FregaBlog

sexta-feira, julho 29, 2011

O Que Mudou?

O Brasil devia muito dinheiro à banca internacional. Bilhões de dólares. O FMI nos invadia com seus canhões, normalmente mulheres-dragões, a vasculhar nossas contas e determinar ao presidente de plantão que devia fazer isso ou aquilo. E esse isso ou aquilo significava condenar contingente de compatriotas à miséria, à fome, à ignorância. Vidas poderiam ser rifadas nessa jogatina. Nunca os dólares de Wall Street ou da City.

O Brasil, manietado pelas constantes ameaças e insolvente, fez o jogo deles, pagou sua dívida numa cotação próxima a R$3/US$. Estancou parcialmente a sangria externa, com as malditas taxas de risco. Rifou seu patrimônio na inconseqüência neoliberal do tal Cardoso, que só fez o jogo deles. Com Lula, a dívida externa foi quitada em parte, em parte trocada por dívida interna.

Quando a gente pensa que ganhou, esses urubus estão sempre vendo melhor, porque voam mais alto. Nossos credores são os mesmos. A diferença é que agora devemos pra eles na moeda mais valorizada do mundo, não mais em decadentes dólares. Nossa dívida antiga, fosse paga hoje, nos custaria a metade do que custou. Quem ganhou? Os mesmos que sempre ganharam.

De quebra, o nosso Banco Central continua captando dólares a rodo, ajudando esses mesmos credores de sempre a se livrarem dos micos. Aumenta-se a taxa de juros, captam-se recursos externos e, com eles, compram-se títulos podres. Micos absolutos.

A China não fez caminho diferente nesse aspecto, mas a diferença é que também se industrializou com esses recursos. A China está trocando o excedente de seu desenvolvimento no financiamento de seu comércio.

Nós estamos tocando pelo nosso desenvolvimento, nossa desindustrialização. Pelo eterno financiamento da banca.

Devíamos dólares valorizados e só tínhamos moeda desacreditada para pagar.

Devemos Reais e só temos reservas desacreditadas para pagar.

O que mudou?

segunda-feira, julho 25, 2011

Amys e Beira-Mares

O desafio das drogas instiga a todos e ninguém ainda conseguiu uma análise holística desse fenômeno. O fato é não há como desconhecer essa epidemia e nem família ou grupo social que não seja atingido por ela.


Simplificando, percebe-se 3 correntes de opinião sobre seus efeitos. A convivência, mais fácil quanto ao uso de drogas que não degradem o comportamento social, como o cigarro, e mais difícil, numa escala que vai do álcool às drogas mais pesadas. A repressão, mais visível quanto às drogas mais pesadas, num gradiente decrescente até às ditas mais leves, e o tratamento, que ainda divide opiniões sobre sua efetividade, porque depende muito da vontade do infectado.


Como pano de fundo, o crescente desconforto dos entes sociais, em descompasso com a sociedade. A universalização de valores e rótulos impostos como padrão, em quase unanimidade, classificando pessoas pelo dinheiro ou exposição pública que têm, num comportamento iconocêntrico, parindo ídolos com pés de barro.


O tratamento está a exigir da sociedade a destinação de recursos cada vez mais insuficientes e, até o momento, com resultados pífios. O exato mecanismo de dependência química não é totalmente conhecido, porque ultrapassa o físico e envereda pelos meandros da mente individual e coletiva. É absolutamente lamentável ver a dor de uma mãe acorrentando seu filho para que não saia de casa enquanto ela vai à luta para sustentar seu próprio filho. É a imagem do desespero em último estágio, por não saber como tratar a situação.

Já a repressão esbarra nos conceitos do politicamente correto e, como de fato nunca se tem certeza quem será atingido, se um filho ou irmão, o próprio consenso social se forma por esse medo.


Em países como a Indonésia e China, o tráfico de drogas pesadas é reprimido com pena de morte. Aparentemente, têm impedido a propagação da epidemia. É uma solução radical, que amputa a sociedade para preservá-la. O tráfico é visto como gangrena social hoje, talvez por terem sentido na carne seu potencial de dominação sobre vontades, como na Guerra do Ópio, por exemplo.


No Brasil, até agora optamos por transitar nas 3 correntes.

