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sexta-feira, fevereiro 28, 2014

Vox Populi

Episódio 1
Jean Pierre, com um prato com sopa de nabos, foi impedido de entrar na cela escura da Prisão do Templo, naquele começo de junho em que o calor e o abafamento tornavam o ambiente insuportável.
Os demais carcereiros riam e o empurravam de um lado para o outro. Uma voz rouca ainda gritou que filho de sapo, sapo é.
Jean Pierre ainda tentou chamá-los à razão. Era só uma criança, quase moribunda, de nada tinha culpa. Acometida pela febre e envolta em farrapos apesar da atmosfera nauseabunda, o deixassem levar-lhe um alento, ainda que fosse uma sopa aguada de nabos.
Calaram-se os demais carcereiros com a raiva em suas faces. Um grito único, como se combinado fosse, explodiu em todas as gargantas. Com varas, surraram Jean Pierre, fizeram-no lamber a pedra imunda com os restos da sopa derramada. Lambeu o piso e o sangue que escorria de si.
No dia seguinte, Luis Carlos, herdeiro de Luis XVI, exalava o último suspiro aos 10 anos de idade nos braços de sua tia.

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Episódio 32
Ya'acov, amontoado na praça, fez silêncio assim que o centurião levantou a mão em direção ao povo.
- A quem quereis que vos solte, a Barrabás ou a Jesus?
Antes de qualquer um, Ya'acov gritou: Jesus. Numa fração de segundo após, manifestou-se a turba: Barrabás, solte Barrabás.
Jesus, gritou novamente Ya'acov. É por inveja que o acusam. Barrabás, Barrabás, repetia a multidão.
A seu lado, um sacerdote apontou-lhe o dedo e acusou. Peguem, é um traidor de nossa lei, foi comprado pelos asseclas do agitador a quem chamam de Rabi.
Voltou-se a massa contra Ya'acob, bateram-lhe e cuspiram nele.
Ao entardecer, restava nas pedras somente o corpo inerte de Ya'acob em meio de uma poça de sangue. Foi o primeiro sangue que verteu naquele dia, antes mesmo da sessão de açoitamento.

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Episódio 95
A carta. Quem teria sido o traidor que a escreveu?
A França ainda padecia das feridas da derrota contra a Prússia. Alguém espionava para os alemães. Um oficial. Mas qual?
Sim, havia um judeu, um oficial judeu. Claro, ele era um espião.
Convulsionou-se Paris. A turba em gritos gritava: -À guilhotina com o traidor. Matem. Esmaguem a barata traidora.
Julgado e condenado à prisão perpétua na Ilha do Diabo (a mesma de Papillon), apodreceu nas masmorras tropicais por longos anos. Embora 3 anos após sua condenação já houvesse provas suficientes de sua inocência e a identificação do verdadeiro culpado, novo julgamento confirmou-lhe a pena vitalícia.
J'accuse, escreveu Zola, denunciando a injustiça. Dividiu-se a turba em barricadas. Uma gritava, viva Zola. Ao que a outra respondia, em meio a vaias: Viva o exército, morte aos judeus.
Um novo julgamento, 12 anos após, restabeleceu a verdade da inocência de Dreyfus.

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Episódio 134
Esses facínoras mataram seus primos para roubar-lhe 90 contos de réis, acusava o delegado. Assassinos, berrava o populacho. Matem, merecem morrer.
Prendam sua mãe, suas mulheres. Façam contar onde esconderam o dinheiro roubado.
Não foram poucos os suplícios às torturas medievais do tenente do exército responsável pela acusação. De abusos sexuais a surras homéricas. Ainda assim, negavam o crime que, aliás, decorria de haverem denunciado que os primos haviam fugido da cidade após dar um golpe financeiro em Araguari.
A cidade amanheceu redimida, os irmãos haviam sido condenados a 25 anos de cadeia.
Onde passavam, a população os agredia.
- Assassinos, ladrões. Porcos imundos, merecem morrer. Da mesma forma era tratado seu advogado defensor, voz única a protestar suas inocências.
Em liberdade condicional após cumprimento de 9 anos encarcerados, tentaram restabelecer a verdade. Quer dizer, um tentou, o outro havia morrido em um asilo em conseqüência das seqüelas das torturas, do desgosto da injustiça, da insalubridade da prisão.
Em suas diligências, o primo desaparecido reaparece.
15 anos após o julgamento primeiro, Sebastião Naves, o remanescente, comprova a inocência sua e de seu irmão, que já não estava aqui para encarar nos olhos aqueles que os condenaram.

