quinta-feira, dezembro 22, 2016

Tambores, Carnaval e Patuléias

Conta-se que nos navios negreiros, a forma de acalmar os infelizes era promover uma batucada. O ritmo lhes era irresistível e o impulso da dança e saracoteio uma compulsão. Maior até que o sofrimento do cativeiro.
Somos um país com forte influência desses tempos. É comportamento esperado e politicamente correto rebolar ao escutar uma música, um ritmo, uma batucada. E o resto que se dane.
Por que escrevo isso? Porque é assim que somos, é assim que tratamos nossos assuntos, com carnaval e futebol, com piada e conformismo. Com a crendice supersticiosa, com a passividade bovina.
Somos assim, para o melhor e pior. Característica nossa. Somos um povo violento, mas não combativo. Até mesmo acovardado em minoria.
E assim formamos nossa democracia.

Não tenho dúvida de que temos uma democracia forte, tão forte que é capaz de suportar golpes de Estado armados ou não. Nenhuma democracia no mundo, ao que conheça, seria capaz dde suportar tantos golpes e permanecer vendo-se democrática.
Na realidade, não estamos nem aí para essas coisas. O que vier, três palitos.
De generais a juízes, de políticos a aventureiros, o que queremos é um salvador, um feitor, um dono de terra e gente que nos dê motivo para demonizar ou divinizar. Queremos alguém no pedestal, de preferência mandando bater tambor ou manejar o chicote.
E somos crédulos, por cultura e conveniência.
Acreditamos que Getúlio era o pai dos pobres, que Juscelino era corrupto, que Jango era comunista, que os governos militares não tinham corrupção, que Sarney, |Collor Cardoso, Lula e Dilma, todos sem exceção, deviam ser apeados dos postos em que os colocamos.
Nossa democracia é forte, aguenta tudo isso por um motivo só: a gente não está nem aí pra  ela, desde que tambores sejam tocados.
E que não se fale em libertar, liberdade nos assusta.

O império caiu porque decretou a libertação.
Os salvadores da Pátria personificados no tenentismo não tinham propostas outras além de sua arrogância juvenil do tudo saber.
Getúlio, navegando em marés autoritárias em 3 constituições nos 15 anos, aproximou-se da figura mítica do salvador. Deposto e retornado pelas urnas, suicidou-se  por ver que as forças que não admitiam a independência nacional eram mais fortes do que nossa escravidão cultural.
Juscelino revolucionou, integrou o Brasil pela nova capital. Comprou os apoios parlamentares e militares para tal. Foi chamado de corrupto exatamente pelos que se beneficiaram de propinas e boquinhas. Custou caro Brasília, muitos bolsos foram cheios, não o dele, mas dos poderosos.E impedido de voltar, pois poderia novamente enveredar pelo caminho da independência.
Não outro foi o caminho de Jango. Apeado do poder a um ano do término do mandato, A geopolítica da Guerra Fria, os comandantes militares mais americanos do que brasileiros (não, nada a ver com Moro, esse é juiz)não podiam permitir posição outra que não fosse o alinhamento integral e a submissão completa. De sargento a general, de taifeiro a almirante, de cabo a brigadeiro, passeando por todas as graduações e patentes, teve boquinha pra todo mundo e qu aplacasse resistências.
Mas os tambores tocavam, saracoteávamos ao som dos tambores e dos chicotes. Até a hora em que os patrões mudaram a tática, não havia mais Guerra Fria, eram tempos de distensão.
De lá pra cá, a história é mais recente, num formalismo democrático executado com a tirania dos feitores. Substituí-los se não atendessem os anseios de quem manda? Simples.
Basta uma campanha midiática suficiente para saracotearmos, batermos panelas, demonizarmos, xingarmos,acreditarmos - se é que a gente acredita em alguma coisa - que somos inependentes em nosso cativeiro.

Por isso Lula é um risco, um perigo, uma ameaça. Deu um gostinho da independência aos escravos, alguns gostaram, outros preferem permanecer cativos. Mas muito gostaram, a maioria gostou, um fator diferencial de Getúlio, Jango e Juscelino.
Outros preferem Moro, um malabarista das leis e códigos, capaz de processar pela suposição de que havia uma possível e suposta intenção criminosa. Não, essas fumaças de independência fazem muito mal, o maldito 9 dedos foi se meter a criar universidades, a fazer escolas, a fomentar o crescimento de empresas nacionais. E sua pupila Dilma, a audácia de definir que o pré-sal é nosso. Que perigo.
Moro, o deus-vivo da hora, o agente certo para garantir-nos a confortável escravidão, haverá de impedir, afastar de vez o risco dele voltar e continuar sa obra.
A patuléia dançante e carnavalesca poderá manter seus feitores, limpar suas latrinas, bajular seus donos e contentar-se com as migalhas que lhes caem das mesas.

Mas o som dos tambores estará garantido, e é isso o que importa.

0 Comments:

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home