Convivemos com naturalidade com o glamour de festas de embalo de famosos, quantas vezes não polvilhadas com cocaína? Convivemos com meninos que cheiravam cola e agora fumam crack e agora oxi. Com maconha nas universidades. É quase politicamente aceitável entre os tais ídolos referenciais de pés-de-barro. Convivemos naturalmente com o traficante da esquina, enquanto ele não nos atinja diretamente e reclamamos quando ele transforma nossa rua em sua cidadela. A sociedade até chora alguns de seus mortos nessa guerra, mas são lágrimas efêmeras. Anestesiada, quase as aceita com o sentimento de inevitabilidade do aleatório. Não passa da cobertura de um dia com imagens de dor dos atingidos, não raras vezes aliviando sua dor com patéticos apelos de Justiça!, como se isso fosse possível para quem morreu, ressucitá-lo ao menos.

Reprimimos limitadamente, de acordo com os interesses implícitos ou explícitos, num arcabouço legal frouxo e que impede a repressão na maioria dos casos. Fingimos, como na espetaculosa e midiática ação carioca do morro do Alemão, onde se promove uma mudança de traficantes para outros endereços fora da possível rota turística de uma copa do mundo. Fingimos que reprimimos, da mesma forma que somos permissivos com o usuário, fonte real e financiador primeiro de toda a cadeia das drogas, desde seu desenvolvimento, produção e comercialização.

Também transitamos no terreno do tratamento, muito mais privado do que público, mas somente como uma forma de aplacarmos nossa consciência.


Não há maior questionamento das causas e nem sobre o direito das pessoas em se suicidarem, se o quiserem. Há quem troque vida futura por prazer no presente. Ninguém desconhece o dano de certos hábitos alimentares nem que o próximo cigarro encurtará o ciclo biológico em alguns minutos.


Então, sem querer sem bonzinho nem politicamente correto, depois de tanta lenga-lenga, explicito minha opinião. Momentânea, pois não tenho conhecimento de causa e espero ainda mudá-la várias vezes, pela reflexão.


Fatores culturais: voltar a promover formação humanística nas escolas e universidades, com visão antropocêntrica, dando ao homem, não ao bem material, o foco da efetiva felicidade. Não sei como fazer isso, mas sei que não é fomentando e achando bonitinha uma sociedade crescentemente consumista e competitiva. Nem com a divulgação pela imprensa do consumo associado ao glamour dos ídolos-pés-de-barro que ela mesmo forma e cria, de olho em seus lucros.


Repressão: punir exemplarmente o traficante e o usuário, como sócios efetivos que são. O traficante e os que dele se utilizam nos corredores da corrupção, excluindo-lhe para sempre do convívio social, em amputação radical. O usuário, tratamento público na primeira ocorrência. Criminalização na reincidência, podendo alcançar a amputação social na progressão.


Tratamento: ao usuário, limitado à primeira ocorrência.


Ou então, libera geral e se dá o direito a cada um de como se suicidar. Pelo uso de drogas compráveis em farmácias, apodrecendo em masmorras ou em muros de fuzilamento, como conseqüência de crimes cometidos sob influência de drogas.


É radical, talvez menos do que a coleção de vítimas inocentes executadas diariamente nas esquinas pela população de zumbis que estamos deixando florescer pela nossa dubiedade, pelo não reconhecimento da epidemia social.

quarta-feira, julho 20, 2011

Registros de Mengele

Joseph Mengele foi encontrado morto no Brasil em 1979, em episódio obscuro. Digo obscuro porque, se ninguém sabia se ele estava aqui, por que desconfiar que aquele corpo seria o dele, submetendo-o a exumações e testes.

Bem, seja por qual liame do destino, confirmaram. Acontece que também foram encontrados seus escritos, relatos e esboços. Seus registros pessoais.

Os registros de Mengele devem ser preservados, sim. São uma demonstração do quão cruel pode ser o ser humano, do quanto pode alcançar a insensibilidade, o desrespeito pela dor e pela vida. É o diário de um carrasco, não de gente, mas da dignidade humana.

Pela barbárie, Mengele nos faz questionar se o gênero humano vale à pena.

Por outro lado, a notícia veiculada pelo site UOL de que o tal diário de Mengele, com os registros de suas passagens pela Argentina, Paraguai e Brasil, será leiloado pela casa Alexander Autographs, em Connecticut, Estados Unidos. Isso me surpreendeu.