Por tudo isso penso. Vox populi, vox Dei. Contrariar a voz manipulada do povaréu com sede de sangue é um ato de coragem ou de insanidade? Só o tempo pode restabelecer a veracidade fatos.
Vozes singulares, não.

quarta-feira, fevereiro 26, 2014

Iconoclastas

Sei, ano eleitoral é ano de polarizações, defesas e ataques tantas vezes sem fundamento. É um mau hábito, mas é um hábito. Porém este ano está diferente, um terrorismo crescente fundamentado em premonições ou mentiras. Não importa o lado, o partido, a corrente, a tendência é a mesma.
Nossa sociedade sempre foi iconoclasta. É uma relação de amor e ódio, pois no mesmo momento que procura destruir ícones, anseia por um salvador e aposta suas esperanças em novo ícone forjado. Faz a dança do bezerro de ouro.
O que vemos nos últimos dias:

Campanha contra a Friboi, a maior indústria de processamento de proteína animal do mundo, um gigante multinacional brasileiro. É uma história de sucesso que surfou na onda da construção de Brasília e transformou-se de um açougue em Anápolis em mais de 300 unidades de produção em vários países. Ah, mas não, um sucesso assim só pode ter picaretagem por trás. É do Lula, do filho dele e sei mais de quem. Cresceu assim porque obteve benesses governamentais.
Tudo isso é jogado ao vento para que se acredite que é impossível a brasileiros caipiras destacarem-se dessa forma. Era muito melhor reclamar dos calotes da Swift-Armour, do domínio interno de multinacionais estrangeiras. Pouco importa se é uma companhia de capital aberto com ações listadas em Bolsa e com todos acionistas identificados. Pouco importa se o BNDES concedeu-lhes crédito nas mesmas condições que pratica inclusive para empresas estrangeiras controladas por holdings estrangeiras. na irracionalidade, nada importa. É do Lula e pronto. Partidariza-se o boi e o pasto.

Lewandowski assumirá a presidência do STF e atropelará ritos processuais para soltar mensaleiros. É outra impossibilidade que se planta numa partidarização da justiça.
As suspeitas levantadas por juristas de primeira linha quanto ao atropelo promovido pelo atual presidente, tanto em ritos como em desconhecimento de contra-provas, tudo isso pouco importa. Foca-se num possível atropelo futuro, em cristalização do medo do amanhã.
Lewandowski é um jurista conceituado. Academicamente com mais títulos do que a absoluta maioria de seus pares. Foi advogado atuante, coisa que outros não foram. Foi guindado ao Tribunal de Alçada de SP pelo quinto constitucional, ou seja, indicação de seus pares. A questão se resume a ter se oposto à sede de sangue que norteou o espetáculo circense do julgamento e ter sido indicado para o STF por Lula. Isso é motivo suficiente para desconsiderar todo seu passado de jurista e lançar a suspeita geradora de medos à sociedade. Mitos devem ser destruídos. Ícones, desmoralizados.

E o Porto de Mariel, então? Dilma construiu o porto em Cuba enquanto nossa safra enfrenta filas nos terminais para descarga. Dá pra se imaginar mentira maior do que essa?
Enquanto patinamos aqui com o marco regulatório dos portos, o que revoga restrições de operação de portos privados e que submeteu o governo a ter que negociar sua aprovação no Congresso pela oposição suspeita do líder do PMDB Eduardo Cunha, não havia tanta comoção. Mas no momento em que o BNDES concedeu créditos a empresas nacionais - algumas gigantes do setor inclusive - para que produzissem os equipamentos, os exportassem com financiamento garantido e construíssem o referido porto. Ah! é picaretagem, é coisa do Lula, da Dilma, são sócios da Odebrecht, são comunistas. Acho que é o único caso em que pessoas são acusados simultaneamente capitalistas e comunistas.
No pano de fundo, é a ousadia de brasileiros, pés-de-chinelo, resolverem ocupar nichos industriais e comerciais em competição com os ídolos do primeiro mundo. Desconhecem seu lugar, como se dizia há meio século, ficassem na cozinha e nas áreas de serviço.
Não, é impossível para brasileiros. Tem que ser picaretagem.

A Petrobrás foi falida pela má gestão politizada, o pré-sal é uma farsa, é um devaneio brasileiro construir plataformas no Brasil.
Pois bem, a Petrobrás encerrou seu balanço com o maior lucro de sua história e o pré-sal atingiu a marca superior a 400 mil barris diários. Que atrevimento. E a indústria naval brasileira toma corpo, após ter sido liqudada pelo descrédito em nós mesmos.
Não custa lembrar que há 60 anos as consultorias internacionais - certamente compradas - eliminavam a possibilidade de haver petróleo no Brasil. E tanta gente acreditou, a ponto de levarem um presidente ao suicídio por haver enfrentado essa mentira.

Quanto tempo ainda levaremos para nos livrar do rodriguiano complexo de vira-latas? E será que conseguiremos nos livrar dele ou teremos que enfrentar o esfacelamento nacional para que, minimamente, adquiramos alguma dignidade de cidadania?
Será que o Brasil terá que ser demolido como um ícone que tanto nos apraz destruir?
Já não sei.