o desespero.
Bem, Dilma foi eleita. Em verdade, foi eleito o governo Lula e rejeitado o modelo internacionalizante que o PSDB capitaneia. Os medos irracionais, reais ou forjados sobre os candidatos são coisas do passado e no máximo podem justificar um "eu não disse?", tão a gosto das pitonizas do óbvio e das sogras.
Dos meus medos remanescentes, prefiro ficar com a esperança. Que Dilma acerte mais do que erre, que suas ações sejam voltadas a nossa Pátria, a seus interesses de independência ampla e geral. Que consiga avançar em reformas há tanto tempo necessárias e ainda não viabilizadas.
Que não enverede pela distribuição do que não existe, mas que trabalhe para se ter o que distribuir. Que caminhe pela estrada nem sempre fácil da busca do bem comum. Que busque a união e dê paradeiro aos que trabalham para nos desunir, fragmentar, enfraquecer.
Enfim, que Lula tenha acertado na escolha. E eu também.