Se os tais documentos foram encontrados em 2004 pela polícia brasileira, a federal, suponho, quais os tortuosos caminhos que percorreram até chegar a esse leilão, 7 anos depois.

Pelo que entendo, esses documentos deveriam ser incorporados ao acervo do arquivo público, à disposição de pesquisadores e estudiosos, como fonte de consulta. Que descaminhos palmilharam? Como saíram dos porões policiais? Quem o fez?

Se chegaram lá, de graça não deve ter sido.

segunda-feira, julho 18, 2011

Demagogia

Eu fico muito a vontade para tocar neste assunto em uma abordagem contrária à da opinião publicada. Politicamente incorreto, mas é o que penso.

Perdi um grande amigo no acidente da TAM em Congonhas, há 4 anos. O Brito. Estarmos distantes e quase sem nos falarmos não conflita com a amizade que tinha por ele. Por isso, sinto-me a vontade.

Sinto-me a vontade para considerar uma demagogia kassabiana de denominar a praça que será construída com o escatológico Praça Memorial 17 de Julho. Para quê? Para ocupar espaços na imprensa? Falta de nomes? Surfar na sobrevida de uma tragédia?

Muito mais gente é assassinada nas ruas administradas pelo alcaide; não vi anunciar a Praça Memorial dos Assassinados. Nem dos Roubados. Nem dos Estuprados. Nem mesmo o genérico Praça Memorial das Vítimas da Violência.

Os desastres aéreos, não sei identificar realmente a razão, ocupam espeço privilegiado nas mentes das redações. Pode haver um desastre de trem (aqui no Brasil, impossível, depois de acabarem com a rede ferroviária) com mais vítimas. Ou um rodoviário (ocorrem a toda hora). Ou as vítimas do mau atendimento nos hospitais e postos de saúde (esses aos milhares). Para ser mais light, quem sabe a Praça Memorial dos Espremidos em Transportes e Engarrafamentos Urbanos, com a sugestiva sigla METEU. Meteu em quem? Sei lá, não interessa. Em todos. Praça Meteu. Será que o Kassab aprovaria? Acho que não.

Esse exercício de manter aceso o medo da tragédia - só pode ser esse o objetivo - eu realmente não entendo. Buscam pelo em ovo e chifre em cabeça de cavalo para inferir causas. Elas são sabidas à exaustão, conforme os relatórios do CENIPA. O Ministério Público pediu o indiciamento de uns e outros e ganhou alguns minutos de holofotes.

Ora, façam o favor. As vítimas não viraram heróis pelo acidente. Foram somente vítimas por estarem no lugar errado no momento errado. O cutelo da morte age às cegas, muitas vezes, em nossa compreensão dos mistérios da vida.

Deixem-nos em paz. Vão arrumar o que fazer.

sexta-feira, julho 15, 2011

Trabuco Salvador

Seu Geraldo já estava de saco cheio. Todo mês tinha sua casa invadida por um malandro. Talvez não o mesmo, pois deve haver um tipo de escala entre bandidos. Assim, o radinho novo foi tocar pra ouvidos outros, assim o dinheirinho guardado virou fumaça. De crack.
Deu parte, lavrou ocorrências. Que nada. Chegaram a dizer pra ele que isso representava baixo risco social, infração leve. Considerasse isso como um imposto novo, uma contribuição social à sobrevivência dos malandros. Afinal, a gente já não paga salários milionários para tantos? Mais um, menos um, a sociedade suporta.
Quem não suportava mais era Seu Geraldo. Até pra namorar, tinha que chavear a porta do quarto. Vá que tivesse uma platéia oculta nas sombras. Seu Geraldo, decididamente, não se dava a esses exibicionismos.
Como fizeram uma lei que virtualmente invibiabilizava Seu Geraldo ter em casa uma arma legal, daquelas feitas pra espantar bandido, construiu ele mesmo uma. Criativo, arrumou o trabuco na mesa da cozinha e engatilhou sincronizado com a porta da cozinha. Quando abrisse, buummm. Ladrãozinho de merda.
Claro que a lei não permite a autotutela, em princípio. Justiça pelas próprias mãos? Nem pensar. Também nem pensar em efetividade do Estado em proteger o cidadão. São crimes de baixa ofensa social, definiram. O radinho e o dinheiro do pão? Problema do Seu Geraldo.
O malandro forçou a porta e foi visitar a cozinha e o fogão a lenha de belzebu.
Seu Geraldo, claro, indiciado por homicídio doloso, por assumir o risco de matar. Pode pegar até 30 anos de cana.
Penso que não houve homicídio, porém suicídio. Mas a lei não pensa assim.
Será que o ladrão também não assumiu o risco de morrer ao invadir a casa dos outros?
Bem, mas isso não interessa pra lei. Esse fato é real e aconteceu em Formosa, Goiás.

