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segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Congresso

A política brasileira não cansa de me surpreender. Será só a brasileira? Acho até que não, mas esta está mais perto, me atinge mais. Presto mais atenção a ela.
Ontem ocorreram as eleições para a presidência da Câmara e do Senado, o que implica a do Congresso.

Os movimentos do Planalto eram absolutamente previsíveis. Contra Cunha e a favor de Renan.
Primeiro, a de Eduardo Cunha.
Não é um novato. Já em 89 despontou como tesoureiro de campanha de Collor no Rio de Janeiro, Ganhou a presidência da Telerj de prêmio. Após o impeachment, suprido dos meios, começou a correr em raia própria e ganhar densidade política no Rio. Foi Secretário de Habitação de Garotinho, etc. Aliança de ocasião, como de hábito em seu currículo. O fato é que nunca andou bem acompanhado mesmo.
Pelo noticiário, responde a 22 inquéritos ou ações. Virou evangélico, de olho no crescente eleitorado manejado por pastores. De certa forma, os interesses comuns conduzem suas alianças, esse caso não deve ter sido diferente. A densidade política começou a render seus frutos em densidade eleitoral. Como parlamentar, verdade ou não, é voz de corredores que não há tese que defenda sem que interesses ocultos as suportem. O último exemplo seria seu combate ao Marco Civil dos Portos, que desengessava o setor e quebrava privilégios. Vá se saber, se os interesses são ocultos, como seriam explícitos?
Como líder de bancada do PMDB traçou sua estratégia e a perseguiu de forma competente para chegar à presidência da Câmara e ser o terceiro na linha sucessória da república.
Mas não pára por aí. Se próximo passo é ser indicado pelo PMDB para cabeça de chapa em 2018, para a Presidência da República.
E quer saber? Isso é bom. Paradoxalmente bom.
Terá que exercer a presidência da Câmara com menos conchavos, com ética no campo do possível. Terá que mudar sua estratégia de conduta exercida até agora.
No paradoxo, podemos ter uma presidência da Câmara com alguma proficiência e transparência. Pode até ser que abandone algumas propostas, cantos de sereia, de campanha. Como o orçamento impositivo, coisa que vale para um parlamentarismo, não para um presidencialismo ainda que de coalizão. Ou passagens aéreas para as digníssimas dos deputados por conta do erário, em similaridade às visitas íntimas dos presidiários. Talvez nos 4 dias da semana em que os srs deputados fiquem em suas bases, não compareçam na intimidade conjugal. Vá se saber também.
Trombará com Dilma, sem dúvida. Como penso, ela é suficientemente doida pra não dobrar a espinha.
Vai ser uma disputa interessante, um MMA político.

E Renan? Esse tá na cara.
Também na voz dos corredores, pouco se difere de Cunha. Talvez responda a menos inquéritos/ações, mas a essência é a mesma. Por que, então, era previsível o apoio do Planalto?
O motivo é simples e claro. Renan não tem as pretensões de Cunha, um alpinista político. Importa-lhe garantir um poder menor, mais provinciano, menos sectário.
O Planalto precisava que, ao menos em uma Casa, a negociação fosse menos orçamentária e mais de poder político, capaz de barrar, ou procrastinar, iniciativas da Câmara.

A realidade é que o Congresso republicano, na denúncia centenária, mas ainda ainda atual, de Ruy Barbosa, transformou-se numa praça de negócios.
A diferença é que Cunha negocia para si e Renan para um grupo. E essa diferença faz toda diferença nos tempos bicudos que vivemos.