terça-feira, julho 12, 2011

Lobos

LUCIANA COBUCCI
Direto de Brasília

"O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) desistiu oficialmente de participar da operação de fusão entre os grupos Pão de Açúcar e Carrefour. Em nota divulgada nesta terça-feira, o BNDES cancelou a participação, que chegaria a R$ 3,8 bilhões, na operação, e justificou a decisão por "não atendimento às condições estabelecidas" Fonte:Site Terra

A diretoria do BNDES deve estar respirando aliviada. Arrumou uma saída honrosa para o lobby que levou à declaração de financiamento da (con)fusão dos grupos Pão de Açúcar e Carrefour. A desculpa seria evitar a desnacionalização do varejo no Brasil.

Nada mais falacioso. Mais falso que títulos da dívida americana.

O Diniz já havia vendido parte substancial do capital para o grupo Cassino, francês, com a promessa de entregar-lhes a gestão em 2012. Do tipo daquele cara que é capaz de vender a mãe, mas não entrega.

Com toda a aparência nacionalista, com bandeirinha do Brasil e o orgulho de ser brasileiro, acredito que esteja pouco se lixando com isso. A ética nos negócios também é questionável.
Pensei que era só contra os pequenos. Não é. O affair Cassino mostra que a gana predatória ignora o tamanho da presa.

O Grupo Pão de Açúcar retém parcela de pagamentos devidos a fornecedores a título de desconto financeiro. Nunca vi um comprovante dessas retenções nem emissão dos correspondentes documentos fiscais. Pura e simplesmente, retém os valores e pronto, mesmo cumprido o prazo ajustado de 55 dias para liquidação das faturas.
Essa é a ética nos negócios do grupo com os pequenos. Com os grandes, parece que não é muito mais transparente, a acreditar no presidente do grupo Cassino, que também não deve ser de brincadeira.

É lobo comendo lobo. E o BNDES ia entrar nessa furada.

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sexta-feira, julho 01, 2011

Apocalypse Now

Hoje é o último dia.
Os 4 cavaleiros chegam à galope, gerando o caos e distribuindo as pragas. Burocratas montados em 4 éguas irmãs na origem. A arrogância, a vaidade, a inconseqüência, a mentira.

Hoje é o último dia. Quem vender as tomadas elétricas antigas, será punido, execrado, multado.
Hoje, montados simultaneamente nas 4 éguas, um pé em cada uma, pois quadrúpedes são, cavalgam vestidos com a armadura rota do politicamente correto, a enfiar-nos goela a baixo o purgante que não queremos nem precisamos.
O modelo único, exclusivo e incômodo do design brasileiro de plugs e tomadas.

Não descarto que o alimento dessas éguas seja o dinheiro espúrio da corrupção, a alfafa monetária que alimenta os interesses pessoais na pretensa defesa dos interesses públicos, tão presente em Estados tutores como o Brasil.
Agora, cabe a nós procurarmos adaptadores e construir verdadeiras árvores de natal em nossas tomadas Isso sim, perigoso.

Claro que esses burocratas com antolhos desconhecem que há outras civilizações em nosso pequeno planeta. Civilizações ignotas que não circulam pelos arcaicos corredores do Inmetro nem assentam seus gordos bumbuns nas poltronas do funcionalismo público.
Tudo bem, nem são muitas. Afinal, só 97% da população mundial não faz reverências à burocracia brasileira, não segue seu padrão, não reconhece seus imbecis argumentos nem ouve nossa imprensa entrevistar especialistas de ocasião e inseguros consumidores, ambos convenientemente editados nas redações e editorias, defendendo a idiotice e formando a opinião publicada.

E nós, pagamos o pato. Haja gambiarra em nossas casas para fazer funcionar, desde os dispositivos vindos em sacolas do Paraguay até os equipamentos legalmente importados, ou ainda os que já dispomos em casa.

Riem às gargalhadas os cavaleiros do caos. Retorcem-se com o transtorno, em prazer quase orgástico.
Riem de nós.